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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 898 / 2016

22/11/2016 - 10:12:41

Invasões e ameaças marcam trajetória do jornal

Até vodu (macumba) foi feito para “barrar” o semanário mais vendido em Alagoas

Da Redação

Fundado em 1998, o EXTRA Alagoas tem resistido a ameaças, invasões, processos e uma gama de empecilhos que só um jornal feito por gente destemida e corajosa é capaz de resistir e atingir a maior idade. E no ano em que completa 18 anos, a equipe buscou resgatar algumas passagens “esquecidas”  ou que não foram contadas ou censuradas. Esta semana, o leitor vai reviver ou conhecer um pouco da nossa história e assim ficar por dentro dos bastidores do EXTRA.

Sem necessariamente seguir a ordem cronológica, ainda porque em alguns casos não há registro escrito, ou por lapso de memória, um episódio que foi noticiado, à época, e que teve como testemunha ocular três jornalistas e a secretária do EXTRA foi o de um deputado estadual que invadiu com arma na cintura a redação do jornal, ameaçando um jornalista. A ação provocativa aconteceu em janeiro de 2000.

A fúria do parlamentar se devia a uma publicação polêmica, na edição de 20  a 26 de dezembro de 1999,  que revelava que políticos, empresários e magistrados alagoanos eram citados como suspeitos na CPI do Narcotráfico. Em outras reportagens foram relatados o clima de medo na cidade natal de Cícero Ferro, o então deputado raivoso, no agreste alagoano. Lá, as pessoas eram ameaçadas caso não comungassem da mesma opinião da autoridade, inclusive brigas e mortes entre parentes faziam parte da rotina interiorana.

ARMA À VISTA

Como teve sua vida pregressa exposta, o deputado decidiu resolver a questão à força, como costumava fazer sempre que contrariado. E na manhã do dia 11 de janeiro de 2000, por volta das 10 horas, ele chegou à redação do EXTRA, que ficava no 2º andar do edifício Maceió Mall, na Avenida Dona Constança, no bairro da Jatiúca, na capital alagoana.  De revólver na cintura, [o deputado] entrou bruscamente na redação do jornal  e ficou diante do jornalista  autor da matéria que estava sentado junto à mesa da recepção. Sem medir palavras, literalmente “esfregou” o EXTRA na cara do repórter e disse palavras impublicáveis. Depois, ordenou: “Escreva aí que tudo o que você falou é mentira, que sou um médico respeitado, que primo pela vida, e ninguém vai denegrir minha imagem, trate de me respeitar seu cabra”. Cabisbaixo, a cada ordem que ele dava, o jornalista (homem alto, forte, corpulento e no auge de seus 40 e poucos anos) apenas balançava a cabeça e balbuciava “Sim senhor”. E a “tortura” psicológica durou alguns intermináveis minutos ou segundos.

Com o coldre à mostra, Cícero Ferro apontava para a pistola e dizia que estava com um chicote e que não era homem para mandar fazer. Além da ameaça, seus “meninos” (assessores) se dividiram em grupos. Alguns subiram e ficaram junto à porta do jornal e outros na parte térrea do prédio. 

Deu o recado, foi embora. O jornalista respirou aliviado e apenas conseguiu falar: “Que susto, achei que seria a próxima vítima”. Os que assistiram à cena, aliás, ouviram as ameaças, na sala ao lado, também agradeceram pela vida. O clima era de choque e ninguém sabia como agir. Passado o perrengue, o fato foi denunciado aos órgãos competentes, e na próxima edição do semanário a cara do deputado estava estampada. Dessa vez, como invasor do jornal. As notas de repúdio e apoio vieram de todas as partes.

