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Edição nº 877 / 2016

27/06/2016 - 18:43:08

Primeiro jornalista alagoano

Padre Afonso de Albuquerque Melo iniciou-se no jornalismo em 1832 no jornal O Federalista Alagoense, que sucedeu o Íris alagoense

Edberto Ticianeli Jornalista
Tiphografia Americana em Jaraguá, no final do século XIX, exemplo das limitadas condições gráficas da época

Nosso primeiro jornalista nasceu nos idos de 1802 na cidade de Alagoas, hoje Marechal Deodoro. Sua família, Calheiros de Melo, era muito influente em Santa Luzia do Norte. Seu avô, também Afonso de Albuquerque Melo, era o proprietário do Engenho Água Clara, instalado às margens do Mundaú.

Seus primeiros passos na educação foram guiados por seu tio, cônego Antônio Gomes Coelho, vigário colado da freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Alagoas. Completou seus estudos no Seminário de Olinda, de onde saiu ordenado presbítero em 1827. Voltou para a cidade de Alagoas para ser coadjutor do seu tio e primeiro mestre.

Com a morte do cônego Antônio Gomes Coelho, esperava-se que Afonso de Albuquerque Melo assumisse o seu lugar, mas a cúpula da igreja enviou um novo padre para essa freguesia. Não foi bem recebido. Na sua primeira missa viu muitos jovens revoltados rasgando a sua provisão episcopal, forçando a sua saída da cidade. Este fato fornece indícios de que o jovem padre Afonso já exercia razoável liderança política na sua comunidade.

Em 1829, confirmando sua projeção política, padre Afonso de Albuquerque Melo é eleito para a Câmara Municipal das Alagoas. Nessa condição é recebido na corte pelo imperador D. Pedro I, que tendo conhecimento do episódio da expulsão do padre, se refere a Afonso como o “Capelão dos Moços”.

Nos anos da década de 1830 já o encontramos como suplente eleito para o 2º Conselho Geral da Província, que funcionava na velha capital. Em 1932 é titular deste Conselho. Para a 1ª Legislatura da Assembleia Provincial (1835-1837), padre Afonso aparece como suplente, mas assume o mandato no período. Em seguida é reeleito para as seis legislaturas seguintes.

Na última legislatura (1845-1847), ocupou temporariamente uma cadeira na Câmara dos Deputados em substituição ao padre Lopes Gama. Voltou à Câmara como deputado-geral eleito por mais duas legislaturas, demonstrando ser um político destacado no cenário alagoano.

Com a polarização política na Capitania das Alagoas se dando entre Lisos e Cabeludos, a partir de 1844, padre Afonso toma partido dos Lisos e se vincula ao grupo liderado por José Tavares Bastos. Sua posição contundente lhe trouxe muitos desgastes. Quando da sedição dos Lisos, que contou com a ajuda de “bandoleiros” das matas de Porto Calvo, foi ele quem viabilizou a participação do famigerado Vicente de Paula.

Diante destes problemas, padre Afonso encerra a sua participação na política em 1852 e volta a ser vigário na freguesia de Nossa Senhora da Conceição, já na condição de cônego da Capela Imperial, visitador da Diocese e vigário-geral da província. Além disso, era também proprietário de terras em Atalaia. Faleceu aos 72 anos em Alagoas, atual Marechal Deodoro.

O primeiro jornalista 

alagoano

O incipiente jornalismo alagoano que surge na segunda quadra do século XIX é profundamente vinculado à política. Segundo o historiador Douglas Apratto Tenório, “os guias de opinião vão defender seus partidos sem nenhuma obrigação com o equilíbrio, com a crítica justa ou com as aspirações reais da população”.

Em 1831, o presidente da província de Alagoas era o paraibano Manoel Lobo de Miranda Henriques. Recebido com desconfiança, o governante resolveu se aproximar dos alagoanos e informá-los melhor dos seus feitos. Para tal, comprou do negociante pernambucano João Batista Franco uma tipografia no valor de 860$905. O dinheiro veio de uma coleta entre os seus partidários.

Assim, foi montada a primeira tipografia em Alagoas, A Patriótica, que foi instalada numa casa da Rua do Livramento, nº 3. Em seguida mudou-se para a Rua do Comércio, nº 6. O nome Patriótica era uma referência à Sociedade Patriótica Federal, organizada em todo o país pelos liberais. Seu tipógrafo veio do Recife. Era o francês Adolphe Emílio de Bois Garin.

O primeiro jornal a ser impresso em Alagoas e na Tipografia Patriótica foi o Íris Alagoense, que já tinha lançado o primeiro número, em 1931, com impressão na Bahia. O redator era Adolfo Emílio de Bois Garin, auxiliado por dois jovens alagoanos, João Simplício e Bartolomeu de Carvalho.

No dia 18 de fevereiro de 1832, o nº 50 do Íris Alagoense circulou pela última vez. Quatro dias depois, o porta-voz dos liberais volta a circular com nova denominação, agora era O Federalista Alagoense.

O francês Garin, que redigia o jornal, terminou por ser alvo, literalmente, dos embates entre os grupos políticos locais. Seis dias depois de ter circulado o nº 50 do jornal, Garim foi atingido por tiros de pistola, saindo ferido no peito e com mais doze caroços de chumbo no corpo. Voltou para Recife imediatamente.

Auxiliado pelo advogado pernambucano Felix José de Melo e Silva, quem assume a editoria do jornal é um dos líderes dos liberais alagoanos, padre Afonso de Albuquerque Melo, que passa a ser o primeiro jornalista alagoano.

Fonte: Pesquisa do professor Douglas Apratto Tenório para o fascículo nº 8 de Memórias Legislativas, 1998, editado pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas

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