Acompanhe nas redes sociais:

18 de Novembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 889 / 2016

15/09/2016 - 18:31:15

Pai da jornalista reafirma que a filha se matou

Milton Omena diz que Márcia estava deprimida e acredita que suicídio teve intenção de puni-lo

Vera Alves [email protected]
“Ainda tento entender o que aconteceu”, diz Omena sobre a morte da filha no Dia dos Pais

Prestes a completar 70 anos, o delegado aposentado da Polícia Federal Milton Omena Farias afirma ainda estar em busca de respostas para a morte da filha, a jornalista Márcia Rodrigues Farias, de 48 anos, que, segundo ele sustenta, se matou no Dia dos Pais, 14 de agosto, com dois tiros, num ato que ele considera ter sido planejado e que teria como objetivo puni-lo. Desde a efetiva separação dos pais, diz ele, ela nunca aceitara sua saída de casa.

Na última quarta, o EXTRA esteve com Omena, como ele é chamado pelos amigos, e ouviu seu relato acerca daquele dia e de fatos que o antecederam, como a  relação conturbada com a ex-esposa, Carminha Rodrigues Farias, e o acidente ocorrido 19 dias antes da morte de Márcia, quando ela estava a caminho de Recife onde iria proferir uma palestra sobre motivação pessoal e no caminho o carro que dirigia caiu em um barranco em Matriz do Camaragibe. 

O acidente, a 27 de julho último, aconteceu um dia depois de Márcia ter ido à casa do pai, em Paripueira, onde passou a noite. Segundo ele, a jornalista “estava magra, muito magra” e sem o sorriso que era considerado uma marca de sua personalidade, sintomas de uma depressão que hoje ele atribui à crise porque ela passava, tanto de caráter financeiro, desde a falência da empresa que possuía em Recife, como existencial. 

Achava que o pai não a amava e se sentia fracassada por sua condição de depender financeiramente dos pais e em não poder contribuir de forma mais efetiva para concretizar o sonho dos filhos, Milton Neto, que vive na Irlanda, e Débora, uma garota de 19 anos e que até a morte da mãe estava morando em São Paulo. 

Milton Omena conta ter ouvido da própria filha que ela se sentia rejeitada por ele. Disse-lhe que ela estava equivocada e chegou a sugerir que fizesse terapia, mas confirmou que na época em que a então esposa engravidara dela ficou insatisfeito. O jovem casal possuía um filho – que faleceu anos depois em um acidente de carro, aos 18 anos, em Cuiabá (MS) – e atravessava dificuldades financeiras, tanto que haviam combinado não ter outro filho até obterem estabilidade. 

Márcia tinha pouco mais de 1 ano quando Milton Omena ingressou na Polícia Federal através de concurso público e teve de passar meses longe da família em treinamento, período durante o qual recebeu uma bolsa com valor equivalente a R$ 600 e ao retornar para casa ela não o reconhecera. Durante os mais de 30 anos que trabalhou na PF ele viajava muito, passava meses ausente de casa. Aposentado, concretizou o sonho de viajar mundo afora em uma motocicleta, um sonho que também se tornou motivo de mais problemas em sua já conturbada relação com a ex-esposa e que, segundo ele, o acusava de abandonar a família.

Em seu relato, o delegado aposentado  deixa transparecer que considera ter sido vítima de alienação parental, como é chamada a síndrome em que, normalmente após a separação, um dos genitores ou a pessoa que detém a guarda da criança ou adolescente faz uma campanha para denegrir a imagem do outro. Baseia sua convicção em relatos de amigos comuns e de moradores do condomínio em Paripueira onde há 14 anos adquiriu uma unidade, o Porto di Mare, no qual contudo só passou a residir de forma efetiva há poucos anos. Deles ouviu a mesma história de que a esposa o acusava de abandonar a família e de manter relações extraconjugais com mulheres muito mais novas, o que ele refuta.

Um acidente suspeito 19 dias antes de morrer

Formada em Jornalismo e com vários cursos em instituições do Rio de janeiro, Brasília e na Dinamarca, Márcia Rodrigues havia se especializado em palestras de motivação pessoal embora nos últimos meses, de acordo com o pai, demonstrasse estar em desequilíbrio emocional e vez por outra sofria desmaios. Foi em uma desta fases de depressão que ela teria dito a ele de sua insegurança em viajar para Recife onde deveria ministrar uma palestra. Era 27 de julho, uma quarta-feira, e ela saíra da casa do pai logo cedo, para onde fora no dia anterior. Ao sair, dissera que ele não se preocupasse, que tudo estava bem.

