Acompanhe nas redes sociais:

24 de Setembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 877 / 2016

24/06/2016 - 12:10:19

Campanha ajuda jornalista a pagar indenização por danos morais

Odilon Rios foi condenado por artigo sobre a morte do filho

José Fernando Martins Especial para o EXTRA

Assassinado três vezes. Embora pareça impossível foi assim que a vida do adolescente José Alexystaine Laurindo, 16, foi ceifada pela violência que impera na sociedade. A primeira vez foi aos 12 anos enquanto andava bicicleta em Matriz de Camaragibe. Alex ou Taine, como era conhecido pelos amigos, foi preso pela Guarda Municipal e, segundo endossado pelo Ministério Público, torturado pelas autoridades. O motivo foi sacudir, para trás, uma pedra, que acabou atingindo, sem querer, uma viatura policial após consertar a corrente da bicicleta a qual ele brincava. 

Foi jogado para dentro da viatura. O veículo sacolejou por uma hora pelas ruas da cidade. Em seguida, Taine foi descarregado na delegacia e os próprios criminosos, presos nas celas, gritavam que ele era uma criança e não merecia aquele tratamento. Após esse episódio, o jovem murchou e começou a enxergar a vida de outro modo, entre pesadelos e silêncios que duravam dias. 

Conforme a mãe Ana Claudia Laurindo, o filho tinha ataques de pânico e momentos de revolta. “Mudou completamente o modo de ser”, disse ao EXTRA Alagoas. Anos se passaram e, aos 16, ao tentar separar uma briga na mesma cidade, Taine perdeu a vida física. O assassinato foi com dois tiros: na barriga, para que ele caísse. E no ouvido, o disparo fatal. A terceira morte foi proferida pela própria polícia alagoana. Ana Claudia e o marido Odilon Rios viram acusações de que o filho era usuário e participava do tráfico de drogas. Pior: as acusações envolviam a própria mãe do adolescente, chamada de traficante. 

Depois de assassinarem os sonhos e o corpo de Alex, a reputação também não ficaria intacta. Do dia 22 de novembro de 2010 até os dias de hoje, familiares lutam para que a morte de Alex não seja mais apenas um número estatístico. “A afirmação de que meu filho foi assassinado por causa de drogas, para a sociedade alagoana, é algo corriqueiro. A polícia afirma isso todos os dias quando alguém é assassinado. Cria-se uma ideia de assepsia social a partir da criminalidade. O crime se torna uma limpeza da sociedade e ninguém questiona isso”, desabafou Ana Claudia. 

Na época, em resposta à posição da Polícia Civil, Odilon Rios, jornalista combatente e que atua em várias mídias de Alagoas, incluindo esse periódico, escreveu um artigo externando a sua revolta. As palavras, enfim, cumpriram o seu papel, pelo menos em parte. O artigo atingiu a Polícia Civil que acabou processando o jornalista. Vários processos por danos morais e uma ação penal, esta última vencida pelo jornalista. Mas, um dos processos tramitou na surdina. E foi recebido com surpresa pela família do jovem assassinado. 

Condenado pelo desabafo crítico referente às autoridades policiais, Rios terá que pagar uma indenização de cerca de R$ 5 mil. Por que na surdina? Somente na semana passada ele descobriu ter sido julgado e condenado, à revelia, sem chance de defesa. Foi citado por uma correspondência deixada, em 2012, na portaria de um prédio onde funcionava a redação de um dos locais onde o jornalista trabalhou. E a correspondência não chegou às suas mãos.

 Julgado e condenado, Odilon está proibido de falar do caso. A Justiça acatou o pedido da delegada que o processou. De acordo com o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), Flávio Peixoto, o condenável é qualquer tipo de ação que tolha a liberdade de expressão do profissional. “Estamos passando por momentos difíceis no Brasil pelo grande número desses casos. Estão tentando calar os jornalistas de toda a forma possível. A condenação do Odilon Rios será informada à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)”.

A CAMPANHA 

Para ajudar o marido, Ana Claudia teve a ideia de vender livros para angariar fundos. Os títulos das obras são relacionados ao drama que a família passou com a morte do filho. De autoria de Ana Claudia e Odilon Rios, o livro “Bastidores da Violência (E dos Violentos) em Alagoas” é uma espécie de diário que conta como foi a experiência de enfrentar a perda do adolescente. Já o segundo livro, “Construção da Alma Alagoana: De Graciliano aos Nossos Dias”, trata da violência alagoana como cultura e como forma de se expressar no mundo. 

“Existe um movimento entre amigos e jornalistas solidários que estão se organizando para vender os livros na rua fechada (Sílvio Viana) na Ponta Verde, no próximo domingo, 26, a partir das 13h. As obras são vendidas pelo valor que a pessoa pode pagar”, informou Ana Claudia. Mais informações: (82) 98808-4903.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia