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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 894 / 2016

24/10/2016 - 17:49:41

Educação é um desastre, mas pode mudar

ELIAS FRAGOSO

Em 1950, o então candidato ao governo de Alagoas Arnon de Mello sentenciou: “Em matéria de educação estamos em penúltimo lugar nas estatísticas, atrás apenas do Piauí em analfabetismo”. Nessas seis décadas e meia os governantes que se seguiram conseguiram  piorar o que já era um desastre: somos campeões em analfabetismo (mais de 20% da população), “líderes” no número de analfabetos com mais de 50 anos (52% das pessoas), nossa população com mais de 15 anos é composta por mais de 70% de analfabetos funcionais, o nível médio de escolaridade de toda a população do estado não alcança 6 anos (primário mais dois anos do ensino fundamental) e a qualidade do ensino é vexaminosa. Criminosa mesmo. As notas de Alagoas no IDEB são inaceitáveis sobre qualquer ângulo. Não alcançam sequer 3,5 (você contrataria alguém que tirou esta nota num teste de aptidão ao emprego?!).

Marcha para o desastre - Essa marcha rumo ao desastre precisa parar. É ela um dos principais fatores geradores do degradante estágio a que chegamos na economia com seus baixíssimos níveis de produtividade, péssima qualidade da mão de obra, calamitoso baixo nível de renda familiar (miseráveis 532 reais), quase inexistência de novos empregos (e não se culpe a crise). Este é um problema recorrente e sem solução se não houver mudanças radicais no modelo de educação e de investimentos aqui praticado. Triste realidade. Que precisa mudar. Já.

Mudando de rumo. Pensando “fora da caixa”-  Os exemplos pululam mundo afora, como por exemplo: Coreia do Sul, Hong Kong e Xangai na China há 40 anos eram pobres com renda bem menor que a do Brasil e hoje são potências econômicas mundiais graças à opção radical por mudanças via educação.  Fugindo do lugar comum de muito diagnóstico/poucas soluções, instituições de ensino inovadoras ao redor do mundo têm buscado caminhos alternativos para a quebra do paradigma educacional conteudista e fazer avançar o processo de ensino-aprendizagem. Não é o que acontece por aqui. Nossas escolas (leia-se pessoas e instituições da educação) seguem modelo que remonta ao Iluminismo. Impositivo e anacrônico em um mundo que rapidamente migra para a digitalidade e a virtualidade, ela (a escola) espera, mas não provoca (não sabe como) as mudanças ansiadas. E reage negativamente quando instada a redefinir sua missão. Sente-se acuada. Não consegue arejar-se. Modernizar-se. É isso que tem levado os alunos a se afastarem mais e mais de uma “escola” cujo modelo contradiz tudo o que se conhece sobre o que o atrai e envolve. Basta pensar no jovem de hoje: dinâmico, digital e acostumado com a troca de informações instantânea, sentado numa sala de aula tradicional, ouvindo calado e sem participar,o professor falar das caravelas da frota de Pedro Álvares Cabral...

Então, o quê fazer?  - Qualquer proposta de mudança na educação para ter sucesso precisa romper com o modelo secular praticado atualmente. Quebrar o paradigma conteudista.  A nova educação precisa ser colaborativa, interativa, interdisciplinar, oferecer funcionalidades digitais bidirecionais; Aulas híbridas (virtual-presencial) que aliem o melhor do digital e do presencial. Participativas (tendo o aluno como “motor” do processo), práticas, baseadas na resolução de problemas, em simulações de casos concretos do dia a dia e de projetos. Para tanto é preciso reordenar o eixo curricular para oferecer aprendizado a partir de temas com conteúdos contemporâneos em textos diretos redigidos na linguajem dele, o aluno; currículos atualizados, transdisciplinares, personalizados, holísticos, sustentáveis e de competências amplas, assim como  novas formas de avaliação diagnóstica: multinível, longitudinal; que meça habilidades cognitivas, mas também, as sócio emocionais; abranja todos os anos e disciplinas, a produção pedagógica do aluno, seu percurso (relatórios, observações, narrativas), etc.Essa escola não é do futuro. Ela já existe no Brasil, inclusive no setor público.

Mas, como fazer? Bom, aí a coisa começa a pegar. Vai se mexer no “vespeiro”. Naqueles que falam em mudanças desde que sejam para os outros. Que seus status sejam mantidos (o que não vai acontecer). Os agentes da mudança são docentes e gestores comprometidos com o novo modelo de educação: participativo; que se utiliza efetivamente das tecnologias digitais para integrar a educação ao mundo atual; defende ambientes institucionais acolhedores e incentivadores da experimentação (o que o aluno de hoje não tem na escola, mas é tudo que deseja); são aliados do novo modelo de educação que viabiliza mais informação com mais qualidade, conteúdos contemporâneos com textos diretos e melhor redigidos, e conduzem os alunos aos “sabores” das experimentações educacionais através de vídeos, simuladores e animações utilizando-se regularmente da web, redes sociais, tecnologias móveis, web TV, objetos educacionais digitais e demais mídias para múltiplas conexões educacionais.

De forma muito sumária (o espaço aqui não cabe), para acontecer essas mudanças fica claro que não é possível realizá-la a partir das estruturas arcaicas e viciadas dos organismos coordenadores da educação no estado ou município. Haverá de se realizar em paralelo a estas, para, ao fim e ao cabo do processo de implantação, substituir a “velha” hierarquia por estruturas modernas de gestão compatíveis com a educação do futuro. O processo como um todo envolve a requalificação técnico-pedagógica (de verdade) de gestores, docentes, funcionários de apoio para o novo modelo de educação aí inclusa, a inserção tecnológica dos mesmos (atualmente menos de 50% dominam as operações básicas da informática), salientando-se: em tudo diferente do modelo atual de preparação de docentes e gestores que nada agregam em conhecimento (prova está ai com o IDEB), não passando na maior parte das vezes de instrumento para aumentar salários.

Não, isso não é sonho - Já existem escolas utilizando-se da nova metodologia. Fomos inclusive pioneiros nessa área produzindo o primeiro sistema educacional híbrido digital/presencial do país. Escalável, o modelo ajuda a reduzir a um custo gigantescamente menor que o atual, de décadas para poucos anos o processo de migração da educação “dos tempos do império” para a tão sonhada educação do futuro. É preciso tão somente do governante espírito de estadista (já que se diz que educação não dá voto), pulso firme e vontade inquebrantável para romper com grilhões seculares. Mas é possível. Temos exemplo disso. Conhecendo-se as soluções, resgatar quase um século de atraso que humilha as pessoas e atrasa o desenvolvimento do estado pode ser o caminho à redenção. Ou pode-se continuar rumo à insensatez dos números indecentes do IDEB.

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