Acompanhe nas redes sociais:

23 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 878 / 2016

01/07/2016 - 08:05:46

“Queremos crianças nas escolas ou no mundo do crime?”

Presidente da Fapeal diz que Bolsa Família precisa ser aceito como programa para a Alagoas do futuro

Odilon Rios Especial para o EXTRA

Com R$ 15 milhões para investir em pesquisas e sinal verde do governador Renan Filho (PMDB), o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), Fábio Guedes, prepara editais para criar uma geração de alagoanos altamente qualificados em tecnologia. Alagoas lidera em desempregos no Brasil, segundo o Ministério do Trabalho, porque, diz uma das explicações do Governo, não tem mão de obra qualificada para preencher espaços vazios no mercado.

Ouvido pelo EXTRA, Guedes diz que a qualificação profissional de Alagoas passa pela aceitação em manter o Bolsa Família, renegociar a dívida de Alagoas com a União e um olhar sobre as crianças.

Veja entrevista:

O governador Renan Filho (PMDB) vem aumentando os investimentos em Ciência e Tecnologia, mesmo em tempos de crise. O que isso significa?

De fato, dentro desse pacote de investimentos o governador se comprometeu em finalizar as obras do Polo de Tecnologia, Informação e Comunicação, garantindo R$ 15 milhões, viabilizar o funcionamento dos dois polos agroalimentares (Arapiraca e Batalha) e aumentar, gradativamente, os repasses financeiros para que a  Fapeal tanto possa atender a demanda por pesquisas da comunidade científica, quanto fomentar iniciativas tecnológicas e a inovação produtiva. Essa visão estratégica coaduna com a necessidade de se formar novos segmentos econômicos de base tecnológica e construir pontes de aproximação entre pesquisadores, iniciativa empresarial e políticas públicas. Nesse sentido, os editais lançados pela Fapeal em maio, envolvendo cerca de R$ 8 milhões, buscam atender esses objetivos e, especialmente, atrair e reter em Alagoas recursos humanos altamente qualificados.

Alagoas tem uma mão de obra desqualificada, iniciativas de Governo ainda pequenas para reverter este quadro e altas taxas de desemprego. Como essa mudança poderia ser mais acelerada?

Esse é um problema estrutural que levará um certo tempo para ser equacionado. Entretanto, iniciativas como a instalação de escolas públicas estaduais em tempo integral, abertura de novas faculdades, expansão do ensino técnico, através da criação de novas unidades do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), a interiorização do ensino superior, tudo isso somado, trará retornos concretos para melhorar o padrão da qualidade da mão de obra dos jovens do estado. Além disso, o sistema estadual de pós-graduação estadual cresceu muito na última década e contamos hoje com 38 pós-graduações em nível de doutorado e mestrado acadêmicos e 12 mestrados profissionais. O maior problema encontra-se em alfabetizar as crianças na idade certa e conter a evasão escolar nos níveis fundamental e médio. Nesse sentido, ter escolas com infraestrutura adequada, professores bem remunerados e qualificados e incentivos aos alunos para se dedicarem aos estudos e atividades esportivas e lúdicas, são aspectos prioritários. Já assinamos termo de cooperação com a Secretaria Estadual de Educação visando, em pouco tempo, a concessão de bolsas de iniciação científica, cultural e artísticas para os alunos do ensino médio e para professores da rede estadual se qualificarem na pós-graduação acadêmica.    

Alta carga tributária, teto fiscal para os programas sociais, críticas quanto ao tratamento do Governo Michel Temer com áreas assistenciais. Por que uma das saídas corretas, neste momento, é a discussão sobre a dívida pública e os juros em torno dela?

A opinião das autoridades governamentais e econômicas geralmente gosta muito de se apoiar em exemplos da economia doméstica para justificar medidas de política econômica. Quando o Governo Federal precisa realizar um ajuste fiscal, compatibilizar receitas com despesas, comparam a situação de uma família com o que o Governo deveria fazer para adequar as despesas às receitas. Interessante que no caso das famílias uma das principais sugestões dos especialistas, além de cortar despesas, é para que elas negociem suas dívidas com credores para tentarem obter descontos, alongamento dos contratos e juros mais baixos. No caso do Governo Federal somente se usa o argumento dos cortes e aumentos de receitas, principalmente via elevação dos impostos. E, quando se fala em cortar, quase sempre são nos gastos sociais e investimentos. Entre tantas consequências, essa política de austeridade no âmbito federal irremediavelmente contribui para a queda da atividade econômica e aumento das desigualdades sociais. Por sua vez, ao contrário do que se sugere para as famílias, não se pode falar em negociar a dívida pública, rever contratos etc. Espertamente apenas uma parte dos conselhos às famílias é aproveitada pelas autoridades econômicas: de cortar, cortar e cortar. O sacrossanto compromisso com credores da dívida pública e despesas com juros é intocável. Por essa razão é muito importante os governadores estarem, nesse momento, questionando o pagamento das respectivas dívidas públicas, seus contratos, regras e prazos para pagamento. Ninguém é a favor de que os governos deem calotes, mas a negociação, no caso das dívidas públicas, importa e é necessário para destravar esse país e investir recursos em infraestrutura, saúde, educação, ciência, tecnologia e inovação. 

Apesar dos resultados, o Bolsa Família é alvo de resistências, por exemplo, no interior de Alagoas. E, treze anos depois de criado, ainda não conseguiu oferecer acesso integral nas áreas de saúde e educação àqueles a quem se destina. O problema é de dinheiro ou de vontade política?

O programa Bolsa Família é extraordinário e suas falhas não o condenam em absoluto. É o maior programa social já implantado na periferia do mundo desenvolvido e permite que as famílias pobres e miseráveis não vivam sob a ameaça constante de não poder contar com um mínimo de recursos que lhes traga dignidade. Os efeitos do programa são de curto e longo prazo. No curto prazo, a massa de recursos financeiros distribuídos pelas famílias faz girar a roda da economia, especialmente em localidades muito pobres e sem perspectivas de desenvolvimento econômico, nos termos da modernidade. O comércio e serviços populares são os mais beneficiados, mantendo o emprego e a geração de renda nesses locais. No longo prazo, a obrigatoriedade de manter os filhos dessas famílias matriculados nas escolas e a vacinação em dia, contribuem para gerações futuras com menos problemas de saúde e com uma base educacional mais adequada, mesmo questionando-se a qualidade do ensino básico e fundamental. Mas qual o melhor: crianças nas escolas ou dedicando tempo à formação desumana no mundo do crime ou alocadas em formas de trabalho degradantes? 

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia