Acompanhe nas redes sociais:

26 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 900 / 2016

06/12/2016 - 10:24:20

Jorge Oliveira

Jorge Oliveira

Barra de São Miguel -  Marcelo Odebrecht, presidente licenciado da empreiteira, montou uma estratégia prodigiosa que pode livrar ele da cadeia e mais os seus 70 diretores que também fizeram delação premiada em troca de penas menores ou do perdão pelos crimes da Lava Jato. Ao denunciar mais de 200 pessoas, das quais mais de 100 políticos, como cúmplices da sua empresa nos atos de corrupção das estatais brasileiras, Marcelo pretende travar o processo, pois sabe que o STF vai demorar muito tempo para julgar os acusados.

Ora, se a principal Corte do país precisa de anos para analisar o processo de apenas um político é de se supor que outras dezenas de anos deverão ser necessários para que o tribunal comece a julgar o primeiro da lista dos delatados pela Odebrecht. Desde o dia 31 de dezembro de 2015, primeiro ano da Lava Jato, já existem na mesa de Teori Zavascki 7.423 processos. E em todo tribunal dormem outros 61.962. Os mais de 100 advogados da empreiteira já entregaram a defesa dos seus executivos aos procuradores em pen drive. Convertido em outra montanha de papéis, os processos vão se acumular nos porões do STF.  

Ao oferecer ao Ministério Público a delação premiada de todos os diretores da sua empresa, Marcelo pretende engabelar os procuradores que não terão como estabelecer o critério de prioridade para ir fundo nas investigações tal a quantidade de informações recebidas. Apelidada de “Delação do fim do mundo”, esse processo da Odebrecht corre o risco de ficar na gaveta do STF até prescrever e os saqueadores das empresas públicas impunes, a exemplo de outros que estão por lá até hoje. 

A papelada vai ocupar salas e mais salas do tribunal e exigir do ministro Teori Zavascki um esforço hercúleo para oferecer denúncias aos mais de 100 políticos envolvidos na caixinha da empreiteira. Antes, porém, terá que começar a ouvir as testemunhas de acusação e de defesa. Como todos conhecem a leniência do STF, é de se imaginar o longo caminho que percorrerá esse processo a ter o seu desfecho final.  

Os procuradores, que acharam estar diante da maior delação do mundo, não imaginaram o tamanho do abacaxi ao aceitar que Marcelo incluísse na sua delação premiada todos os diretores da sua empresa. A esmola era grande e o cego não desconfiou. Assim, diante de tantos nomes revelados pela Odebrecht como envolvidos no esquema, é difícil saber por onde o STF deverá começar a operação do desmonte da gigantesca delação.

A estratégia de Marcelo foi traçada meticulosamente com seus advogados. Ele sabe que se entregasse apenas a cabeça dos ex-presidentes da República envolvidos na maracutaia e as dos políticos mais importantes, ainda atuantes no país, sua empresa e ele próprio estariam mais vulneráveis a retaliações, pois muitos deles não só têm mandatos como ainda dão as cartas no país. Assim é que ele decidiu embaralhar o jogo. Apresentou uma lista com centenas de nomes para dar a todos eles o mesmo peso na denúncia e distanciar também os notáveis dos julgamentos já que todos fazem parte dessa lista quilométrica.

O plano de Marcelo deu certo. Condenado a 19 anos de prisão, a sua pena deverá ser reduzida e ele irá para casa onde se submeterá a atos disciplinares até sair livremente às ruas. Pelo acordo, seus diretores não serão punidos. E muitos deles ainda receberão milhões de reais da empresa como compensação indenizatória pela delação a pretexto de se protegerem do desemprego. 

Acúmulo

Enquanto isso, no STF, todos os processos da Lava Jato vão se acumulando até os fatos caírem no esquecimento da opinião pública. Não seria exagero dizer aqui que o processo da Lava Jato vai passar de mãos em mãos por anos a fio quando então os atuais ministros já teriam deixado o tribunal pela compulsória. Muitos dos réus jamais serão julgados, pois alguns serão beneficiados pela idade, outros pela prescrição de pena e a maioria terá seus processos arquivados.

