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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 877 / 2016

27/06/2016 - 18:18:07

Ensaio sobre a culpa

Fernando Tenório

Outro dia, ouvi um amigo desesperado queixando-se da máquina fotográfica de seu telefone. Dizia-se rejeitado numa rede social de relacionamentos por não ter uma boa câmera. A câmera era tudo e ele nada. O sujeito em questão era o aparelho eletrônico. O homem era apenas uma imagem mal captada. O caso, por mais simples que pareça, trouxe-me a uma reflexão sobre o que vivemos.

O ser humano, com seus traços narcísicos e instinto de sobrevivência, tende a acumular tudo, até mais do que necessita, privando, muitas vezes, os pares daquilo que consegue para si. O poder nasce disso: ter algo que outro não possui. Muitos dizem que o capitalismo está enraizado na cultura em que vivemos, pois ele reproduz o que inconscientemente buscamos. Somos eternos acumuladores. Temos o medo da morte e por isso nos precavemos. Temos o medo da vida e por isso nos cercamos de bens de consumo, como uma afronta à nossa capacidade de morrer. Mas, dentre todos os acúmulos que buscamos, existe uma exceção. Só há uma coisa que queremos dar tudo aos outros para ficarmos sem nenhuma parte: a culpa.

O fato é que passamos a vida buscando desculpas para culpar alguém ou algo. Essa objetificação da existência, onde não somos sujeitos em nada e por nada, tem criado raízes na nossa forma de enxergar o mundo. Vivemos uma era histérica e pagamos o preço dela!

Em dois minutos no metrô pude ouvir várias histórias que ratificam minha teoria. O amor que não deu certo foi culpa da amante que não se vestia adequadamente para as ocasiões. A conta de energia não foi paga, pois os Correios não a trouxeram no tempo correto. O amigo desaparecido deixou de nos telefonar. O filho que vai mal na escola é apenas um revoltado que não valoriza tudo que foi fornecido. O país não dá certo, pois a Dilma administra pessimamente. A brochada de ontem foi obra das preocupações com a moralidade do país, já que estamos de mal a pior, vide o tríplex do Lula dado pelas empreiteiras. Em todas essas ocasiões, somos apenas uma pluma leve que voa e observa o desenrolar das coisas. Tudo nos acontece, mas nada é por nossa culpa. A insustentável leveza do ser, meu caro Kundera.

É difícil admitir que o amor não deu certo, pois já não desejávamos mais aquela pessoa. A conta de energia não foi paga porque não quisemos, já que poderíamos pegar a segunda via na internet. O amigo sumiu porque também paramos de telefonar. O filho vai mal na escola e nem nos damos conta, pois passamos tempo demais no whatsapp vendo grupos de sacanagem. O país vai mal porque eu compro o voto da empregada doméstica com cem reais para meu amigo ladrão deputado. É ladrão, mas é ladrão amigo. A sua brochada é obra e graça de um decréscimo da testosterona circulante, ou seja, você não é mais um menino. O tempo corre para todos e com você não será diferente. O fato de o Lula ser um sacana não diminui seu erro de tentar sonegar o imposto de renda! Os exemplos não têm fim. Direta ou indiretamente, somos responsáveis por tudo. A culpa, meus caros, é nossa!

Nesse processo de desresponsabilização em que vivemos, outras coisas que enxergo como sintomáticas são os tais relacionamentos abusivos, onde um lado faz e acontece com o outro. Homens e mulheres vivem verdadeiros infernos, mas não conseguem sair deles. Acotovelam-se em relações masoquistas só para reclamar do parceiro e culpá-lo por todos os males da existência, como se não pudessem fazer nada. Acusam o parceiro, vitimando-se, mesmo quando podem sair daquilo. O parceiro/a parceira realmente não presta, todavia precisamos nos posicionar e dar um basta. Temos coragem para tal? Muitos de nós não! Aceitamos o amor que achamos merecer... e ao que parece, merecemos muito pouco.

Pensando bem, essa questão é muito louca. Se você está lendo esse texto de um computador, com uma televisão ligada, a luz do quarto acesa, carregando o seu celular, saiba que seu gasto de energia tem repercussão na água do planeta que está indo embora. Não adianta postar reclamando e dizendo que o sistema Cantareira está no volume morto, tendo tal comportamento predatório. Não culpo somente vocês, eu também tenho o ranço da hipocrisia e faço as mesmas coisas que condeno. O fato é que quando disparamos o gatilho da culpa, ninguém sai ileso.

Eu sei que é doloroso admitir que somos sujeitos de um tempo onde 1% das pessoas têm mais dinheiro que o resto da população mundial. Somos sujeitos de uma sociedade que oprime o trabalhador para dar lucros soberbos aos empresários, chamando de “vagabundo”, “porco comunista” quem vai às ruas denunciar que somos parte de tudo isso. Somos sujeitos e, portanto, culpados. Se servir de alento, sendo nossa a culpa, temos a chance repará-la, a chance de mudar as coisas, fabricar um novo jeito de fazer o mundo. Meu amigo, aquele que culpa a máquina, tem de olhar de si para si e ver que não é uma bela figura. Que, talvez, a imagem não seja seu melhor método de conquista.

A verdade, meus caros, é que estamos buscando os culpados para tudo durante toda a vida, quando, na verdade, os culpados não estão longe. Eles comem nas nossas casas, dormem nas nossas camas e bebem em nossos copos. Os culpados, por mais doloroso que seja, somos nós. Saber disso dói, mas liberta.

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