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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 878 / 2016

03/07/2016 - 17:34:22

De Machado a Molière

Claudio Vieira

O literato há de supor, pelo título da crônica, que estarei a falar de Machado de Assis e do dramaturgo francês Jean-Baptiste Poquelin, mundialmente conhecido por seu pseudônimo, Molière. Acerta pela metade, pois o Machado da crônica não se trata do nosso maior escritor, mas de um certo Sérgio Machado, ex-senador e ex-presidente da Transpetro, uma empresa nacional a mais espoliada pelo próprio e seus padrinhos políticos Renan Calheiros, Romero Jucá, Jader Barbalho, Edison Lobão e o onipresente José Sarney. 

Explicado o título, devo esclarecer qual a relação que encontro entre o literato francês do século XVII e o delator (premiado) brasileiro dos séculos XX/XXI. À primeira vista, improvável qualquer nexo entre os dois, separados por cinco séculos, sabendo-se que do Machado “denuncista militante” se desconhece pendores literários. A comparação, todavia, veio-me da leitura do bem posto artigo de Roberto Pompeu Toledo (Veja, 22/06/2016), no qual ironiza o nome TARTUFO atribuído ao trust do rapinador da Transpetro. TARTUFO é título e personagem de peça de Molière, na qual o mestre da comédia francesa debocha da hipocrisia da sociedade francesa de sua época, afeita à corrupção e ao apadrinhamento político de servidores públicos ocupantes de cargos relevantes. Tudo bem atual entre nós.

A forte comédia de Molière legou à língua portuguesa substantivo, adjetivo, verbo e advérbio derivados de TARTUFO. Provocado pelo excelente artigo, vou ao AURÉLIO e lá, no verbete tartuficar, encontro os seguintes significados: enganar, embair, iludir, seduzir, com tartufices. Eis como encontrei a relação entre o Machado, da política brasileira, e Molière. Aliás, essa relação não se resume ao delator da Lava Jato, mas aos políticos que fingem nos representar, que nos enganam, nos iludem e nos seduzem com tartufarias. Nesse ponto, para ser fiel à origem da palavra, lembro que a língua francesa também alberga o termo TARTUFFE com significado igual ao nosso. Essa constatação deixa-me em dúvida se o dramaturgo criou a palavra ou se já a teria encontrado posta no léxico do seu país. 

Independentemente das digressões linguísticas, infelizmente, em nossa sofrida Pátria, os tartúficos são quase todos os representantes políticos, incômoda maioria que atua tartuficamente nos governos e nos parlamentos nacionais. Duvidam da generalização? Não precisamos ir muito distante para constatarmos a verdade dessa observação, bastando ligeira vista d’olhos sobre os nossos próprios próceres, quase todos de alguma forma envolvidos com a Lava Jato e quejandas.

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