Cerca de uma hora após ela sair, Omena conta ter recebido uma ligação de um número desconhecido. Era a filha dizendo que desistira de viajar e que estava retornando a Paripueira. Menos de 10 minutos depois, outro telefonema falando que teria sofrido um acidente. O carro que ela dirigia caiu em um barranco. A despeito do estado em que ficou o veículo, Márcia não teve nenhum ferimento grave e depois de medicada foi levada à casa da mãe, com quem efetivamente morava e que, em um e-mail enviado a ele naquele mesmo dia, praticamente o responsabilizou pelo acidente, ao confirmar que a filha estava se consultando com um psicanalista: “Está vendo o mal que você fez a esta família?”

Omena conta que duas coisas lhe chamaram a atenção: a filha saíra deixando para trás celular, agenda, necessaire e outros objetos pessoais e estava de posse de um celular desconhecido. O que mais lhe preocupou, contudo, foram as imagens do veículo enviadas por um amigo ao qual recorrera tão logo soube do acidente e de ter ido ao local para socorrer a filha e que, na sua visão, indicam que ele teria sido proposital. 

O péssimo relacionamento com a ex-esposa fez com que ele somente voltasse a ver a filha no dia 13 de agosto, o sábado anterior ao Dia dos Pais, quando ela chegou muito cedo dizendo ter vindo em uma van. Passaram o dia juntos, ela muito calada. Tentou obter da filha uma explicação para o celular desconhecido, mas ela preferiu não falar do assunto.

No domingo, Omena diz que acordara cedo e chamara a filha para o café da manhã. Pretendia sair cedo em direção à casa do pai dele, um senhor de 86 anos que reside no Tabuleiro do Martins, em Maceió. Fora encarregado pela família de preparar a carne do churrasco em comemoração ao Dia dos Pais. “Fechamos tudo e fomos para o carro; liguei o ar-condicionado quando ela inesperadamente disse que havia esquecido algo. Eram 9h25; entreguei a chave da casa e ela saiu do carro, deixando a bolsa no assento, enquanto eu fiquei dentro do carro a ver no meu celular as mensagens e vídeos enviados por amigos, até que uma vizinha amiga veio falar comigo para convidar para um churrasco que faria. Disse que ia para a casa do meu pai junto com a Márcia. Olhei no relógio e percebi então que ela estava demorando muito e fui chamá-la”.

O delegado aposentado diz que entrou na casa chamando pela filha e brincou; “Márcia, quer matar o velho de fome?”, em referência ao pai idoso que os aguardava. Sem obter resposta, foi procurá-la. O último local foi no quarto dele, no andar térreo, onde se deparou com a filha estendida sobre a cama com sangue nas mãos e a arma próxima às mesmas.

“Fiquei desesperado, sem saber se a socorria para ver se estava viva, mas a experiência da profissão me levava a crer que ela estava morta. Liguei para um amigo e contei o que acontecera. Ele pediu que eu não mexesse em nada; veio com a esposa e ligou para a polícia, me levando para a casa dele. Voltei mais tarde, quando a casa estava tomada por peritos e onde minha família me aguardava”.

Persiste dúvida sobre procedência da arma encontrada junto ao corpo 

Se a arma encontrada junto a Márcia Rodrigues pertence mesmo a Milton Omena é uma resposta que ele não sabe dar. O delegado aposentado confirma que possuía uma pistola com as mesmas características – uma 765 – mas afirma que desde que se aposentou nunca mais a manuseou. Recorda-se de a ter embrulhado ao deixar a casa da ex-esposa, mas não lembra se chegou a levá-la para a casa de Paripueira. Antes de se mudar definitivamente para o Porto di Mare, ele morou em uma casa alugada em Maceió.

Milton Omena foi ouvido por dois dele-gados de polícia no último dia 26. Eles lhe mostraram um projétil de 9 mm mas não a arma. “Me perguntaram se eu reconhecia o projétil. Falei que não. Como eu iria reconhecer um projétil?”

O pai de Márcia afirma que foi dele a iniciativa de pedir que fosse submetido ao exame residuográfico. Isto depois de um policial, durante a perícia, tê-lo questionado: “Já viu alguém se matar com dois  tiros?” E garante: “É raro, mas acontece”. 

Se matar no Dia dos Pais, na casa do pai, na cama do pai, para ele, só tem uma explicação: “Ela quis me punir por alguma coisa que nem eu mesmo sei”.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia