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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 906 / 2017

24/01/2017 - 08:04:44

Desideratos de eleitor

Cláudio Vieira

O título é torta homenagem a indivíduo que conheci em passado algo remoto. Não podia o sujeito encontrar tal palavra, eliminava-a sem pensar duas vezes, a caneta sempre pronta a arrancar o vocábulo do texto que lhe era apresentado. Jamais explicava o porquê de tal ojeriza, contudo eu sempre desconfiei de que, dono de um discurso de retórica chã, algumas vezes apenas pincelada de cultura superficial, intuia ele que o uso de termo tão antigo poderia denunciar que o escrito não teria sido da sua própria lavra. Preferia substituí-lo por “desejo”, alheio ao fato de que este chegara à língua portuguesa através do latino desiderium.


Explicado o título, estava eu a pensar, com o correr deste ano pré-eleitoral, o que o eleitor pós-Lava Jato esperará dos seus candidatos. Honestidade? Certamente, não apenas de propósitos, mas também de atuar presente e futuro, assim vivendo honestamente, segundo vetusta lição de Ulpiano: honeste vivere. Esta deve ser, sem dúvidas, a primeira qualidade de qualquer ser humano, gênero ao qual os políticos – embora renitentemente - estão inseridos. Parece-me que tal atributo é pai e mãe de todos os outros: Honestidade é não roubar; não enganar o outro (novamente Ulpiano: alterum non lædere – leia-se lédere), através de falsas promessas e falcatruas; é cumprir o prometido; é portar-se dignamente, não vendendo a corruptores o cargo ao qual foi guindado pela vontade popular; não fingindo parecer o que não é, por exemplo. Temo que o eleitor esteja buscando o ser perfeito, algo bem próximo de Deus, muito difícil de ser encontrado. Não custa, todavia, esperar que assim seja, ou ao menos que os pretendentes a cargos eletivos esforcem-se para sê-lo. Isto já seria um bom caminho.


Estou eu nesse meu elucubrar, de certa forma uma catarse, quando adentra ao recinto ninguém menos que o Êpa, trazendo nas mãos um jornal e cantarolando antigo refrão: “Que mentira, que lorota boa; que mentira que lorota boa!”Percebendo minha estranheza, e parecendo adivinhar os meus pensamentos anteriores, explica, apontando-me matéria jornalística:


- Veja o que esse sujeito aqui diz: “O político deve ser leal aos eleitores”. Essa é a verdade. Mas ele deve estar querendo dizer, batendo no próprio peito: “Eu sou leal aos meus eleitores”. Eis aí a lorota boa. O indivíduo é reconhecidamente um rapace.


Passo os olhos no texto indicado pelo Êpa é lá está o nome do tal político, por interposta pessoa sugerindo-se aquele indivíduo sobre o qual eu imaginava em tese. Esboço um muxoxo de fastio, malgrado faça votos para que a excelência afinal, acossado pela incansável Lava Jato, algum dia depure-se dos seus próprios defeitos de caráter. Quem sabe esse milagre aconteça! Afinal o nosso sistema jurídico-penal é ressocializante.

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