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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 907 / 2017

31/01/2017 - 11:02:18

Jorge Oliveira

O doutorzinho e a arte

Jorge Oliveira

Barra de São Miguel, AL - Quando eu estava pesquisando a vida da psiquiatra Nise da Silveira para o meu filme Olhar de Nise, estive no hospital do Engenho de Dentro, no Rio. Lá, fui apresentado a um paciente que se encarregou de ciceronear a minha visita. Vimos celas, corredores, enfermarias, pátios, almoxarifados e, finalmente, entramos numa sala de recreação. O louco parou, olhou para mim e, emocionado, disparou:
- Ali, naquela parede vazia, caiada de branco, existiam várias pinturas nossas. Mas um doutor novo chegou aqui e mandou apagar tudinho.
Foi naquele hospital, entre as décadas de 1950 e 1960, que a psiquiatra alagoana Nise da Silveira e o pintor Almir Mavignier descobriram, entre centenas de doentes mentais, grandes talentos da pintura brasileira como Fernando Diniz, Adelina, Carlos Petrus, Emigdio e Raphael, que se perpetuaram na arte. Felizmente, naqueles tempos não apareceu por lá nenhum doutorzinho para apagar as suas belas pinturas que correram o mundo.
O que o prefeito de São Paulo está fazendo com a arte de rua da cidade se assemelha muito com a atitude do doutorzinho do Engenho de Dentro. Sem consultar a população, ele decidiu tornar ainda mais cinzas as paredes das ruas da cidade antes tão coloridas pelas mãos dos talentosos grafiteiros, que decidiram humanizar a selva de pedra com seus pincéis mágicos e as suas pinturas multicoloridas, de conceitos concretos e abstratos, admiradas no mundo.
João Doria, o prefeito, responsável pela tragédia cultural da livre criação, é o nosso Trump tupiniquim. Eleito no primeiro turno das eleições paulistas, substituiu um petista que bateu todos os recordes de rejeição. Mas conseguiu chegar ao topo da administração de uma das maiores cidades da América Latina sem nunca antes ter sido testado nas urnas, vendendo à população o discurso do não político. E, surpreendentemente, age como os políticos carimbados com demagogia e populismo barato.
Ao tomar posse transformou-se em gari, pedreiro e ciclista. Uniformizou-se e foi para as ruas catar lixo. Não demonstrou nenhuma habilidade na nobre tarefa de limpar a cidade nem na de pedreiro e muito menos na de ciclista. Mostrou-se incapaz até para imitar o ex-prefeito Jânio Quadros, o exótico político, fabricado também pelos paulistas, que governava (?) com uma vassoura.
Doria, que se diz apolítico, quer cativar a população com demagogia.  Quer parecer igual à massa que o elegeu. Quer passar por todas experiências para governar tomando as decisões acertadas, nada mal para um executivo forjado dentro de um escritório. Até terminar o mandato ainda pode ser trocador de ônibus, leão de chácara, motorista de táxi, vendedor ambulante, feirante, garçom, entregador de pizza, ambulante, chincheiro e cozinheiro. Com tantas atividades, certamente, não vai sobrar tempo para São Paulo.
Se para administrar o seu torrão ele precisa fazer essas piruetas para mostrar à população que é um simples mortal, mesmo para quem declara um patrimônio de 180 milhões de reais, espera-se dele um certo equilíbrio para não ir ao extremo nas suas elucubrações e se jogar do Martinelli, um dos maiores arranhas céus de São Paulo, como experiência final da sua administração.

O mais preocupante de tudo isso é que a equipe do prefeito pensa igualzinho a ele, como agiam os soldadinhos do Plínio Salgado. Uma turma de serviçais que diz amém aos seus atos esdrúxulos. Não à toa, o JN mostrou o seu secretário de Cultura assinando embaixo a decisão do doutorzinho. Justificava que outras pinturas “seriam preservadas” ao tempo em que obedecia as ordens dele e mandava apagar os desenhos e as pinturas que suavizavam o amontoado de concreto de São Paulo.
O que se pode esperar de um prefeito que começa o mandato vandalizando a própria cidade?  Ele acha que os votos que recebeu dão-lhe o direito de tomar decisões monocráticas e intempestivas próprias de quem não sabe exercer o cargo ouvindo o povo de onde emana o poder.

Conspiração
Oitenta e três por cento dos brasileiros acham que a morte de Teori Zavascki foi um atentado, segundo o Instituto Paraná de Pesquisa.  E por mais que se negue, ninguém jamais vai acreditar que o homem que tinha o poder de manter os poderosos na cadeia teria sofrido um acidente, uma mera fatalidade. Para dissipar toda as dúvidas, o governo precisa se empenhar em elucidar o caso com uma investigação consistente e minuciosa que prove por a mais b que o ministro não foi assassinado pelas mãos de mercenários a serviço do crime organizado. A primeira reação da população ao acidente aéreo de Teori foi a de uma morte planejada, a exemplo do que ocorria na operação Mãos Limpas, na Itália, quando os mafiosos assumidamente explodiam juízes. Aqui, se houve um atentado, nenhuma organização jamais vai assumir porque, em matéria de crimes misteriosos, evoluímos à sofisticação inimaginável.


Dúvidas
Assim como você que me lê, eu também tenho dúvidas que me levam a crer na teoria da conspiração por alguns erros que se cometem em casos como esses de repercussão internacional, que poderiam ser chamados de queima de arquivo. Senão, vejamos algumas curiosidades: já que todos os passageiros foram declarados mortos, por que não esperar uma perícia especializada para remover os destroços da aeronave de modo a não se perder vestígios de um provável atentado? A exemplo do PC Farias, o local foi desfeito dificultando uma investigação científica do caso. Os pedaços do avião foram retirados do mar atabalhoadamente, sem o menor critério para um caso como esse que deixou o mundo perplexo e vai sempre suscitar dúvidas.


Federais
Por que o ministro não era protegido por agentes federais, já que alegou diversas vezes que sofria ameaças de morte, como ele próprio revelou, e seu filho confirmou? Se estava escudado por agentes, por que eles também não embarcaram na aeronave? Como esse avião foi preparado para a viagem do ministro? Quais os técnicos aeronáuticos que deram o sinal verde para o voo? Há quanto tempo esta viagem estava programada? Quem programou e quem sabia antecipadamente desse percurso? Por que a demora em identificar o piloto, quando se sabe que a identificação é registrada na saída do aeroporto, como é de praxe? E o mais grave: por que Teori iria descansar na casa do empresário Carlos Alberto Ferreira Filgueiras, dono do avião, sócio do BTG Pactual, cujo presidente André Esteves fora solto por ele na operação Lava Jato?


Sigilo
Se a gente for analisar o caso da morte do ministro apenas pela teoria da conspiração, muita gente poderosa e endinheirada tinha motivos para planejar um atentado contra ele. Teori já havia comunicado que no próximo mês iria quebrar o sigilo de toda delação premiada da Odebrecht, onde seriam revelados nomes de autoridades comprometidas com a corrupção no país, a maior de que se tem notícia no mundo.  O ministro, tido como casca grossa, manteve quase cem por cento todas as sentenças do juiz Sérgio Moro e não relaxou prisão de réus da Lava Jato, com exceção de André Esteves. Ao contrário de alguns de seus pares que gostam de plateia, atinha-se à forma da lei com a discrição que cabe a um integrante da suprema corte do país.


Envolvimentos
O caso em que o ministro trabalhava, o da corrupção de bilhões de reais em vários países, é um dos mais nebulosos do mundo. Envolve pessoas do mais alto quilate: empresários, políticos, presidentes e ex-presidentes; banqueiros e altos executivos de empresas estatais e privadas, muitos ainda engaiolados e sem chances de liberdade. Portanto, dinheiro não faltaria para alguém encomendar a morte do chefe de um processo como esse que até então caminhava para levar aos presídios dezenas de magnatas envolvidos com propinas.


Mercenários
Os mercenários estão por toda parte. Normalmente, esses grupos, veteranos de guerra, trabalham a soldo do crime. São especialistas em atentados que não costumam deixar rastros dos seus atos pela perfeição com que os cometem. Dinheiro para essas empreitadas é que não faltaria.


Vulneráveis
Se existem controvérsias quanto à morte acidental do ministro e seus acompanhantes, o governo precisa dar transparência ao caso para que não pairem dúvidas quanto à seriedade das investigações. Costuma-se, no Brasil, evocar o sigilo em processos como esses para que tudo caia no esquecimento. Os membros do Supremo Tribunal Federal não devem permitir que isso aconteça porque todos agora estão vulneráveis enquanto as investigações não chegarem a uma conclusão convincente sobre a morte de Teori.
Pela teoria da conspiração, os brasileiros já deram seu veredicto: o ministro foi alvo de um atentado. E ponto final. 

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