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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 883 / 2016

08/08/2016 - 08:33:13

E os netos partiram...

Alari Romariz Torres

Todo ano se repete a mesma cena. No fim de julho os pequenos se despedem do “paraíso” e voltam para suas casas, seus estudos. Os velhos ficam administrando saudades.

Há quase vinte anos que resolvemos morar em Paripueira. Aposentamo-nos, eu e meu marido, e decidimos fugir do burburinho da cidade grande, nossa querida Maceió. Vendemos tudo que tínhamos e construímos um novo lar: grande, espaçoso, rústico e bem ventilado.

O engenheiro foi o dono da casa e a palpiteira fui eu, a sonhadora. “Quero assim”, dizia eu. E ele respondia: “Não pode!” Eu retrucava: “Aí problema seu; quero dessa maneira”. E passamos 17 anos construindo o “Paraíso da Vovó Alari” entre tapas e beijos. E ainda não terminamos!

Quanta alegria proporcionamos a filhos, netos, parentes e amigos! Nossa casa era uma verdadeira festa; tínhamos prazer em receber. Os Natais e os fins de ano eram maravilhosos. As filhas davam férias às empregadas e vinham curtir conosco suas folgas.

O tempo foi passando, os netos crescendo e dando novo rumo às suas vidas. Passaram a só querer vir a Paripueira com amigos e namoradas. Depois, alguns não tinham mais tempo. E nossa casa foi ficando vazia.

Lembro-me de um mês de julho em que uma neta precisava de paz para estudar e me disse: “Vó, vou passar trinta dias estudando em sua casa”. Concordei imediatamente: “Venha querida”. Fez a programação, cumpriu-a e passou no vestibular.  

Inúmeros amigos nos deram o prazer de passar alguns anos conosco. Altos papos, banhos de piscina, amizades renovadas. Nada paga tanta alegria!

Mas estamos tendo a triste revelação de que nosso “paraíso” está ficando grande demais para dois idosos de 75 anos. O custo com empregados cresce assustadoramente.

Os filhos, com idade entre 40 e 50 anos, estão preocupados com o futuro dos netos e quase não têm tempo de curtir o recanto de seus pais. A filha mais velha, pela primeira vez desde que casou, não passará o Natal conosco. O filho, um de meus netos, fará vestibular em São Paulo.

Mais uma vez, a vida vai nos ensinando que tudo muda, nada é estático. Algo que teve tanta importância por duas décadas, passa a perder o encanto quase que de repente.

Quando falo em vender meu “Paraíso”, Rubião se irrita e responde: “Daqui só saio para o cemitério”. Os filhos, preocupados conosco, tentam argumentar e ele insiste: “Não quero saber disso; ponto final”.

E eu, nos meus sonhos, peço a Deus uma orientação: como vender tantos anos de felicidade, férias inesquecíveis, luas maravilhosas, o mar batendo à nossa porta? Será que tenho direito de passar tudo isso para outro casal?

Neste mês de julho, só dois netos conseguiram vir passar quinze dias conosco: Nicole e Geovani Neto. Entendo que para eles, uma com 15 anos e outro com 11 anos, não é agradável curtir os velhos avós sem amigos da mesma idade. Mas, na hora de sair, Nicole me abraçou e disse: Vó, esconda-me, não quero ir”. Rimos e ela foi embora.

Agora mesmo, estou sentada na varanda, escrevendo, vendo o mar, ouvindo o barulho das ondas e sentindo o vento balançar meus cabelos. Não sei como agradecer a Deus tanta felicidade!

O companheiro arrasta as sandálias pelo meio da casa, faz sua hidroginástica, verifica o serviço do empregado, reclama daqui, aprova dali e sinto sua presença ao meu lado.

Lembranças me vêm de quando morávamos num apartamento na Ponta Verde; trânsito caótico, aborrecimentos com condôminos, barulho enorme nas ruas. Saímos de lá, correndo, à procura de paz.

Agora, dizem os filhos que precisamos voltar para um apartamento, ficar perto de hospitais e dos parentes. De certa maneira, têm razão. Voltamos a ser quase crianças, cheios de caixinhas de remédios, consultas marcadas todos os meses.

Na realidade, o mundo dá muitas voltas e o que é bom demais numa determinada época, passa a ser um peso depois de alguns anos. E a tristeza bate à minha porta quando vejo o “Paraíso da Vovó Alari” incomodando, a alegria de filhos e netos ficando cada dia mais rara perto de nós.

Ainda bem que eu e o companheiro de 53 anos estamos sempre juntos em tempos bons e ruins.

Como sei que Deus existe, peço que nos oriente e nos mostre como resolver tal questão.

E os netos partiram...

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