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12 de Novembro de 2018

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Edição nº 900 / 2016

06/12/2016 - 11:42:10

Jorge Oliveira e Muito prazer, eu sou a morte

Antonio Sapucaia

Quando conheci o Jorge Oliveira, ele ainda mantinha o ornamento capilar e longíssimo estava de imaginar que um dia iria se unir a Ana Maria Rocha e se tornar pai de Zoca e Tuca. Mais: quem o conheceu antes de partir para o Rio de Janeiro, sabia que ele carregava no sangue e na alma, como se fosse uma ferradura, o descortino ou a vocação exclusiva para a reportagem policial. Jamais passaria pela cabeça de algum colega vê-lo trabalhando na Gazeta Mercantil, a lidar com assuntos econômicos, ou com uma filmadora a tiracolo, fazendo bons filmes, o que revelaria a sua versatilidade, além de tornar-se detentor de dois prêmios Esso de Jornalismo.

Depois de haver publicado três livros e haver ralado em algumas redações no Rio de Janeiro e Brasília, deu-nos agora Muito prazer, eu sou a morte, publicado pela Editora Chiado, de Portugal, o que confirma sua sina para correr mundo.

Mescla de ficção e realidade, autobiografia e memórias, há qualquer coisa que nos remete a Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou a Quase memória, de Carlos Heitor Cony, longe de comparação ou equivalência.

Começa narrando a sua própria morte, no momento em que se preparava para fazer a cobertura do Carnaval para o Jornal do Brasil, quando um tiro lhe atingiu a nuca, e a bala atravessou o crânio, abrindo-lhe um buraco na testa. A sua morte é descrita com muita frieza e riqueza de detalhes, passando pelo Instituto Médico Legal, com todo o procedimento ali exigido, e termina com as suas cinzas jogadas na Praia do Sobral, aqui em Maceió. O repórter policial está mais vivo do que nunca, com toda esperteza e vivacidade, sem perder um só lance em derredor do defunto em que se transformara.

Apesar de o tema principal ser a sua morte, temos momentos hilariantes, como aquele que levou o jornalista Tarciso Meira Cesar a bater com os costados no Pinel, lugar de loucos, depois de uma madrugada de porre no restaurante Lamas, dela participando o próprio Jorge e outros confrades de jornal e de farras.

Também há momentos em que o Jorge nem parece aquele homem sem papas na língua, irreverente e debochado, como no episódio envolvendo o então presidente da Eletrobras, Antonio Carlos Magalhães, que, diante de uma pergunta do repórter alagoano para a Gazeta Mercantil, disse que “quem está depositando o dinheiro da Eletrobras no Banco Econômico é a sua mãe e a mãe desse editor, filho da puta”.

Quem conhece o Jorge Oliveira sabe o quanto ele é corajoso, destemido, irrequieto, amigo dos amigos, sempre solidário. Mesmo morto, conseguiu ressuscitar os saudosos Noaldo Dantas e Freitas Neto, numa justa homenagem, levando-os ao seu velório. Do mesmo modo, de maneira inteligente e em forma de memórias põe em destaque inúmeros colegas com os quais conviveu, fazendo a caricatura de alguns deles, sem esquecer o panorama de alguns momentos da política brasileira, especialmente a do Rio de Janeiro, na época de Carlos Lacerda.

A minudência e a frieza com que descreve a sua morte nos deixa cheios de saudades ao término da leitura do livro, o que nos faz desejosos de que ele descrevesse as missas de sétimo e trigésimo dias, para que estirasse um pouco mais a obra, que consolida de uma vez por todas a sua condição de escritor. Quem ler o livro vai esperar a partir de agora por um romance, pois imaginação e cultura não lhe faltam para tal.

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