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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 903 / 2016

22/12/2016 - 21:13:55

As transformações de um cenário romântico

Paisagem bucólica deu lugar a favela onde quase 15 mil pessoas convivem com a falta de tudo

Reinaldo Cabral Especial para o EXTRA

As poucas garças que ainda sobrevoam e mergulham em busca de piabas às margens das lagoas Mundaú-Manguaba e os cantos dos galos, a recordarem o poeta João Cabral de Melo Neto em pleno meio dia ensolarado de verão a substituir os cantos das sabiás  refugiados na outrora bucólica Pajuçara 2 constituem o cenário de um lugar que já foi encantador na Maceió dos anos 1960. Mas hoje, o romantismo de antigos moradores e turistas que se entregavam aos encantos da paisagem embriagante do passado foi substituído por uma realidade cruel: a extensa Av. Rui Palmeira foi literalmente ocupada por uma população de perto de 15 mil pessoas, que ocupam cerca de 5 mil barracos onde sobra miséria, violência e desconforto e falta higiene, segurança e fraternidade.

O favelão do Trapiche, onde toda miséria humana se hospedou, guarda todos os paradoxos sociais de Maceió, a capital brasileira de maior concentração de renda e cujas lagoas já concorreram para a sua consolidação internacional midiática em passado recente como “Paraíso das Águas”.

ROTINA CRUEL 

A vida interna no favelão tem uma rotina cruel:a maior parte das pessoas que ali habitam buscam sua sobrevivência como serviçais, trabalhadores domésticos, lavadores e engomadores de  roupas, cozinheiras, vigilantes e até ajudantes de mudança e biscateiros que se avizinham aos caminhões de frete estacionados no início da avenida, aguardando contratos rápidos para o transporte de materiais que custam de R$ 150 a R$ 350 por viagem, a depender da distância.

Ao longo da avenida, numa extensão de 7km, observam-se numerosas atividades que se misturam e concorrem entre si como o comércio de bebidas, a comercialização de produtos recicláveis como ferro, madeira, papel e papelão, prostituição, tráfico de drogas como crack, noya e maconha e a venda de sururu despinicado – produto esse trazido do bairro do Pontal por pescadores que atuam na área.

Ratos e baratas confundidos com briquedos pelas crianças

Quem passa pela Av. Rui Palmeira, outrora chamada Pajuçara 2, não tem noção de que os perto de 5 mil barracos, às vezes uns sobre ou penetrando nos outros (de madeira, ferro, papelão) ocultem tudo que parece envergonhar a população de Maceió, crianças chorando de fome ou dormindo por causa dela, idosos à míngua deprimidos pelo abandono, à espera dos remédios que nunca chegam, e crianças acamadas sobre papelão e tábuas. Chiqueiro à céu aberto, onde ratos e baratas são confundidos com brinquedos que se movimentam sozinhos.

Quando alguém curioso ousa penetrar ali, a pergunta mais frequente é: cadê os políticos, que só aparecem aqui às vésperas das eleições?

O favelão do Trapiche é umas das 700 favelas de Maceió, uma expansão de mais de 3 mil por cento de 1980 para cá, onde se acumulam quase 1 milhão de paupérrimos dos quase 2 milhões de habitantes da cidade.

Os últimos 20 anos transformaram Maceió na capital mais miserável do Brasil e, ao mesmo tempo, campeã em concentração de renda, detentora (para orgulho dos poderosos) do menor índice de desenvolvimento humano da ONU.

Os políticos uníssonos respondem: dezenas favelados foram retirados dali mas sempre retornam, vendem as casas para onde foram  mandados, na repetição de um vício quase secular.

PRAZER DE VIVER?

De fato, há mais de 40 anos, para onde foram levados por sucessivos prefeitos de Maceió, logo retornam as margens das lagoas Manguaba-Mundaú. Porque os subprodutos da miséria às margens das lagoas parecem exercer sobre eles uma atração irresistível - a fome, o calor estafante, a falta de água e esgoto, o desemprego crônico e a falta de prazer de viver...

NA BOCA DA 

SERPENTE

A Escola Estadual Maria Rita Lyra de Almeida foi criada em 1998 pelo então governador Fernando Collor sob o impacto da implantação do conjunto Virgem dos Pobres perto do Papódromo para abrigar moradores das margens das lagoas Mundaú-Manguaba por ocasião do grande projeto de desassoreamento da boca da barra, no Pontal, permitindo o acesso de água salgada, que facilitou e incentivou a reprodução de moluscos e crustáceos em maior rapidez e maior quantidade.

