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18 de Setembro de 2018

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Edição nº 889 / 2016

19/09/2016 - 16:50:57

Os invisíveis

Alari Romariz Torres

Resolvi interessar-me pelo problema do idoso e vou juntando histórias interessantíssimas a respeito do assunto.

Quando era pequena não havia o tal do Alzheimer. Só se falava em arterioesclerose ou mesmo demência.

 Se alguém começasse a repetir fatos ou a esquecer do tempo ou do que estava falando, logo dizíamos: “Fulano está caduco!” Não havia tratamento e a criatura esperava para morrer, esquecida do mundo.

Meus avós e meus tios morreram depois dos 80. Alguns caducando, outros bem lúcidos; foram vítimas de várias doenças, inclusive câncer.

Saber envelhecer é uma arte. Saber parar de trabalhar é bem mais difícil. Cito sempre o exemplo do Pelé que deixou de jogar futebol e virou empresário. Soube sair de cena. Agora, com 75 anos, doente, está concedendo entrevistas, onde já notamos sinais de envelhecimento.

A última vez em que vi o Ariano Suassuna fiquei impressionada: parava no meio da conferência, esquecia o assunto e alguém servia de ponto para que recomeçasse a falar. Tive pena! A família deveria ter evitado que chegasse a tal ponto.

Outro exemplo gritante é a Bibi Ferreira. Com mais de 90 anos, lenta, esquecida, mal podendo andar, continua se apresentando. Já deveria ter parado ou fazer pequenas apresentações. Qualquer dia terá um problema numa cena em pleno palco.

Hoje, com 75 anos, vivenciamos a velhice e sabemos das limitações que temos, mesmo que estejamos lúcidos. As forças diminuem, o esquecimento acontece de vez em quando, não conseguimos subir em ônibus sem ajuda e as dores são muitas. O fôlego é curto: se saímos pela manhã, temos que almoçar em casa. Caso estiquemos o horário, no fim do dia parece que corremos cem quilômetros.

Tenho várias amigas com Alzheimer ou como dizíamos antigamente, estão caducando. Visito-as constantemente e saio de suas casas bem triste. Às vezes, uma mulher corajosa que criou os filhos sozinha vive trancada num apartamento totalmente fora do mundo.

A medicina evoluiu muito e os idosos são tratados com remédios e com exercícios. Daí a expectativa de vida aumentar bastante. Mas, será que vale a pena viver sem saber de nada?

O velho vira criança e passa a ser pesado para os filhos. Quem não os tem, pesa para parentes ou amigos.

Lembro-me de três velhinhas que criaram meu pai e meus tios. Foram corajosas demais: uma ficou viúva e se juntou às outras duas para criar dois órfãos de pai e outro filho mais novo. No fim da vida ficaram em casa, sustentadas pelos filhos e morreram com toda assistência. 

No Farol de minha infância, passava na rua um velhinho, Sr. Izaías, que trabalhou durante muitos anos e ficou sem o amparo estatal, não sei por que. Meu pai aproveitou a lei do ancião e conseguiu que o pobre homem recebesse a aposentadoria no fim da vida. Morreu feliz!

Marco Maciel, ex-governador de Pernambuco, trabalhava das 4 da manhã até a meia noite; sumiu. Procurei saber dele: está esclerosado, não sai de casa, não conhece ninguém.

Se formos visitar casas de idosos, veremos pessoas desconhecidas que por lá foram jogadas; muitos não recebem nem visitas. A família os esquece.  Um amigo, voluntário de um asilo, conta-me histórias estarrecedoras.  

Um fato me incomoda: até que ponto as pessoas esquecidas compreendem aquilo que falamos? Muitas vezes conversamos perto delas como se não existissem e noto um olhar vago, mas de repente, nos acompanham no assunto. Se fazem alguma pergunta, alguns não se dão ao trabalho de responder. Triste, muito triste!

Os idosos que se perdem no tempo e no espaço, atacados por diversas doenças, tornam-se invisíveis e nós, lúcidos, não procuramos saber da dura realidade dos pobres sofredores.

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