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Edição nº 872 / 2016

19/05/2016 - 20:55:02

Impasse com Eletrobras ameaça emprego de 576 operários

Indústria que alavancou crescimento de Delmiro Gouveia está parada há quase 60 dias por débito de energia elétrica

Vera Alves [email protected]
Fábrica fundada em 1914 está há 60 dias parada

Sem energia elétrica para colocar suas máquinas em funcionamento, a Fábrica da Pedra S/A Fios, Tecidos e Confecções, localizada em Delmiro Gouveia, permanece parada. No próximo dia 1º serão já 60 dias de expectativa para os 576 operários de uma das primeiras indústrias têxteis do Nordeste que no dia 5 de junho completa 102 anos de existência. Pertencente desde 1992 ao Grupo Carlos Lyra, a indústria tenta negociar com a Eletrobras Alagoas um débito de R$ 2 milhões em função do qual teve a energia cortada.

O impasse reside no prazo para parcelamento da dívida. A Eletrobras quer o pagamento em até cinco meses; a indústria afirma não ter condições de desembolsar R$ 400 mil por mês e insiste em um prazo de 36 meses, no máximo 24. Gerente geral da Fábrica da Pedra, Luiz Anhanguera Lessa da Rocha afirma que no atual contexto de crise econômica, é inexplicável que a companhia de energia se mantenha irredutível em aceitar um prazo maior e desabafa: “Qualquer consumidor, mesmo residencial, consegue um parcelamento maior e compatível com sua capacidade de pagamento; queremos pagar o que devemos, mas dentro de condições que possamos cumprir”. 

Enquanto não se chega a um acordo, os operários continuam em férias coletivas. Desde o dia 1º de abril o parque têxtil está inativo. Ainda assim, todos continuam recebendo regularmente seus salários, mas não escondem o temor de a fábrica vir a ser fechada. Esta semana, os trabalhadores foram informados de que devem voltar a se apresentar no dia 7 de julho, ou seja, por pelo mais 30 dias a produção continuará paralisada.

Anhanguera explica que, em se chegando a um acordo com a Eletrobras até o final deste mês de maio, ainda serão necessários ao menos 30 dias para resolver outras pendências, como a revisão do maquinário, um dos mais modernos do país, e a reposição de estoques. “As máquinas não podem funcionar com pouco material sob risco de ocorrer uma pane e comprometer toda a produção”, frisa.

Aos 49 anos de idade, 25 deles dedicados à Fábrica da Pedra, José Cláudio Feitosa é um dos mais de 570 operários que vivem a expectativa dos próximos dias. Casado com uma servidora do município, pai de dois filhos, ele também tem uma irmã trabalhando na tecelagem da fábrica, mesmo setor em que atua. Na quarta, 18, esteve mais uma vez na portaria da empresa e foi informado que deve se apresentar no dia 7 de julho a seus superiores. “A gente se preocupa e espera voltar a trabalhar logo”, diz.

IMPORTÂNCIA HISTÓRICA

A indústria têxtil representada pela Fábrica da Pedra em Delmiro Gouveia já foi a principal atividade econômica do município do Sertão alagoano localizado a 251 km de Maceió e chegou a empregar 10% da população local; hoje este percentual gira em torno de 1%, mas ela continua sendo um das maiores destaques para a economia da região, hoje liderada pela administração municipal, o setor de serviço público e o comércio. 

De acordo com João Edson Barros Viana, assessor Especial e de Comunicação do prefeito Luiz Carlos Costa, o Lula Cabeleira, além da importância econômica da Fábrica da Pedra para o município, há sua importância histórica e cultural. Foi em torno da Cia Agro Fabril Mercantil, o primeiro nome da indústria criada em 1904 pelo cearense Delmiro Augusto da Cruz Nohara Gouveia, pioneiro da industrialização no Brasil e construtor da segunda usina hidrelétrica do país- que a cidade de Delmiro Gouveia, antes Vila da Pedra, se desenvolveu.

Delmiro Gouveia foi assassinado em 1917. Doze anos depois, em 1929, a empresa pernambucana Menezes Irmãos & Cia adquiriu a fábrica de tecidos, cabendo aos irmãos Luiz e Vicente Lacerda de Menezes a dirigirem. Em 1949, Antônio Carlos de Menezes, filho de Vicente, assume a presidência da indústria. Era então um jovem de 27 anos que havia frequentado cursos de fiação e tecelagem nos Estados Unidos. 

Em 1983, aos 61 anos, Antônio Carlos comete suicídio, ato que teria sido provocado pelas inúmeras pressões de odem políticxa e econômica e também pelo seu estado de saúde: a descoberta de um câncer. Conta a história que ele deixou um bilhete no qual pedia às autoridades que não deixassem os operários da fábrica passarem por privações. 

Após novo período de incertezas, a indústria foi adquirida em 1992 pelo Grupo Carlos Lyra, que mudou sua denominação para Fábrica da Pedra S/A, numa homenagem à cidade onde Delmiro Gouveia fez história. O parque industrial foi modernizado e a fábrica alavancou sua produção inclusive no segmento de camisaria, embora seu forte sempre tenha sido  os produtos de cama e mesa destinados inclusive para exportação ao Mercosul.

O QUE DIZ A ELETROBRAS

Procurada pelo EXTRA para falar sobre o impasse, a Eletrobras Alagoas enviou, através de sua Assessoria de Imprensa, a seguinte nota: A Eletrobras Distribuição Alagoas informa que o último contato feito pela Fábrica da Pedra junto à Empresa foi em meados de abril deste ano. Na oportunidade foi reiterada a possibilidade de parcelamento em cinco vezes. A partir de então, a Eletrobras não mais foi procurada pelo cliente. A proposta feita pela direção da Fábrica da Pedra foi considerada inviável pela Eletrobras devido aos valores envolvidos. A atual política da Distribuidora, alinhada à atual conjuntura financeira do setor, restringe parcelamentos para clientes que já tenham se utilizado desse mecanismo recentemente, como é o caso da Fábrica da Pedra.

A Eletrobras reforça que para cada perfil de cliente existe uma negociação adequada, não cabendo, por exemplo, a comparação de um grande consumidor industrial com um residencial.

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