Essa foi uma das poucas vezes que a cidade imaginou que o favelão do Trapiche tinha sido sepultado para sempre. Ledo engano.

Embora conte com uma equipe reduzida de professores, número insuficiente para fazer funcionar o setor de recursos humanos e seus modernos equipamentos de informática, atualmente a escola atende a 248 alunos no turno matutino e 180 no vespertino.

Mesmo assim, Maria Aparecida do Nascimento da Silva, diretora pedagógica, não se deixa abater ou desanimar: estimula os alunos na implantação de uma horta orgânica comunitária na escola, usando uma área de 240 m2. Nela se espalham mudas de macaxeira, inhame, batata, hortaliças, cidreira, capim santo e centenas de outras sementes trazidas por alunos da Ufal.

FRUSTRAÇÃO 

METODOLÓGICA

A escola, com 12 salas de aula, foi criada e adaptada para funcionar tempo integral, com refeitório com  capacidade para atender por dia pelo menos a 1 mil alunos, mas sua filosofia foi por água abaixo porque os sucessivos governos se desinteressaram em oferecer uma modalidade de ensino fora dos parâmetros tradicionais.

Atende especificamente alunos oriundos das favelas Muvuca, Alto da Alegria, Torre do Botinha, Sururu de Capote, Virgem dos Pobres I,II e II.

A diretora da escola vizinha do favelão do Trapiche tem tudo para desenvolver um excelente trabalho escolar capaz de repercutir socialmente entre os alunos e suas famílias – a garra, o conhecimento, a vontade. Mas faltam-lhe os apoios indispensáveis para alcançar seus objetivos.

Por isso, caiu-lhe como um presente divino a promessa que circulou na campanha eleitoral recente do prefeito Rui Palmeira de que defenderia um  processo de municipalização de escolas estaduais dentro de Maceió.

Maria Aparecida abriu um largo sorriso de alegria quando lhe disse que o prefeito Rui Palmeira receberia e leria com satisfação a anotação, pelo seu próprio punho, de cinco principais reivindicações para melhorar a sua escola:1-condições de trabalho com segurança para professores, funcionários e alunos; 2- concurso público para minorar a rotatividade de professores; 3- se houver municipalização do ensino fundamental, que seja total: estrutura física, patrimonial e recursos humanos; 4- projetos sociais que envolvam as famílias dos alunos; e, 5- reestruturação das comunidades do entorno da escola e ações sociais que envolvam alunos e famílias em toda área de vulnerabilidade desta orla.

Quando o sonho não sai do lugar

As décadas de 50 e 60 do século passado foram os anos de ouro para Maceió e seus pescadores. Como as lagoas Mundaú e Manguaba, o maior complexo estuarino do mundo, produzia sururu que alimentava 100 mil pessoas/dia, o imaginário de economistas e políticos ganhava proporções extraordinárias: sonhava-se com a implantação de uma indústria do sururu – enlatado, empacotado, cozido, pré-cozido e pronto para exportação.

Esse sonho embalou centenas de pescadores e isso deu origem ao aparecimento de centenas de colônias de pescadores. Contudo, o sonho não saiu do lugar.

-Por que os pescadores não reagiram ao fim  desse sonho?-pergunto ao presidente atual da Federação dos Pescadores de Alagoas, a Fepeal, Antônio Amorim.

-Quem acabou com esse sonho foi a poluição -respondeu entre atônito e indeciso.

-E por que os pescadores não fizeram nada contra essa poluição?

-Sei lá. Os políticos é que deveriam fazer...- continua meio assoberbado e atarantado.

Antônio era vice-presidente da Fepeal. Assumiu recentemente no lugar da outra sonhadora, a Vânia.

FUTURO SOMBRIO

Ele fala do pandemônio político vivido pelo Brasil, onde os que se dedicam à pesca artesanal estão tontos como cego em tiroteio.

Como nada funciona em consequência da crônica incompetência política dos principais agentes públicos e da recessão econômica, parte dela provocada pela corrupção endêmica cujo aprofundamento se originou na ação da quadrilha do PT, o Ministério da Pesca foi engolido pelo desastrado governo Dilma Rousseff.

Fundada em 1923, a Fepeal tem perto de 30 mil associados em Alagoas nas 43 colônias em que se divide o estado, em cujo futuro ele não vê perspectivas diante da insegurança econômica e política predominante no Brasil. 

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