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20 de Novembro de 2018

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Edição nº 875 / 2016

12/06/2016 - 07:39:30

Sobre colher metáforas

Fernando Tenório

Decidi, sabe-se lá o motivo, que ficaria em casa numa sexta-feira, pensando sobre a vida, respeitando o limite do cansaço colocado pela rotina. Dei uma organizada nos papéis, lavei os pratos, coloquei as roupas na máquina; denotando um autocuidado que nunca foi tão importante, todavia que aprendemos a valorizar com o correr do tempo. Quando finalmente sentei no sofá, já exausto, ouvi o som vindo da televisão, mais precisamente de um canal voltado aos animais.

O narrador traçava as mutações e adaptações das aves, percorrendo o caminho filogenético e afirmando que as asas surgiram inicialmente como forma de ampliar a superfície de contato, facilitando a manutenção da temperatura corporal, ajudando na sobrevivência. Para minha surpresa, voar foi uma consequência dessa mudança estrutural das aves.

Fiquei com isso na cabeça e resolvi começar a plantar a minha metáfora, entretanto mal tive tempo de pensar e já recebi uma ligação de uma querida amiga, interrompendo minha livre associação de pensamentos. Ela reclamava do namorado, que mais uma vez a havia deixado em casa para sair com os amigos, tornando esse fato quase uma rotina para o casal.

Minha amiga, aflita, dizia que suportava aquilo tudo, pois se sentia acolhida e tinha medo do que a esperava numa outra possível relação. “O amor é isso aí: tolerar o outro”, disse ela.

Ao desligar o telefone, findei minha metáfora, se é que isso é possível, já que muitas vezes a vida nos impõe mudanças, adaptações, guinadas. Seguimos esse caminho da rotina pensando que é só aquilo e nada mais pode ser feito. Que somente uma força mágica do imponderável pode nos tirar do fosso da mesmice.

Se aves fossem dotadas de consciência, ficariam aflitas vendo as asas crescendo como forma de sobrevivência. Somente algumas se arriscariam a batê-las e conseguiriam saber a outra função: voar.

Eu me recuso a pensar no amor como uma tolerância sem fim. O amor é mutação. Ele nasce com a função de nos acalentar, proteger e deixar aquecidos, igualmente as asas para aves, mas sua verdadeira essência - a de fazer voar - só é conhecida por poucos.

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