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Edição nº 878 / 2016

03/07/2016 - 17:37:43

Jornalista Teófilo Lins

LÍDER DA SUA CATEGORIA E FUNDADOR DO SINDICATO DOS JORNALISTAS FOI PRESO PELA DITADURA MILITAR EM 1964

Edberto Ticianeli Jornalista
Teófilo Lins continuou participando do movimento sindical dos jornalistas até os anos 80

O jornalista Teófilo Alves Lins nasceu no Povoado Poço Grande, em Pão de Açúcar, Alagoas, no dia 24 de julho de 1930. Filho de Manoel Pedro Lins e Aurelina Alves da Cruz, em sua terra natal foi aluno da primeira turma da Escola Estadual Bráulio Cavalcante, onde estudou até o 4º ano primário.

Veio para Maceió com a mãe no início dos anos 40 para estudar no Colégio Guido de Fontgalland. Com 19 anos, em 1959, foi trabalhar no Sesi, ao mesmo tempo que também ingressava no jornalismo, no Diário de Alagoas.

Casou com Lionete Acyoli Lins, com quem teve três filhos: Teófilo Alves Lins Júnior, já falecido, Yara e Jaciara Acioly Lins, que lhes deram três netos, Pedro, Paulo e Tomas.

Sua atuação destacada no jornalismo o levou a liderar a categoria em várias lutas. Esse compromisso com a profissão colocou-o como um dos fundadores e dirigente do Sindicato dos Jornalistas em várias diretorias. Também participou da fundação do Comando Geral dos Trabalhadores – CGT e foi um dos seus dirigentes.

Por ter vínculos com os dirigentes comunistas Nilson Miranda e Jayme Miranda, Teófilo foi preso durante o Golpe Militar de 1964. Sua irmã, Maria Lêda Lins, em recente depoimento à Comissão da Verdade dos Jornalistas. lembrou que ele “sempre foi conciliador e conseguia trabalhar com todos os segmentos políticos, sem problemas. Ele tinha amigos que eram comunistas e por conta disso achavam que ele também era militante e que era comunista”.

Em 1963, na segunda quinzena de janeiro, Teófilo participou do 1º Congresso Brasileiro de Radialistas em Porto Alegre. Nesta época também trabalhava no departamento de notícias da Rádio Difusora de Alagoas. A delegação alagoana era composta ainda por Cláudio Alencar, Nilton de Oliveira, Umberto Guerrera, Jorge Lamenha Lins (Marreco) e Eliezer Inácio da Silva. A delegação alagoana foi recebida por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

A Prisão

Uma das primeiras ações dos golpistas em Alagoas foi calar a imprensa e prender jornalistas. A maior vítima foi o jornal A Voz do Povo, onde Teófilo escrevia como colaborador. Segundo Lêda Lins, ao ver seus amigos sendo procurados e presos, Teófilo sabia que mais cedo ou mais tarde também seria detido. “O Teófilo já tinha dito que não queria dar o prazer à polícia de prendê-lo e que preferia se entregar”.

Dias após o Golpe de 1964, Teófilo Lins estava dormindo na casa onde morava, na Rua João Severiano, sem saber que a polícia estava a sua procura na casa da sua mãe, na Rua Cláudio Manoel, na Ponta Grossa, onde revistaram tudo à procura de documentos e livros. Teófilo, acordado pela mãe, que se deslocou até sua casa para avisá-lo, trocou de roupa e correu para a Rádio Difusora, que naquela época funcionava na Rua Pedro Monteiro.

Segundo Cláudio Alencar, no livro Histórias do Rádio, Teófilo estava sabendo que seria preso e o procurou apreensivo. Alencar estava respondendo pela direção da Rádio Difusora e resolveu esconder o amigo no primeiro andar do prédio, onde ficavam o auditório e os estúdios de locução e da técnica.

No dia seguinte pela manhã, a Difusora foi invadida pela polícia civil comandada pelo investigador Barbosa. Cláudio Alencar se deslocou para o local, protestou contra a invasão e ameaçou ligar para o governador denunciando a arbitrariedade. Com isso, a polícia se retirou e Alencar, aliviado, foi ver como estava Teófilo. Para sua surpresa ele não estava mais lá.

Segundo sua irmã Lêda Lins, ele se entregou no outro dia, após a intervenção de Divaldo Suruagy, então secretário da Fazenda e da Produção do governador Luiz Cavalcante. “Ele nunca esqueceu isso e o Suruagy chegou a ser padrinho do filho dele”.

Teófilo passou três meses detido. No início, na antiga Cadeia Pública de Maceió, mas depois foi transferido para o xadrez da 20ª CSM. “Minha mãe sofreu muito. Ela ficava angustiada quando ia visitá-lo. Ele se dizia muito magoado e injustiçado com a prisão. Acredito que prenderam ele para ver se ele falava alguma coisa dos amigos, mas ele era firme e nunca falou nada”, lembra sua irmã Lêda Lins. Meses após, em liberdade, Teófilo voltou a trabalhar como jornalista.

Uma das marcas deixadas por Teófilo foi a de ter sido o primeiro jornalista a escrever sobre automobilismo em Alagoas. Mas, mesmo quando escrevia sobre automóveis, Teófilo fazia um jornalismo de denúncia. Foi assim que novamente se viu como vítima de perseguição. O motivo, desta feita, estava longe de ser a proximidade com o PCB.

Em 1975, uma reportagem assinada por ele denunciava que o automóvel Passat, da Volkswagen, tinha problemas de aerodinâmica, o que estaria provocando vários acidentes. Essa mesma denúncia já tinha sido feita uma semana antes no jornal A Tarde, de Salvador.

Joaquim Monteiro de Carvalho, um dos maiores acionistas da Volkswagen no Brasil, não gostou e intercedeu junto aos proprietários da Gazeta de Alagoas, pedindo o afastamento do jornalista responsável pela matéria.

Ao morrer, no dia 19 de maio de 1994, Teófilo Lins tinha realizado o sonho alimentado desde criança que era o de ser jornalista. Trabalhou no Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas, Jornal de Alagoas, Tribuna de Alagoas, Jornal de Hoje e foi editor do Semeador, jornal da Arquidiocese de Maceió.

Em sua homenagem, Maceió tem hoje a Av. Jornalista Teófilo Alves Lins, no Clima Bom. Seguindo os passos de Teófilo Lins, seu sobrinho Rodrigo Lins é também jornalista e trabalha na área da comunicação como repórter cinematográfico.

Fonte: Informações da família,  depoimento de Lêda Lins à Comissão da Verdade dos Jornalistas Alagoanos e o livro Histórias do Rádio, de Cláudio Alencar, 2004. 

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