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26 de Setembro de 2018

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Edição nº 875 / 2016

12/06/2016 - 07:41:15

Jorge Oliveira

O voo da serpente

Jorge Oliveira

Brasília – Existe um problema político aparentemente simples de se resolver, mas que começou a dar muita dor de cabeça ao Michel Temer. A Casa Civil  decidiu cortar as mordomias da Dilma e de seus auxiliares porque os gastos extrapolam os limites da decência. A presidente afastada, que não tem compromissos oficiais, está usando os jatinhos da FAB para produzir factoides pelo Brasil afora. Leva a bordo dezenas de auxiliares com salários de marajás para orientá-la em seus discursos e até preparar as suas chegadas festivas nos locais previamente escolhidos para falar sobre o golpe.

Pois bem, o governo decidiu limitar as viagens dela e restringir o uso dos cartões corporativos de seus auxiliares, cujas despesas continuam sob segredo de Estado. Ao ser avisada que a farra estava chegando ao fim, Dilma irritou-se e usou a rede social para provocar Temer com arrogância, prepotência e autoritarismo, como trata os seus subordinados. Na queda de braço, levou a pior. A Casa Civil impediu que ela usasse o avião da FAB para um convescote em Campinas, São Paulo.

Temer não engoliu os desaforos da Dilma, que peitou a sua autoridade, com seus arroubos de sempre:

“Eu vou viajar”, disse ela. “É um escândalo que eu não possa viajar para o Rio, para o Pará, para o Ceará… Isso é grave. Eu não posso, como qualquer outra pessoa, pegar um avião (comercial). Tem de ter todo um esquema garantindo a minha segurança. Estamos diante de uma situação que vai ter de ser resolvida”.

Ora, existe um ditado que diz que se você não pode enfrentar o seu inimigo não o desafie. Dilma pagou para ver e recebeu o troco. O governo Temer, com razão, corta as despesas supérfluas do gabinete porque constatou que ela está extrapolando ao gastar 280 mil reais com comida entre os meses de janeiro e maio deste ano, um exagero alimentar para quem vive em permanente regime para manter a silhueta. Não permitiu que ela usasse o helicóptero oficial para se deslocar do Palácio da Alvorada para a Base Aérea de Brasília, um percurso de treze quilômetros de carro, mas que, quando feito pela aeronave, onera os cofres públicos em 15 mil reais. Aí, você há de dizer: “mesquinharia, coisa pequena”. Ocorre que se você não começar a cortar os pequenos gastos que parecem insignificantes, certamente vai perder o controle para as despesas maiores financiadas com o dinheiro do contribuinte. Apenas para lembrar, a Dilma gastou 60 milhões de reais só com o cartão corporativo em 2014, ano eleitoral. 

O deslocamento da Dilma custa caro à nação. Se ela não tem compromissos oficiais, já que está afastada do cargo, o brasileiro não deve pagar as suas viagens e mordomias com cartão, cabelereiros, jatinhos, hotéis de luxo e carros oficiais pelas suas andanças pelo país. Não se trata aqui de impedir os movimentos da presidente. Ela, como todo brasileiro, tem o direito de se locomover para qualquer lugar desde que banque as suas despesas como qualquer cidadão ou cidadã comum, já que não está no exercício do poder, portanto, sem as prerrogativas de direito.

Desafio

A questão mais grave é quanto ao desafio que a Dilma faz ao presidente em exercício ao deixar claro que não vai aceitar a decisão da Casa Civil de proibi-la de viajar para outros estados que não seja Porto Alegre, seu local de origem. No primeiro embate, encolheu-se. A gastança desenfreada chamou a atenção do governo para outras de suas atividades utilizando-se da estrutura do estado. A principal delas, a de articular movimentos petistas para bradar aos ventos que foi apeada do poder por um golpe. A outra, mais estratégica, de se juntar aos blogueiros oficiais para plantar inverdades contra o governo. 

Mordomias

A Dilma sempre alega que as suas mordomias estão amparadas por lei. Como o país vive em uma economia de guerra, Temer bem que poderia revogar esse decreto, tornar os gastos do governo mais transparentes e acabar de vez com os cartões corporativos. Com essa medida moralizadora, a Dilma iria choramingar pelos corredores até seus dias finais de ócio remunerado mas não teria como atacar o governo que corta na carne. Esta novela, porém, ainda vai se arrastar por muito tempo. Até o próximo capítulo de “O voo da serpente”. 