Historinhas

Assim, os procuradores e o juiz Sérgio Moro, tão eficientes nas investigações da Lava Jato, um dia contarão aos seus netos que tentaram colocar o Brasil nos eixos, mas certamente esconderão dessa história a parte em que foram ludibriados por um tal Marcelo que os envolveu em um plano diabólico para transformar a operação Lava Jato em um amontoado de papéis inúteis e obsoletos. 

O Macunaíma

O dedo duro sempre foi um sujeito abominável. Torna-se ainda mais asqueroso quando se utiliza de meios mesquinhos e traiçoeiros para encurralar os incautos. É pior do que o delator que, espremido entre um interrogatório e outro, flagrado diante dos fatos, tenta escapar da condenação entregando os comparsas de crimes dos quais são acusados.  

O delator

A palavra delação passou a ter um efeito moralizador nos dias atuais. Deixou de ser um incômodo para quem delata para se incorporar ao dicionário brasileiro como sendo uma alternativa eficaz para passar o país a limpo, acuar os criminosos de colarinhos brancos e denunciar o malfeito dos servidores, além, é claro, de apontar os políticos que historicamente saqueiam os cofres públicos.

Desleal

Pois bem, o que o Brasil viu nos últimos dias foi um misto de deduragem e delação na figura do diplomata Marcelo Calero, um personagem de gestos estudados e delicados quando se apresenta em público. Um sujeito que se metamorfoseou no Macunaíma da Esplanada dos Ministérios, assim definido por Mário de Andrade: “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite”, como conta o escritor paulista no início do seu livro. O ex-ministro da Cultura passou para o Brasil, com a sua atitude decomposta, a imagem de uma pessoa desleal, infiel e inconfiável ao sair pelos gabinetes ministeriais e presidencial gravando seus interlocutores a pedido da polícia. 

Indigno

Calero, como X9, não sobreviveria em nenhuma das comunidades do Rio, sua cidade, onde o dedo duro não tem futuro. Agora, o abacaxi volta para o Itamaraty. O que o Brasil pode esperar de um diplomata que grava clandestinamente os seus interlocutores para incriminá-los ou tirar deles proveito dessa escuta? Calero, servidor de carreira, agiu indignamente ao gravar clandestinamente uma audiência oficial, como disse o próprio presidente. Queria, segundo ele próprio, ajudar o Brasil a conhecer melhor os seus políticos.

Pequeno

Lambuzou-se. Apequenou-se ao atrair o presidente para uma conversa onde ele gravava com o intuito de criar uma situação embaraçosa para o chefe de Estado, com quem confidenciava no gabinete. 

Intocável

Na entrevista que deu para o Fantástico, tão malconduzida pela repórter Renata Lo Prete, o ex-ministro tentou encaminhar a conversa de forma a se mostrar honrado, escrupuloso, avesso a prevaricação. E intocável, um homem que não aceita pressão, mesmo que ela venha do presidente da República.

Alcaguete

O herói de papel não convenceu. Quando admitiu em entrevistas que foi orientado por policiais a gravar o presidente e seus ministros, revelou-se um fraco, desprovido do sentimento de lealdade. Na comunidade carioca pagaria um preço alto por virar alcaguete da polícia, figura detestável e odiada no mundo do crime. 

Frustrado

Calero é diplomata de carreira. No Rio de Janeiro trabalhou com o prefeito Eduardo Paes. Logo se transformou numa figurinha do sociate carioca. Jeitoso e ambicioso, tentou a carreira política como candidato a deputado federal pelo PSDB, mas não passou dos 2 mil votos. Em pouco tempo virou secretário municipal de Cultura e em menos tempo ainda ministro numa cota do PMDB carioca. 

O pavão

Empavonou-se com o cargo. Durante seis meses não foi capaz de apresentar um plano mínimo para a sua pasta. Embrenhou-se numa briga sem fim com o pessoal do PC do B, que aparelhou o ministério, e não decolou. Desapontou o governo pela sua inaptidão ao cargo.  Numa das vezes em que conversou com o Geddel recebeu o ultimato. Por isso aproveitou-se do açodamento para sair atirando antes de deixar o ministério.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia