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17 de Novembro de 2018

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Edição nº 907 / 2017

31/01/2017 - 11:24:53

Teotônio Vilela

Mauricio Moreira

O tempo não é uma ficção; o tempo existe. Parece que foi ontem e já são decorridos 34 anos da morte de Teotônio Vilela, o indomável defensor da democracia; a última grande voz deste País.
Dizem que Santiago Dantas, que era um gênio, também um estadista pelo vislumbre do futuro, não gostava de conversar com Teotônio e argumentava: - “Ele pensa dez anos na frente da gente”.
Em verdade Teotônio, com a sua palavra cortante, ao mesmo tempo bonita, pois partida de uma alma incendiada e patriótica, resgatou, à época, a dignidade do Brasil. Lutou bravamente contra a ditadura; enfrentou cães e a Polícia; visitou os presos nos porões das torturas. Esbravejou civicamente e pregou um país igualitário, onde os riscos fossem menos ricos e os pobres fossem menos pobres. Ele lavrou flagrante, através do “Projeto Brasil”, do quadro triste e desolador do nosso povo. Mas também pregou a esperança e a fé na democracia.


Tenho no acervo de minhas recordações inúmeras lembranças de Teotônio. Uma vez no Teatro Deodoro, ouvia a sua voz tonitruante e de dicção perfeita. Era uma noite de chuva destemperada. E os pingos de água corriam pela vidraça, como se fossem lágrimas. E Teotônio, lá no palco, sob o silêncio de uma plateia extasiada: “O Projeto Brasil quer uma sociedade democrática, socialmente integrada, com suas mais graves distorções estruturais pelo menos atenuadas”.


Recordo o Menestrel em sua casa, no Farol, conversando com Rouxinóis, debaixo de mangueiras amigas, discorrendo sobre literatura, exaltando Bandeira, Drumonnd, Rubem Braga, Sabino e tantos outros.


Jamais me esquecerei da crônica que ele escreveu, falando do meu pai, Napoleão Moreira, sob o título “Um simples encontro”. É uma obra prima. Fala sobre tudo da solidão. Veja que beleza de definição: “De conversa em conversa a noite foi crescendo. Lá fora as canseiras do dia acalentavam o sono dos que não são solitários”. E mais adiante: - “Napoleão era um solitário permanente e ao mesmo tempo um solitário generoso de todos os inconformados”.


Teotônio foi um grande amigo meu. Solidário nas horas covardes da humanidade; decidido, corajoso e leal.
Lembro-me, por último, já debilitado pela doença, pondo a mão no meu ombro, dizendo, citando Fernando Pessoa: “Seu Maurício”, como ele me chamava: “Deus queira que se cometa menos o exercício da solidão e demore a haver mais os verdadeiros tristes do coração/Deus queira que aos amorosos nunca aconteçam desgraças e que seu amor seja sincero, e quase sempre inconfessável/Porque não há nada pior do que o amor bem comportado”.


Grande Teotônio, a saudade de você é como se fosse um capricho n’alma. E como dói!

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