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21 de Novembro de 2018

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Edição nº 879 / 2016

11/07/2016 - 16:43:18

“Se eu morrer, foi o marido da Fulana”

Fernando Tenório

Um grande amigo, aqui do Rio, mandou essa mensagem de texto, acordando-me na madrugada. Tentei ligar logo em seguida, e não obtive nenhuma resposta. Mais algumas tentativas, sem nenhum êxito. Depois de quase duas horas acordado, imaginando tudo de possível no mundo, vi no meu celular outra mensagem, que dizia que ele estava passando na minha casa para irmos à Lapa, pois precisava conversar.

Obedeci cegamente às recomendações. Sabia que meu amigo tinha muito para falar, e a curiosidade já me consumia. Tratei de lavar o rosto, colocar qualquer roupa e descer para esperá-lo.

Já no táxi, depois das formalidades, meu amigo disparou:

– Passei por uma hoje... Não desejo nem ao pior inimigo.

E continuou versando acerca da sua primeira aventura sentimental com uma mulher casada. A dama aproveitara que o marido estava em Búzios e convidou-o para um jantar romântico em sua residência, na Barra da Tijuca. Meu amigo, num misto de fascínio e medo, não conseguiu rejeitar o convite. Embarcou na onda de ser talarico, pé de pano ou qualquer outro adjetivo que o torne o Ricardão da parada.

Com lágrimas nos olhos, contou-me ainda que aquela havia sido a primeira e última vez. Se arrependimento matasse, ele estaria morto. Não me contive:

– E foi tão ruim assim?

– Não. O jantar aconteceu no maior clima de romance, mas depois, quando já estávamos nos finalmentes, eis que a campainha tocou. Pense na agonia da hora!

Surpreso, entendi rapidamente os motivos que fizeram meu amigo falar em arrependimento ao atravessar a relação alheia. Nem precisei perguntar nada para que ele continuasse:

– Entrei no armário, nu, com as roupas em uma mão e o sapato na outra. Uma humilhação. Só pensava no meu obituário: amante morre nu na casa de marido traído. Ela ficou à beira de um ataque, pensando que era o companheiro, e chegou a pedir para que eu arrumasse um jeito de sair do apartamento. Na certa, queria que eu pulasse do quarto andar...

O taxista não resistiu e soltou uma gargalhada. Nesse momento, já conseguíamos ver a enseada de Botafogo pela janela do carro. Para dar sequência, indaguei:

– E aí?

– E aí que eu pensei em mandar a mensagem para você. Morrer e aparecer boiando na praia como indigente não é para mim. Se eu fosse assassinado, alguém tinha que saber quem foi meu algoz.

Agradeci pela lembrança, afinal, nessas horas de aperto, só pensamos em alguém com quem realmente podemos contar. Porém, logo depois disparei:

– Você ia me colocar numa cocó sem precedentes. Um problema sério!

– É, mas de que valem os amigos?

Nesse momento, me calei. O nobre camarada continuou:

– A sorte é que não era o marido dela. Ouvi uma voz feminina diferente e o nome “mãe” pra lá e pra cá.

Meu amigo explicou que a mãe da sua enamorada apareceu do nada para visitá-la, para não deixá-la sozinha. Contou que passou quase duas horas preso no armário, enquanto as duas falavam sobre política, economia, a vida da tia solteirona e do primo que morava com outro camarada. Disse que sentiu o cheiro de café e tudo o mais. Perguntei:

– E você nu, lá no armário?

– Sim. Por isso não atendia suas ligações. Não podia ser descoberto. Estava um escuro triste, e não dava para colocar a roupa. A situação era muito humilhante. Eu já estava todo suado, tanto pelo calor quanto pelo nervosismo, e nada da mãe dela sair da casa. Fiquei ao lado dos casacos de inverno. Pense! Depois de um tempão foi que a Fulana apareceu para me libertar.

Meu amigo balançou a cabeça e começou a rir para o nada, com uma ironia requintada. Logo depois, continuou:

– A Fulana, ao abrir a porta do armário, falou bem assim: “vamos continuar de onde paramos”. Eu, que havia passado por aquela emoção toda, neguei. A bandeira do Brasil não ia nunca conseguiu subir até o topo do mastro. Foi muita agonia.

– Nem tentou?

– Claro que não. Tenho princípios, apesar de ser um canalha. Ela estava para jogo, mas eu não. A situação foi demais para mim. Podia estar morto agora.

Lacônico, ele repetia sem cessar que era um calhorda, que não merecia o perdão por atravessar o samba alheio e que ser Ricardão é para quem pode, não para quem quer. Expressava toda a sua pusilanimidade ao dizer: “Nunca mais!”.

Quando o taxista notou as lágrimas brotando da face do meu nobre amigo, disse:

– A gente só aprende errando, meu filho. Por exemplo, dei uns pegas na minha sogra quarta-feira. Levei ela ao motel e tudo o mais.  Foi ruim? Foi! Mas já valeu a experiência. Nunca mais faço.

O tom professoral, quase catedrático, foi demais. Ele contava que havia ficado com a sogra na maior naturalidade do mundo. Falava como se tivesse ido à missa e seu maior pecado fosse o não pagamento do dízimo. Continuou falando que agora a sogra o procura todos os dias, e que já não sabe como resolver o conflito. As palavras tiveram um forte impacto sobre meu amigo. Pareceram libertá-lo da condição de maior canalha do mundo.

Se de fato a história do taxista é verdade, nunca saberemos. Ele pode ter sido generoso para criar aquele contexto tenebroso, facilitando a vida do novo Ricardão do Rio de Janeiro.

Meu amigo disse, descendo do carro:

– Quando a gente pensa que não presta, vem alguém que mostra ser pior que a gente. Vida velha doida essa!

Descemos na Lapa, sorrindo, e bebemos até de manhã.

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