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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 899 / 2016

28/11/2016 - 19:19:34

Como feito um passarinho

Alari Romariz Torres

A idade vai chegando e com ela vêm as restrições. O idoso tem que comer bem, praticar exercícios, tomar remédios. E ainda, agradecer a Deus por estar vivendo por tantos anos com a cabeça boa.

Acho muito interessante os clubes dos Idosos: proporcionam a homens e mulheres viagens, danças, encontros. É uma maneira saudável de evitar a solidão.

Chega sempre na Associação dos Aposentados da Assembleia a viúva de um colega nosso. Antes de casar com ele, já havia perdido o primeiro marido. Cheia de histórias divertidas: arranjou um namorado, mas não quer casar com ele, pois a pensão do defunto é maior do que o salário do vivo. Ela só quer dançar nos fins de semana com o namorado, mas nada de morar junto! “Alari”, disse-me ela, “quero divertir-me; nada de ficar só!”

Na realidade, nossa associação é um confessionário sem padre. Rimos demais, falamos mal dos deputados que nos maltratam, ouvimos companheiros narrando fatos hilariantes. Quando meu marido chega para irmos embora, quase sempre estou rindo ou conversando com amigos. É bom demais!

Faz uns três anos que perdi uma grande amiga. Na missa de sétimo dia, outra irmã do coração disse-me: “Faça-me o favor de não morrer antes de mim; o certo seria morrermos no mesmo dia”. E, amigas de longas datas, nos abraçamos, rindo e chorando ao mesmo tempo.      

Sempre convido amigos para comparecerem à nossa associação. Ao invés de ficar em casa pensando nos remédios, nos aborrecimentos, no décimo terceiro salário que só vem no ano seguinte, devem vir encontrar os velhos companheiros.

E tentamos, eu, Dione, Cicinho, Olga e outros jovens inativos, resolver problemas do dia a dia. Na semana passada um associado de 89 anos chegou reclamando porque foi ao sndicato, deu entrada num requerimento e não recebeu o comprovante correto. Ligamos e soubemos que havia duas vias carimbadas e ele só trouxe uma. Risos, gargalhadas, problema resolvido.

Os remédios são motivos de comparação entre os idosos: tomo isso, isso... Você toma o quê? 

Fulano não aparece há algum tempo; será que está doente? Foi internado? Vamos procurar saber. E, de repente, o amigo chega e conta porque desapareceu. Tudo bem, ele está vivo!

Um problema que afeta a vida dos idosos é o estresse. Aborrecimento mexe com a pressão, altera o açúcar, acelera o coração. Se os deputados soubessem o mal que causam aos inativos quando modificam nossos salários ou não pagam em dia, eles, os parlamentares, respeitariam mais as pessoas que trabalharam na Assembleia por 30, 40 anos.

De vez em quando os filhos se dizem preocupados porque moramos sós. Mas logo em seguida, replicam: “Vocês são dois velhinhos saudáveis e com um juízo quase perfeito”. Lembro-me então, das caixinhas de remédio, das noites mal dormidas, das saudades sentidas das nossas quatro “pedrinhas de fogo” (como dizia meu velho pai).

Então, amigos, acho que nós, os idosos, merecemos respeito. Lutamos por mais de 70 anos para levar uma vida saudável, digna. Trabalhamos anos e anos para criar filhos honestos e, principalmente, respeitadores.

Não é justo que agora aposentados da Assembleia enfrentem primeiros-secretários desumanos e maldosos humilhando servidores que deram a vida por um Legislativo limpo.

Precisamos controlar comida, remédio e demais problemas diários. Daí, um idoso querido, justificar ao amigo, por telefone: “Vou viver muito; como feito um passarinho”. 

Só Deus na causa.

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