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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 907 / 2017

31/01/2017 - 11:22:58

A velha senhora

Alari Romariz

Quando criança conversava muito com meu pai a respeito de fatos interessantes ocorridos em Maceió dos anos 40, 50. Nessa época poucas mulheres trabalhavam fora de casa. A grande maioria era simplesmente dona de casa. Os pais sonhavam com o casamento das filhas e muitos não se preocupavam com a carreira profissional de pessoas do sexo feminino.


Mas havia algumas que iam ser professoras. Era uma profissão quase que restrita às mulheres, principalmente no curso primário. Entretanto, eu já descia no bonde do Farol com duas estudantes de Medicina e olhava para elas com muita admiração.


Ainda na minha infância morava perto de nós uma senhora por quem tinha grande respeito. Casada com um político de família tradicional, era uma mulher de classe. Criou os filhos com muita garra e tratava as crianças, principalmente, com gentileza. Fui quase amiga dos filhos dela.


Os anos foram passando e fui convivendo com mulheres maravilhosas. Era o tempo em que o marido dizia: “Minha mulher não trabalha fora de casa”. Mas conheci uma corajosa; de família rica, casou com um professor primário, pobre, muito pobre. Os pais da moça não aceitaram o casamento e ela passou a trabalhar em casa, plissando saias, fazendo bolo para vender. E ajudou o marido a subir na vida, chegando a deputado estadual. Criou as filhas e hoje, viúva, aos 90 anos, mora na Ponta Verde, passeia pelos “shoppings” com uma cuidadora e, quando nos encontra, bate conosco um longo papo e damos boas gargalhadas. Cabeça lúcida, lúcida...


Já casada, conheci outra mulher digna de nota. Veio do interior, casada com um moço pobre, inteligente. Mãe de quatro filhas, mantinha sua casa impecável, cozinhava muito bem e nunca perdeu a humildade no temperamento, apesar de ter morrido morando num belo apartamento à beira mar da Ponta Verde. Há poucos dias, meu marido foi atendido por uma linda médica, sua neta!


Caminhando por esse mundo de meu Deus cheguei ao ambiente militar. Sempre me impressionei com alguns colegas de meu marido que chegaram ao generalato. Poucos conservaram a postura de pessoas normais, não se deixando envolver pela posição do cargo exercido. Mas, o que mais me chamava a atenção eram suas mulheres. Fui e sou amiga de várias e algumas me cativam pela simplicidade. Das que ficaram vaidosas, mantenho certa distância e tenho até pena das pobres coitadas que, se não forem cremadas, chegarão ao cemitério, como é o fim de todos nós. 


No ambiente político, existem belas mulheres que acompanham o marido, mas seguem seu caminho com dignidade. Quem não se lembra de uma socióloga, que foi primeira-dama do país e criou vários programas para melhorar a vida de famílias pobres? Não era simpática, mas muito inteligente, procurou ajudar o marido, investindo no combate à pobreza.


Nosso estado produziu grandes mulheres: médicas, advogadas, professoras. Mas na realidade a área política sempre foi muito perigosa. Tivemos uma senadora que se tornou conhecida no Brasil inteiro, entretanto em Alagoas conseguiu muito pouco. Os abutres são muitos!


Conheci uma mulher, mãe de 14 filhos, com pouca leitura, mas que deixou um exemplo excelente de mãe, avó, bisavó. Morreu há alguns anos e sua lembrança ainda é muito forte. Criou os filhos com muito sacrifício, com o marido sempre viajando e soube dar conta do recado.


Convivi com outra, mãe de oito filhos, semi-analfabeta. Colocou os filhos nos melhores colégios da cidade com o dinheiro que “amealhava” do marido. Ele dizia: “Não posso colocar meus filhos em colégios particulares”. Ela, com toda certeza respondia: “Pode sim!”


O mais importante, no entanto, é o respeito que uma senhora impõe no ambiente onde vive. Idosa, casada, ver um filho ou uma filha chegar a seu lado, com todo respeito, beijar-lhe a testa ou as mãos.


Chamo de velha senhora a pessoa que, independente de trabalhar fora ou não, faz de sua vida um exemplo para filhos e netos. Lutarei até o fim de meus dias para chegar ao mais alto posto de uma família: ser uma velha senhora!!!

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