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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 872 / 2016

24/05/2016 - 08:09:31

Filhos de Iscariotes

CLÁUDIO VIEIRA

O evangelista Mateus narra (26, 1-25), com a singular precisao do historiador, o momento em que Jesus, durante a última ceia com os seus discípulos, profetiza a traição que em breve sofreria e, ignomínia, exatamente por um daqueles homens que o acompanhavam no ágape: Judas Iscariotes.

Quando estudante do Colégio Guido de Fontgalland, aqui em Maceió, éramos estimulados pelo Pe. Teófanes Barros, nosso Diretor, a atividades culturais. Uma dessas atividades era a realização de júris simulados sobre personagens da História. Certa feita o escolhido para réu foi Judas Iscariotes. Não recordo quem atuava na acusação e na defesa, nem mesmo quem eram os jurados. Assim, não posso afirmar se produzi a defesa ou acusei o traidor de Cristo, mas com certeza esses postos teriam sido distribuídos entre Tobias Granja, Edson Alcântara, Joao Azevedo e eu, sempre escolhidos para tais tarefas. A tese de defesa, no entanto, é inolvidável para mim: Judas teria de ser absolvido porque a alegada traição a macular a sua conduta, e que por fim o levara ao enforcamento, lhe fora imposta pelo próprio Deus e, por isso mesmo, independera da sua vontade. Enfim, dolo no agir não poderia ser imputado a Judas, pois o seu ato de traição já estaria inscrito no seu destino pelas mãos Daquele que detém o Poder divino. 

A imagem já me acorrera na sessão da Câmara Federal que decidiu pela veemência dos indícios de crime de responsabilidade praticado pela presidente Dilma e pelo envio do processo de impeachment ao Senado Federal. Foi nessa última Casa que tal recordação atiçou-me a memória. Mesmo não sendo lulista, petista ou dilmista, foi-me enojante constatar os votos de alguns políticos que se haviam beneficiado com os governos Lula e Dilma, locupletando-se de cargos, apropriando-se de recursos públicos sob o conhecimento vicioso dos presidentes petistas, e no final, em flagrante e descarado ato traiçoeiro, optavam pelo voto favorável ao impedimento. Em certos casos, o nojo retroagia ao passado quando certos personagens, outrora perseguidos, atacados e veementemente condenados pelo petismo, à frente o “republicano” e “honesto” Lula, haviam olvidado tudo isso e, por ganância, abraçavam-se aos seus antigos algozes, como se amigos houvessem sido sempre. Poderia, o voto atual pelo impeachment ser até aceito como catarse pessoal, sobressaindo afinal o interesse nacional. Nem isso, todavia, tais personagens poderão arguir em sua defesa, useiros e vezeiros que são de traições, figuras absolutamente inconfiáveis. 

Retornando às memórias do Colégio Guido, se lá poderíamos defender Judas Iscariotes arguindo em seu favor a exigência divino-histórica da sua atuação – sem ela Cristo não seria crucificado e, portanto, não cumpriria o mister de salvar a humanidade - agora, em nossas Casas Legislativas, os traidores são apenas vilões contumazes, pois, tendo traído os seus eleitores e a Nação, traem agora os seus demoníacos “patrões”.  

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