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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 899 / 2016

28/11/2016 - 19:20:13

Corisco, o juiz e o ladrão

CLÁUDIO VIEIRA

O meu amigo Paulo Lacerda envia-me, de Recife, interessante artigo de Fernando Gabeira sob o título “Se entrega, Corisco”. Não se trata do famoso cangaceiro, chefe de jagunços. O Corisco daqui é, talvez, mais famoso que aquele, e não lhe pesam acusações de mortes, mas outras tantas, quiçá até menos nobres e mais danosas. Mas o articulista Gabeira faz paralelo entre o lugar-tenente de Lampião e o senador Renan Calheiros.

O artigo de Gabeira é, como já sugere o título, radicalmente crítico ao presidente do Congresso Nacional que, para o autor, vem usando os policiais do Senado como seus jagunços. O jornalista clama ao senador para que ele se entregue, como qualquer delinquente, aos órgãos de repressão criminal. Não fica apenas nisso, todavia; a crítica dirige-se, também, ao Supremo Tribunal Federal, inoperante, como diz o articulista, quando se trata de pessoas de poder, os coronéis da política brasileira.

Deixemos, porém, Renan, o Supremo Tribunal, os coronéis da política e seus supostos jagunços de lado, pois o meu amigo Lacerda enviou-me, também, “causo” mais prosaico: a decisão do juiz Ronaldo Tovani, de Carmo da Cachoeira, em Minas Gerais, prolatada em processo crime, no qual um certo Alceu da Costa, apelidado “Rolinha”, era réu pelo furto de duas galinhas. Conta-me, Lacerda, que o “Rolinha”, ao ser interrogado pelo delegado, respondera mineiramente: “Desde quando furto é crime neste Brasil de bandidos?”

A decisão, que nós advogados tratamos como veneranda, respeitável, douta, etc., é concessiva de liberdade provisória ao “Rolinha”, e o juiz Tovani lavrou-a em versos, o que a torna mais interessante. Aos puristas do processo, devo dizer que, mesmo em forma de poema, a decisão tão séria não lhe falta percuciente relatório e exame do fato sob ótica jurídica, mesmo que esta última tenha sido apenas superficial. Não importa essa superficialidade; importam a singeleza da arte poética de quem a prolatou e a conclusão humanística que a encerra:

“É desta forma que concedo/a esse homem da simplória/com base no CPP/liberdade provisória/para que volte para casa/e passe a viver na glória.

Se virar homem honesto/e sair dessa sua trilha/permaneça em Cachoeira/ao lado de sua família/devendo, se ao contrário,/mudar-se para Brasília!”

Meu amigo Lacerda considerou-a, a decisão, sábia lição. Concordo ampla e profundamente, ao menos enquanto os leitores, através do voto cidadão e republicano, não depurarmos a política brasileira.

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