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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 895 / 2016

01/11/2016 - 09:09:51

Jorge Oliveira

Epidemia de sífilis

Jorge Oliveira

Trieste, Itália - Em meio ao alvoroço que provocou a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha, muita gente não se apercebeu que o país enfrenta uma epidemia de sífilis. Isso mesmo, uma doença do século XV, que praticamente desapareceu no resto do mundo, virou epidemia no Brasil, segundo alerta o próprio ministro da Saúde, Ricardo Barros. Como não bastasse o vírus da Zika que vem provocando microcefalia nos recém-nascidos, agora estamos diante de outra doença que também afeta a futura geração ainda no ventre da mãe. Esse é mais um dos legados da herança maldita dos petistas que preferiram assaltar os cofres públicos a cuidar da saúde dos brasileiros. 

Ao constatar a epidemia, o Ministério da Saúde, mais uma vez, mostrou a sua espetacular incompetência na política de prevenção a doenças no país para impedir que muitas delas virem epidemia. Seus dirigentes aproveitam-se da situação para anunciar que o Brasil vai estimular a indústria farmacêutica a fabricar mais penicilina, pois, por se tratar de um remédio barato, ela quase não o produz mais. A pergunta que se faz é a seguinte: por que o Ministério da Saúde deixou que a doença contaminasse as mães e os bebês a esse ponto? Por que deixou virar epidemia para só então alertar para a grave situação? Será que por trás de tudo isso não está funcionando mais uma vez o lobby da indústria farmacêutica para entupir o Brasil de penicilina a preço exorbitante, como já aconteceu em outros momentos de crises fabricadas?

O brasileiro vive tão espoliado, tão massacrado pelo poder público que se tornou um povo descrente. Duvida de tudo. Não acredita mais em nada divulgado pelo governo. Está tão desiludido que reage até para o bom dia do vizinho. E tem motivos de sobra para isso. Na última década enfrentou todo tipo de epidemia: dengue, zika, chikungunya, aumento da Aids e, agora, sífilis. Enfrentou tragédias de chuva e de seca, onde viu o dinheiro público ir para o ralo ou para o bolso dos políticos e empresários corruptos. A maior de todas as crises, entretanto, foi o desastre da administração da Dilma que deixou o país capengando, carente de tudo. O resultado do caos é essa mais nova epidemia, a de sífilis. 

Os números divulgados pelo Ministério da Saúde são assustadores. Nos últimos cinco anos a doença avançou de forma incontrolável. Em 2014 foram registrados mais de 100 mil casos de sífilis em gestantes no Brasil. O surgimento de bebês com sífilis congênita foi de 6,5 casos em 2015 para cada mil nascidos vivos, 13 vezes mais do que é tolerado pela Organização Mundial da Saúde, e 170% mais do que o registrado em 2010. A sífilis em gestante teve um aumento de 202%. Passou de 3,7 para 11,2 casos a cada mil nascidos vivos. E para a sífilis adquirida, a sífilis na população em geral, a taxa é de 42,7 casos para 100 mil habitantes. 

A morte

A sífilis é uma doença sexualmente transmissível. Quando não curada com eficiência ela pode atingir o cérebro e o coração levando a pessoa à morte. Como a penicilina é barata, há dois anos o remédio desapareceu do mercado. Para que a indústria volte a fabricá-lo, o Ministério da Saúde está disposto a pagar 50% a mais para trazê-lo de volta ao mercado. Assim, ele subiria dos atuais R$ 6,00 para R$ 9,00. Entendeu agora por que o antibiótico sumiu das prateleiras? É isso mesmo o que você pensou.  Com o aumento, a penicilina entra de novo no mercado para acabar com a “epidemia” que a própria indústria farmacêutica provocou para forçar o Ministério da Saúde a aumentar os preços. E assim, passivamente, o governo vai desembolsar uma fortuna para combater uma doença que afeta principalmente países de extrema pobreza. Agora, epidêmica no Brasil. Muda-se a mesa da sala, mas as cadeiras continuam as mesmas.

Ideologia

Os argumentos do golpe no Brasil de cineastas, produtores, escritores e jornalistas da Europa e da América Central não resistem aos dez minutos de conversa quando são alertados de que o nosso país vivia num ambiente de corrupção desenfreada desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder. Ainda existe um sentimento dos intelectuais com quem conversei por aqui de que o ex-presidente Lula, o operário que chegou ao paraíso, realmente teria sido o pai dos pobres. Imagem desfeita rapidamente quando se constata que o Bolsa Família não passou de um programa eleitoreiro, que transformou mais de 13 milhões de famílias em reféns do PT que precisava se perpetuar no poder para expandir suas digitais criminosas.

Traumas

Percebe-se, nas conversas, que os correspondentes europeus no Brasil nutrem profunda simpatia pelo PT. Ainda não se refizeram do trauma de Lesk Valeska, o operário fundador do sindicato Solidariedade, uma decepção no governo da Polônia. Assim é que muitos deles acreditaram na utopia de Lula das transformações sociais. Resistem a entender que o PT criou a maior organização criminosa da história do país, porque ainda acham que o partido realmente pensa e age como a esquerda em países do seu continente. Quando se discute o envolvimento dos petistas na corrupção com empresários e políticos, a quebra das empresas estatais e a tendência de alta da inflação, que começou a derreter a renda do assalariado, eles preferem ignorar tudo isso para se fixar na ideia do golpe e de que o Temer não foi votado. Ignoram que o vice, no impedimento do titular, pode assumir o governo. Está escrito na Constituição brasileira.

Colonização

Eles não gostam de falar da colonização e da expropriação que seus países fizeram da riqueza mineral nos países miseráveis da África. Do Berlusconi então, fogem do assunto como o diabo da cruz. Os italianos preferem esquecer que seu mandatário vivia em festinhas com prostitutas e aliciava jovens para bacanais. Alguns falam em golpe, mas se confessam também desatualizados com o que acontece e aconteceu no Brasil. Habituaram-se a ouvir a versão de embaixadores do Brasil e de militantes petistas que viajavam pelo Ministério da Cultura para pregar o golpe antes e durante o impeachment da Dilma. Conformam-se quando são lembrados que o juiz Sérgio Moro não discrimina por patente ou classe social para prender um suspeito. Prova disso é a prisão de Eduardo Cunha, dos tesoureiros do PT, do ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e de grandes empresários, todos envolvidos com a organização criminosa do PT.

Movimentos

Por conveniência, muitos desses intelectuais desconhecem os movimentos que levaram milhares de pessoas às ruas para pedir a cabeça da Dilma e o fim da corrupção nas estatais. Quando são explicados que os petistas roubaram o equivalente a mais de 10 bilhões de euros das empresas públicas, assustam-se, porque, por aqui, até centavos são catados nas ruas tal a valorização da moeda. Contudo, em um ponto concordam tanto nós, os brasileiros, como os europeus: o destino do Brasil, uma grande potência, ainda é incerto. Ainda existem muitas dúvidas quanto a competência de governar do Temer. 

Democracia

“Como se bota pra fora um presidente eleito pelo povo?”. É o que mais se ouve nas rodinhas de conversa. Da mesma forma que a Europa bota os seus governos parlamentaristas: por incompetência e corrupção, sem ferir a Constituição. Eles desconhecem, por exemplo, que o PT liderou o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. E o Brasil, como agora, absorveu o afastamento dele e seguiu em frente, sem traumas, respeitando o estado de direito. 

Ingenuidade?

Parecem até ingênuos quando querem dividir o Brasil entre esquerda e direita, como são definidos com clareza os grupos políticos na Europa. Até se convencerem de que o PT, criado por um grupo de intelectuais, liderados por Lula, juntou-se ao que existia de pior da direita. E de que o Lula sempre abominou a palavra esquerda para se posicionar politicamente. Portanto, ao se juntar à elite de banqueiros e grande empresários, mostrou-se coerente ideologicamente. No Brasil, a exemplo da Europa, não existe tão definida essa dicotomia de direita e esquerda. Muitos são de esquerda até engordar a conta bancária, como ocorreu com a cúpula do PT. E na direita estão todos aqueles adeptos do capitalismo, os políticos e empresários neoliberais. O resto, na verdade, é um balaio de gatos. A discussão política, enfim, só esfria mesmo diante de um bom vinho, que não exige ideologia de quem bebe.        

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