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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 890 / 2016

26/09/2016 - 18:35:45

Jorge Oliveira

Cunha ainda respira

Jorge Oliveira

Cascais, Portugal -  O Cunha não morreu. Ainda respira por aparelho. Sua morte política só deverá ocorrer se ele for condenado ou se submeter ao vexame da delação premiada. Muitos metidos a durão, como o Marcelo Odebrecht, não resistiram a solidão da prisão e abriram o bico. O Cunha é a caixa preta do PMDB. Se resolver falar não fica pedra sobre pedra. Ele já mandou recado e ensaiou do que é capaz ao culpar o partido pela sua cassação e a eleição de Rodrigo Maia para presidir a Câmara. Durante o seu processo de cassação, Cunha mostrou que é um cara abnegado, determinado e resistente a pancadas. Já anunciou que vai lutar com todas as armas para evitar a prisão da sua mulher envolvida no rolo do dinheiro no exterior e para isso não pretende poupar ninguém quando acionar a sua metralhadora giratória.

Cada fala dele é um recado de hoje por diante. Além de Temer já apontou seus mísseis para Renan, Rodrigo Maia e Moreira Franco, a quem considera “eminência parda” do governo. Os dois últimos, ele quer detonar rapidamente porque são da sua base eleitoral, portanto, prováveis candidatos a governador no caso do sucesso do Temer à frente do país. Quanto ao Renan, é um velho rival que ele sempre tentou acertar, sem êxito. Cunha sabe tudo. Fazia parte do seleto grupo de Temer, frequentadores antigos do falecido Piantella, palco de conspiração política dos últimos trinta anos em Brasília.

Se Cunha decidir falar, a casa cai. Ele é detentor de segredos impublicáveis da república nos últimos quinze anos. A história mostra agora que de esperto, na verdade, ele não tem nada. Vestiu-se de um personagem que agora sai de cena. Enquanto outros políticos envolvidos na Lava Jato preocupavam-se em tratar com zelo, respeito e elegância os procuradores que investigam a operação, Cunha, do alto da sua arrogância, sempre desafiou o procurador-geral Rodrigo Janot. Agora, sem mandato e, portanto, sem foro privilegiado, começa a falar fino. Diz-se arrependido do bate-boca e manda recado de que exagerou nas críticas ao procurador.

Cunha estranhou os 400 votos contra ele na cassação. Não deveria estar surpreso porque conhece como ninguém o parlamento que administrou durante quase dois anos à frente da presidência. Chegou até lá, porque, segundo se sabe, comprou a metade da Casa. A outra metade, que o elegeu, veio por gravidade. Aproximou-se dele por puro interesse fisiológico na máquina do governo. Mas agora que está fora do poder e isolado politicamente, Cunha ameaça botar a boca no trombone e jogar no ventilador todos os compromissos que fechou para dirigir a Câmara dos Deputados.

Ameaça escrever um livro, desde já fadado ao fracasso. Aliás, escrever livro é a prática dos que se sentem injustiçados e que pensam em se redimir dos seus malfeitos no poder revelando seus segredos. Se o tempo ocioso transformasse as pessoas em escritores, os presídios estariam abarrotados de autores. Se cometer esse atentado, Cunha não terá êxito ao contar os seus relatos porque não se propõe a revelar o que todos os brasileiros querem saber: como o PMDB e o PT conseguiram montar a mais bem estruturada organização criminoso do país.

Fanfarrão

Eduardo Cunha, na verdade, é um fanfarrão. Foi alçado ao poder na escassez de líderes políticos no país. Nos últimos trinta anos, líderes – se é que podemos chamá-los assim – giraram em torno de nomes como Lula, Serra, Maluf (!), Aécio, Marina, Alckmin, Itamar, Collor e outros menos cotados. Cunha chegou ao poder pelo método mais tradicional de fazer política, o fisiológico, e do franciscano “é dando que se recebe”. Em pouco tempo, virou um popstar até lembrado como candidato a presidente da república. Quis o destino – e obviamente – os escândalos da Lava Jato retirá-lo de cena. Cunha, porém, não vai se retirar do palco sozinho nem esperar que as cortinas do espetáculo fechem à sua frente no ultimo ato. Ele vai carregar todo o elenco com ele. 

Pijama

Cunha ainda quer voltar ao palco com outra peça. Dessa vez, seus personagens estarão vestidos com roupas listadas com todo tempo do mundo para ensaiar o próximo drama.

Batom

Deixei a poeira abaixar para não escrever no calor dos acontecimentos e cometer algumas injustiças com palavras impróprias aos fatos. Mas, agora, depois que o Lula já apresentou sua defesa em petit comitê para uma turma de militantes, muitos dos quais também envolvidos nos escândalos de corrupção da Lava Jato, vou aqui fazer uma análise do que penso sobre a denúncia dos procuradores e a identificação de que Lula é, realmente, o chefe da organização criminosa, o tuti de capu brasileiro. Em princípio, acho que os procuradores estão certo ao pedir a denúncia do Lula. Preocupa-me, porém, a espetacularização do episódio.

Mensalão

Lula está envolvido em escândalos desde que iniciou o primeiro mandato, quando o Valdomiro, principal assessor de Zé Dirceu, foi flagrado achacando o bicheiro Carlinhos Cachoeira. De lá pra cá, as maracutaias petistas sempre estiveram na ordem do dia até culminar com a condenação de vários mensaleiros, alguns deles, reincidentes, ainda na cadeia. Pois é, Lula não pode negar agora que não conhecia ou não sabia que os cofres públicos estavam sendo arrombados, com a sua cumplicidade, por seus parceiros, desde que o STF apontou o dedo para Zé Dirceu como o chefe da quadrilha. Aliás, o que não falta nas fileiras do PT são os capus di capus da coisa nostra.  

Lobista

Os antecedentes condenam Lula e a quadrilha criada por ele para saquear o dinheiro das empresas estatais, principalmente o da Petrobrás. As investigações são contundentes contra o ex-presidente. Ele é apontado por quase todos os delatores como o lobista de luxo internacional das grandes empreiteiras nos processos de corrupção da Lava Jato. Os depoimentos acusatórios estão lá nos autos. Dizem que Lula enriqueceu depois que montou o Instituto Lula, uma lavanderia sofisticada que tinha como finalidade lavar dinheiro da corrupção da Petrobrás simulando palestras do ex-presidente no exterior. O tríplex e o sítio, transformados em residências sofisticadas de Lula, também estão no pacote das denúncias. Os indícios apontam Lula e a sua mulher Marisa como beneficiários dos favores das empreiteiras. Os procuradores atestam que Lula foi citado 136 vezes pelos delatores como o personagem que sempre atuou nos bastidores na manipulação do desvio de dinheiro das empresas públicas, a exemplo da Petrobrás.

Vítima?

Tudo isso, porém, ainda não é suficiente para prender o Lula. Fazer isso é vitimizá-lo, como ele inteligentemente está fazendo. E o choro de um líder popular, diga-se, comove. Comove principalmente os cegos que teimam em não enxergar os fatos escabrosos descobertos pela Lava Jato. As lágrimas dramáticas derramadas pelo líder têm endereço certo: os militantes, os fanáticos ideológicos e os miseráveis do Bolsa Família crentes de que o benefício sai do bolso do seu mestre e não do estado como programa de governo. 

Bastidores

Mesmo assim, como diz um senador de oposição, sereno na sua análise: “Ainda não encontraram efetivamente o batom na cueca” para uma acusação frontal e indiscutível sobre os malfeitos do ex-presidente. O que parece existir sutilmente é uma disputa jurídica nos bastidores entre os advogados do Lula e os procuradores. Magoados com a acusação de que estão criando factoides para justificar a prisão de Lula, o Ministério Público partiu para um confronto em um show desmedido. E a justiça, cega como se diz, não pode se expor nem se confrontar com defensores de réus. Corre o risco de parcialidade e de perder o jogo diante dos artifícios mentirosos e levianos que normalmente o PT se utiliza para distorcer os fatos a seu bel prazer.

Dúvidas

O trabalho dos procuradores e do juiz Sergio Moro é notável. Nunca, no Brasil, uma investigação chegou tão longe, prendeu tanta gente importante e ressarciu o erário com tanto dinheiro. Mas uma investigação como a que envolve o ex-presidente não pode deixar dúvidas quanto a sua responsabilidade nos crimes. Portanto, creio que houve precipitação na conclusão do inquérito. O Lula poderia ter sido intimidade por Moro para depor, responder e se defender das acusações que lhe imputam. Daí quem sabe, teríamos um Lula vacilante diante das provas robustas e irrefutáveis do seu envolvimento nos crimes. 

Provas

Agora, diante das dúvidas suscitadas pela explanação, cabe agora aos procuradores tirarem a carta da manga e convencer os mais incrédulos de que Lula é realmente o chefe da organização criminosa.


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