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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 875 / 2016

12/06/2016 - 08:09:42

Velhos parentes

Alari romariz

Tive uma infância maravilhosa: pais estruturados, um bom lugar para morar, escola pública da melhor qualidade, irmãos saudáveis e amigos. Tudo como manda o figurino. Mas, uma coisa incomodava: visitar velhos parentes.

Minha mãe era filha única, muito mimada, oriunda de uma grande família. Tínhamos tios e tias chatos e outros muito simpáticos. Havia um irmão da minha avó materna, morador em Maceió; ficou um velho chatíssimo. Todos os domingos ia à nossa casa e sempre se metia em nossas vidas.

Do lado do meu pai havia a minha avó (com quem sempre me identifiquei) e duas irmãs que a ajudaram a criar nosso pai e seus irmãos. Uma bem chata, tinha um lado morto (doença na infância) e ficava nas esquinas da casa esperando que passássemos para nos pegar e beijar. A outra era um doce de pessoa: sempre tinha palavras gentis para todos nós. Morreu esquecida do mundo (com Alzheimer) creio eu, mas não perdeu a doçura.

O tempo foi passando, a família crescendo e viramos pais, mães, tios e tias. O mundo moderno intensificou a separação dos casais e aí surgiram os segundos maridos ou segundas mulheres. A aproximação com os sobrinhos variava de acordo com a amizade que mantínhamos com os pais. Claro que alguns viviam bem mais próximos de nós e outros, tendo em vista o desentendimento dos casais, foram criados longe. Lembro-me que tenho dois sobrinhos com os quais só mantive aproximação quando tinham 7 e 8 anos.

Outros, no entanto, foram criados bem perto de todos nós, frequentando a casa de meus pais. Criou-se, então, uma nuvem de separação por causa de constrangimentos resultantes de briga de casais.

Virei avó e a história se repete. Ouço meus filhos dizerem: “Mamãe só gosta dos filhos de Fulana e Sicrana”. Na realidade, determinadas mães afastam os filhos da família do marido, ou de outra maneira, pais que afastam os filhos da família da mulher. E esquecem que as crianças ouvem comentários negativos sobre a família dos avós e assimilam a ideia de serem os velhos ruins.

Já dei boas carreiras para assistir filhas quando têm filhos. Vejo o neném desde que nasce, passa férias conosco, convive com os avós bem cedo. Com os filhos é diferente: os bebês nascem e não somos chamados. Crescem meio afastados e até na hora de dar um presente temos dificuldade, pois não sabemos do que ele gosta. Lembro-me de um fato interessante: mandei bordar o nome de uma neta com linha cor de rosa numa toalha e levei para dar-lhe de presente; quando ela abriu o pacote, disse: “Vó, odeio a cor rosa”. E meu queixo caiu!  

Do mesmo modo com sobrinho. Existem alguns que vimos nascer, somos padrinhos. Outros não conviveram conosco e se sentem como estranhos quando nos encontram. Mas, na cabeça dos velhinhos, são filhos de irmãos e irmãs, por quem mantemos carinho.

Interessante são os parentes do lado do meu marido. Convivemos bastante com alguns e muito pouco com outros. Procuramos manter o vínculo familiar, mas alguns são arredios porque foram criados longe de nós. Como tenho espírito agregador, sempre os procuro. Não os esqueço.

Hoje, estamos no rol dos velhos parentes. Poucos nos visitam, apesar de nossa casa estar sempre cheia de amigos, parentes e agregados. Entendo que não deve ser prazeroso tirar um domingo para visitar dois tios velhos de 75 anos.

Minha irmã mais nova, Aline, administra bem esses problemas. Recebe todos com muito carinho e é sempre procurada nas horas mais difíceis. Ela, vinte anos mais nova do que eu, foi contemporânea de alguns sobrinhos que nem a chamam de tia.

Voltando à infância, interpreto a reação de alguns netos e sobrinhos que não conviveram conosco e sempre ouviram comentários negativos a nosso respeito, tipo: “Eles são chatos, rigorosos, conservadores”.

Em compensação, recentemente, um sobrinho do meu marido escreveu no facebook: “Tia Alari, aprendi muito com a senhora; era dura, mas, hoje vejo que tinha razão”. E ele era um danadinho!

Eis-me aqui no lugar da velha tia com mais de 30 sobrinhos e da velha avó com 11 netos.

Feliz e sem remorsos!!!

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