Antes, porém, bem no início do EXTRA, então gerido por uma cooperativa, o governador da época, tido como coronel, invadiu o escritório de um cooperado - onde funcionava a sede do jornal - e ameaçou o jornalista que tinha feito matéria sobre ele e o deixara enraivecido. Assim, chegou ao local, deu seu recado, quebrou alguns objetos e foi embora. Nada demais para quem sempre foi acostumado a agir dessa maneira com seus desafetos se a vítima não fosse um jornalista do EXTRA. O episódio deu o que falar e em pouquíssimo tempo de funcionamento, o semanário já mostrava a que veio. Esta foi a primeira vez que a redação foi invadida por desafetos do EXTRA. 

Um “despacho” na encruzilhada 

Mas nem só de invasões o jornal foi vítima. E o que dizer do período em que o EXTRA funcionava em um casarão no bairro do Farol. A sede do jornal ficava em um cruzamento bastante movimentado. A redação efervescia e muitas denúncias vinham à tona. Dessa vez, não se sabe quem foi o autor, até se tentou descobrir. Certo dia, quando a equipe chega à redação, se depara com um “despacho” na encruzilhada. Como não tinha o nome escrito para quem era o vodu, houve quem esquecesse a maldição e pegasse os cigarros e a cachaça para uso próprio. Outros, porém, fizeram o sinal da cruz e se negavam a passar junto a “macumba”.

Os fatos bizarros aconteceram em várias épocas do EXTRA. Em 2010, um grupo de juízes recém-concursados invadiu a redação do jornal, já então localizada no bairro do Poço. Como o espaço é pequeno, alguns ficaram fora da sala, porém com a mesma raiva. Tal fato aconteceu após a publicação de matéria que noticiava que um desembargador mandara nomear candidatos aprovados no concurso da Procuradoria Geral do Estado, inclusive uma enteada do magistrado. O estranho é que alguns foram eliminados e mesmo assim acharam brechas para serem beneficiados. 

A turma, possessa, chegou à redação e procurou o editor proferindo insultos e afirmando não haver irregularidades em suas nomeações. Como não o encontraram, deram seu recado e foram embora. Na edição seguinte, o seminário foi “obrigado” a publicar “retratação”, pois a Associação Alagoana dos Magistrados (Almagis) e Tribunal de Justiça negaram que os filhos dos juízes tenham sido beneficiados, como o EXTRA havia publicado. Houve ainda ameaça de processo e multa caso descumprisse decisão. As câmeras do edifício registraram a “invasão”, mas como se tratava de Justiça, a injustiça prevaleceu e ficou “por isso mesmo”.

Mas uma desembargadora na época, que votou contra a pretensão de um candidato beneficiado na “lista de aprovados”,  alertou aos colegas sobre as consequências. “Isto vai acabar nas páginas do EXTRA e vocês se preparem para dar explicações à sociedade”. 

Semanário usa tarja contra censura de Lessa

Nos 11 anos do EXTRA, um outro fato chamou a atenção. Com a manchete “PF aperta cerco contra Lessa”, a capa totalmente preta (forma que o jornal achou para protestar) trazia uma tarja com a palavra “censurado” e em seguida “a pedido de Ronaldo Lessa”. Essa foi uma das edições que mais vendeu. Não adiantou muito a censura. Anteriormente, o jornal tinha noticiado “Lessa enrolado na condição de ficha-suja” e, em outra edição: “PF aperta cerco contra Lessa”.

As tentativas de barrar o EXTRA se deram de várias maneiras ao longo destes 18 anos de labuta. Também merece registro a de um deputado estadual que sempre esteve nas páginas do jornal, tudo graças a sua vida pregressa. Mas embora todas as denúncias procedessem, a autoridade se achava “perseguida” e processos, ameaças verbais e outros insultos eram constantes contra o semanário. Cansado das tentativas frustradas de evitar  aparecer nas manchetes, fez a proposta “indecente”  de “contribuir com R$ 30 mil mensais” e não se falava mais nisso. Ledo engano. A propina não foi aceita e o assunto ainda foi pauta para próxima edição.

E assim, já são 18 anos de um jornalismo sério, que não se dobra ao poderio e sempre pautado em defesa da sociedade. Longa vida ao jornal EXTRA. Que venham mais infinitos anos.

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