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12 de Novembro de 2018

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Edição nº 876 / 2016

18/06/2016 - 16:58:45

Assusta, dói, acalenta e passa

Fernando Tenório

Pensamos que para compreender a vida precisamos de muita coisa. Livros, tratados, sessões de terapia, conversas infinitas nos bares... Mas não, para compreender a vida precisamos de bem pouco. Basta um olhar atento vendo uma criança brincar.

Há certo tempo, registrei a cena da minha afilhada brincando de encaixar a lua, o sol, um quadrado e um triângulo em seus respectivos espaços. Uma cena casual que passa impune aos olhos de tantos.

O que mais me chamava a atenção era o esforço feito por ela para encaixar coisas que não correspondiam: a lua no lugar do triângulo, o sol no lugar do quadrado. Havia uma quantidade de energia imensa em movimento e ela chegava a mostrar os dentes, contraindo a musculatura da face. Logo depois, a danadinha esboçou um choro por não conseguir seu intento.

Os mais apressados se perguntam “E daí?”, talvez por não conseguirem entender que é isso que passamos a fazer durante toda a vida: encaixar peças em lugares que não lhe cabem, sendo essa uma gênese de angústia.

Tudo isso para chegar ao dia de ontem, mais precisamente à Adega Pérola. Uma amiga falava da incompatibilidade com seu novo amante. Ela uma mulher de alma livre, mente aberta e revolucionária. O camarada uma figura ligada ao militarismo, quase fã do Bolsonaro. Sabe lá por quais diabos, os dois se conheceram numa festa e um romance aconteceu.

Pois bem, a moça relatava, aflita, os caminhos para os quais seu desejo a levava e eu ouvia. Ela sentia-se incomodada por estar envolvida com alguém tão distante. De certo modo, havia até uma culpa, um sofrimento. Simplificar tudo isso e sair dando diagnósticos para relação é o primeiro erro de quem se propõe a ouvir. Ela repetia como um mantra: “Estou incomodada, mas vou seguir nisso. Vou seguir o meu desejo”.

Tive de ponderar:

- Mas será que devemos mesmo seguir sempre o desejo?

- Claro - a amiga respondeu.

- Eu pensei que deveríamos tentar seguir a felicidade.

Chegamos a um ponto importante da questão: o desejo nem sempre anda de mãos dadas com a felicidade. Muitas vezes ele nos leva por jornadas bem complexas que trazem mais sofrimento. O desejo pode nos levar às compras excessivas, aos relacionamentos problemáticos, à casa acarpetada e cheia de móveis que destoa do nosso íntimo. Não estou condenando o desejar e o ter o que se deseja. Estou pontuando as consequências disso.

Já a felicidade tem outra característica. Ela é uma bicada de passarinho que nos atinge rapidamente e vai embora. Assusta, dói, acalenta e passa. Muitas vezes é um instante, um segundo, pelo qual valeu a pena ter vivido e que nos traz toda uma potência de existir no mundo tal como ele é. É o clímax diante do caos!

Lembro-me bem da minha afilhada trocando a feição de choro por uma de alívio, ao desistir de encaixar coisas distintas. A peça foi suavemente deixada de lado e ela saiu cambaleante e livre, sorrindo em busca de outro brinquedo. Ela decidiu ser feliz, buscar outras miragens, e pareceu entender, antes de nós, o que é essencial: a vida não quer o prazer do sacrifício, ela nos cobra é a leveza, a fluidez de pegar e deixar peças, sair e entrar de lugares, aguardando uma bicada furtiva de um passarinho ao longo do nosso trajeto.

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