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Edição nº 893 / 2016

17/10/2016 - 16:33:15

Jorge Oliveira

Lula, o invisível

Jorge Oliveira

Cascais, Portugal –  O prestígio de um político se mede pela honestidade e pela quantidade de votos que ele tem ou transfere para outro. Quando ele perde uma eleição fica invisível, não é convidado nem para batizado de criança até se reeleger e voltar ao poder. Ou pendurar as chuteiras, como fazem alguns. Pois bem, o ex-presidente Lula, no quesito honestidade, foi reprovado. Mas agora começa a sentir na pele o desprestígio político ao não conseguir transferir votos nem para eleger um dos seus filhos vereador. Se não pendurar as chuteiras como fez Pelé sabiamente, corre o risco de ir para o ostracismo. O saldo que fica dessas eleições municipais é de um PT desidratado de votos, os seus líderes na prisão e um Lula denunciado pela justiça como chefe de uma organização criminosa. 

O PT ganhou uma capital lá no Norte do país e está pendurado em outra, no Recife, com possibilidade remota de vitória. Perdeu inclusive no seu mais importante colégio eleitoral, berço do partido, São Paulo, não reelegendo Haddad, um poste que chegou à prefeitura com o auxílio de Paulo Maluf, com quem Lula compôs para eleger seu pupilo. O diagnóstico é de que o PT precisa se reinventar se quiser continuar dando as cartas na política do país e o seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva, passar o bastão para alguém antes que ele enterre de vez o partido que criou para combater as elites com quem, depois, se acumpliciou para roubar o país.

O maior problema do PT é encontrar um substituto de Lula que, a exemplo dos déspotas populistas, aniquila aqueles que se atrevem a atravessar o seu caminho. Foi assim com Zé Dirceu, Genoíno, Mercadante, Marta, Marina, Heloísa Helena, Palocci e tantos outros que tentaram um dia ousar desafiá-lo. Como um egocêntrico, preferiu, portanto, tirar a Dilma do anonimato e elegê-la presidente a prestigiar prata da casa porque temia perder as rédeas do poder. O resultado, como se esperava, foi o desastre do impeachment e a fragmentação do partido que sonhou com vinte anos no poder.

Os primeiros sinais de que hoje Lula mais atrapalha do que contribui ocorreram nessas eleições municipais. João Paulo, candidato do PT no Recife, queixa-se de ter caído nas pesquisas depois que o seu guia foi dar uma forcinha na sua eleição. Ficou com a metade dos votos do seu adversário, mas, mesmo assim, chegou ao segundo turno numa penúria de votos danada. Lula também foi ao Ceará. Nenhum dos candidatos que apoiou no estado ganhou a eleição. E para complicar a sua vida e as suas pretensões políticas, o nordestino foi às urnas e disse não a ele e ao seu partido, um sinal claro de que a corrupção começa a ser sentida pela população mais carente como uma erva daninha, coisa sem muita importância até pouco tempo para quem se submetia aos currais.

A população brasileira dá nítidos sinais da valorização do voto e de como ele é fundamental como meio de transformação social e econômico do país. Ao contrário do que pensam alguns retrógrados, a democracia – que elege seus dirigentes pelo voto – ainda é o melhor caminho do desenvolvimento e das mudanças estruturais. 

Punição

Quase a metade dos prefeitos de capitais, que tentaram a reeleição, ficou no meio do caminho. Foram contaminados pelos escândalos que envolveram políticos de quase todos os partidos. Os candidatos novos, que fizeram campanha com o discurso da negação política, tiveram mais êxito. Caso de São Paulo, por exemplo, onde Dorea, um apresentador de televisão, sem nenhuma tradição política, ganhou as eleições no primeiro tuno deixando para trás as raposas políticas sem discurso. Se ele vai administrar bem a maior capital do país é outra história, mas ao elegê-lo os eleitores de todas as classes sociais entenderam que é melhor apostar no novo, porque os “velhos” eles já conhecem – e estão cada vez mais velhos.

As cinzas

É diante desse quadro que o PT vai tentar se reestruturar para sobreviver, com a adversidade das urnas. E se preparar para o pior caso seu líder maior, político espiritual, agora invisível, caia nas garras de Sérgio Moro. 

Sem alma

É assim que o Temer parece que vai atuar daqui pra frente. Com aprovação de apenas 14% dos brasileiros, segundo pesquisa recente, os comunicólogos do Palácio do Planalto tiveram a ideia genial de começar uma campanha para falar mal do governo da Dilma como se ela ainda existisse e incomodasse o país. Como é uma publicidade irrelevante, sem nenhum interesse para a nação, o Ministério Público deveria responsabilizar esses iluminados que encheram os jornais de críticas ao governo do PT que, como se sabe, desapareceu do comando do país com o impeachment da Dilma. É, sem dúvida, um dinheiro jogado no lixo.

Mesmice

A campanha diz que Temer pegou o país no vermelho, uma economia destroçada, um deficit de bilhões de reais nas contas públicas e com as obras de infraestrutura desativadas. Até aí nenhuma novidade. Não é novidade nem mesmo para o PMDB, partido do presidente, que durante doze anos governou o país ao lado dos petistas e da Dilma, portanto, não pode negar a sua cumplicidade com a administração caótica do PT da qual fez parte. Ora, o que se espera desse governo é oxigenar o país com boas ideias, reativar as obras de infraestrutura e retomar o crescimento para gerar emprego e renda e diminuir os 12 milhões de desempregados no país. Gastar milhões de reais em publicidade, numa economia em frangalhos como a nossa, para mostrar a “herança maldita” do PT, é desperdiçar dinheiro público com peças revanchistas sem nenhum interesse público. 

Caricatos

O governo deveria ser proibido de gastar dinheiro para cultuar a personalidade de seus dirigentes. Isso só ocorre em países subdesenvolvidos como o nosso onde ainda se distribui até fotografia oficial do presidente para as repartições públicas, figuras caricatas que ficam pregadas nas paredes mirando a mesa de trabalho dos seus subordinados como se estivessem a vigiá-los. 

Custos

O Palácio ainda não divulgou os custos desses anúncios nos jornais, rádio e televisão, mas as cifras certamente vão ultrapassar os milhões de reais para alegria das agências que têm no governo boa parte das suas receitas publicitárias e também da mídia em geral que vive na pindaíba com a crise econômica. A Dilma, por exemplo, quando alcançou o recorde de apenas 7% de aprovação, gastou, em 2015, quase 500 milhões de reais para melhorar a imagem enquanto as pessoas morriam nas portas dos hospitais por falta de leitos e medicamentos.

Gastos

Esse dinheiro usado em publicidade o ano passado é café pequeno em relação ao que o PT gastou com as emissoras de televisão nos doze anos de governo para vender uma imagem falsa, truncada e mentirosa, uma propaganda enganosa que ludibriou os milhões de brasileiros. As principais TVs brasileiras engoliram em publicidade nesse período 11,5 bilhões de reais. Isso mesmo, é o que você acaba de ler: 11,5 bilhões de reais. A Globo sozinha embolsou 6,5 bilhões. O resto do bolo foi distribuído assim: Record R$ 2bi, SBT 1,6 bi, Band 1 bi, Rede TV 408 milhões. 

PIB Negativo

Toda essa dinheirama para nada. O Brasil, nessa década, só andou para trás. Prova disso é o PIB negativo dos últimos anos com a economia em declínio. Mesmo assim, seus governantes – federal, estadual e municipal – continuam gastando milhões para promover seus feitos com uma mídia que persegue aqueles que não rezam na sua cartilha. 

A farra

Essa nova onda publicitária do governo Temer só mostra uma coisa aos brasileiros: nada mudou, os vícios permanecem os mesmos e a população já desconfia que trocou seis por meia dúzia. Governo criativo, doutor Temer, seria acabar com essa farra publicitária, só anunciar o extremamente o necessário, a exemplo de campanha de vacinação e calamidades ou serviço de utilidade pública. Gastar uma fortuna para administrar olhando para o retrovisor é uma demonstração inequívoca de que esse é um governo sem alma e sem vida que já começou velho. O Brasil não merece isso, andar a passos de caranguejo.


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