Irresponsabilidade

Convoco você, amigo leitor, para uma reflexão sobre como o nosso país está sendo conduzido neste momento por dois presidentes. E como é difícil entender o raciocínio dos políticos em tempo de crise. Confesso, com muita humildade, a minha ignorância em não entender até agora a aprovação do aumento do servidores públicos (Parlamento, Justiça e Executivo), que vai levar o país a gastar 59 bilhões de reais até 2019, quando a previsão é de um rombo nas contas públicas para este ano de 176 bilhões de reais.

Incompreensão

Não vejo como nenhum demérito a minha dificuldade em compreender este aumento - que terá um efeito cascata – no momento em que os trabalhadores brigam com os patrões nas fábricas para que eles reponham pelo menos o índice da inflação em seus salários defasados. Há, portanto, uma insatisfação geral no país, e a massa revoltada pode ir às ruas em protesto para reaver suas perdas salarias. Aí o bicho pega.

 Discordância

A própria equipe econômica do governo não ficou satisfeita com o aumento. Alega que não houve consulta ao Planejamento nem à Fazenda, o que vem provocando um desgaste na autoridade de Henrique Meirelles, responsável pelo equilíbrio financeiro do país. A decisão, para alguns economistas do governo, foi política e de conveniência. E não levou em conta os esforços para se conter os gastos numa economia em frangalhos como a do Brasil.

Confusão

Diante desses desencontros, o país continua confuso. Enquanto a primeira presidente, a Dilma, viaja pelo país para repetir a ladainha do golpe para um séquito de seguidores, o outro presidente, Michel, se solidariza com o Congresso que aprovou o aumento salarial dos servidores públicos. E diz, de alto e bom som, que o reajuste vai acalmá-los  pelos menos por esses próximos “dois, três, quatro anos”. Temer quer dizer, nas entrelinhas, o seguinte: estamos nos antecipando a qualquer tipo de ameaça de greve no governo. Para evitar isso, a receita é simples: pega-se boa parte do orçamento do país e, num conchavo político, decide-se dividi-la com os servidores ativos e inativos como se o país estivesse nadan-do em dinheiro.

Afronta

Em outros tempos, uma atitude como essa, tão afrontosa ao povo, teria um nome: irresponsabilidade. O Brasil com mais de 11 milhões de desempregados, não pode se dar ao luxo de privilegiar o servidor público. Não que eles não mereçam como trabalhadores que são, mas o momento é de sacrifício. E o governo não deveria, em hipótese alguma, estar se vangloriando de ter aprovado esse aumento. Deveria, isto sim, estar mais empenhado em acabar com as mordomias no serviço público, cortar gastos supérfluos, reduzir altos salários, a frota de carros, as viagens dos jatinhos oficiais, o cartão corporativo etc. etc. Precisa, sobretudo, impor um modelo de austeridade que leve o povo a apoiar os novos tempos e não a se rebelar com concessões de novos privilégios a uma classe de trabalhadores.

Desinformação

Os brasileiros precisam ter mais informações sobre a economia que o governo fez quando reduziu o número de ministérios. Ou se foi apenas uma cena para inglês ver. Saber, por exemplo, se esses ministérios, transformados em secretarias, mantêm o mesmo quadro de funcionários e os gastos intocáveis; quantos cargos comissionados foram suprimidos da folha do Estado, aparelhado pelo PT, e  qual foi a economia com esses cortes; e quais os projetos que visam a enxugar a máquina pública para reduzir os custos. Até agora, Temer não mostrou nada que convença os brasileiros de que vai governar para fazer do Brasil um país moderno com uma estrutura administrativa eficiente.

Projeto

Como não apresentou sequer um rascunho de projeto, é de se perguntar: há alguém que pensa no governo? Pelo troca-troca de cadeiras e as gafes cometidas até agora, pode-se deduzir que pouca gente - ou quase ninguém. Governo provisório não significa improvisar o governo. Esse bate-cabeça da equipe do Temer é que alimenta o sonho da Dilma de voltar ao poder.


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