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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 871 / 2016

14/05/2016 - 22:01:21

Jorge Oliveira

Michel, leia o Mestre Graça

Jorge Oliveira

Cascais, Portugal - Graciliano Ramos dizia, com muita propriedade, que a “a arte de escrever é cortar”. Se Temer transportar a sabedoria do escritor para a sua futura administração, certamente começaria o governo sem traumas. Não dá mais para manter uma máquina de governo inchada, sacrificando o contribuinte que paga cada vez mais impostos para sustentar milhares de pessoas em cargos comissionados, além de mais de trinta ministérios aparelhados por partidos políticos de eficiência duvidosa. O escritor alagoano levou ao pé da letra o que alardeava ser um bom texto, enxuto e objetivo como servidor público. Quando esteve à frente da Prefeitura de Palmeira dos Índios deixou para a posteridade o relatório da sua administração que o levou a ser descoberto como um dos maiores escritores brasileiros do Século XX: cortou despesas, acabou com a corrupção, o fisiologismo e enxugou a máquina para governar com eficiência.

Se Temer quiser conhecer de austeridade administrativa não custa nada, nas horas de folga, folhear algumas páginas do livro “Viventes das Alagoas”, onde vai encontrar o relatório que Graciliano enviou para o governo da época falando das suas obras, dos custos e do uso do dinheiro público. Evidentemente que esse conselho não se aplicaria jamais à presidente que sai, confessadamente ignorante e distante das boas leituras. Dilma vai passar para a história – se passar, é claro – como um objeto decorativo de uma presidência da República. Só não será totalmente esquecida porque os livros vão falar dela como uma presidente banida do cargo pelo povo brasileiro.

É, mas vamos ao futuro, porque do presente já não se fala mais. A indecisão de Michel Temer em reduzir o número de ministérios é um vacilo que o povo brasileiro vai cobrar caro. Se ele for realmente atender a todos os políticos fisiológicos e a todos os partidos de aluguel, não precisa ser nenhum expert em política para profetizar que o governo já começa errado. Ao Brasil, com a sua economia em frangalhos, já não se permite deixar que o povo fique em segundo plano numa mudança de governo. 

O novo presidente tem a obrigação de pensar mais nos trabalhadores que tiveram seus salários corroídos pela inflação, pensar nos 12 milhões de desempregados que o PT largou na rua da amargura, pensar no combate à corrupção apoiando a Polícia Federal e o Ministério Público, pensar na educação e na saúde, setores destroçados pela política de aparelhamento petista e pensar mais nessa nova geração que do Brasil só conhece a palavra corrupção. Enfim, Temer precisa, com urgência, se despoluir do fisiologismo partidário para governar olhando para o futuro.

É inadmissível que a máquina pública atravanque o desenvolvimento do país. O Estado não pode ser ele apenas a locomotiva econômica, o único gerador de emprego. O Brasil precisa, isso sim, desburocratizar a administração, incentivar as médias, pequenas e microempresas geradoras de emprego. Abrir as portas para o mercado externo e interno; incentivar os empresários a produzir; reduzir os juros cavalares que sacrificam o trabalhador; taxar os lucros dos bancos que, com a nova tecnologia, deixaram de ser empregadores em alta escala; limpar, limpar mesmo a administração pública acabando com a maioria dos cargos comissionados, extinguindo boa parte dos ministérios; e fiscalizar com seriedade as obras que, infelizmente, ainda estão nas mãos dos empreiteiros envolvidos na Operação Lava Jato.

Movimentos

Michel Temer precisa tomar medidas moralizadoras e saneadoras para devolver a confiança e autoestima à população brasileira. Se não fizer isso logo nos primeiros dias de governo, dará pretexto para os petistas corruptos se mobilizarem e pedirem a sua cabeça, orientando as centrais sindicais à greve e à mobilização popular, porque, de todos os partidos, o PT ainda é o único que tem uma base organizada pelas centrais sindicais, famigeradas organizações de pelegos que vivem às custas do estado.

Lisura

Por isso, doutor Michel, sem querer ser chato, gostaria de sugerir novamente à Vossa Excelência que lesse, sem muito compromisso, o relatório de Graciliano Ramos. Quem sabe se o comportamento dos nossos governantes não teria sido traçado há mais de meio século por um matuto genuíno e genial com as letras lá das bandas de Quebrangulo. Doutor Michel, a solução para os nossos problemas não está no estrangeiro, mas aqui pertinho de nós. É só conhecer mais um pouco a inteligência de alguns dos nossos homens públicos.

Pão oco

Waldir Maranhão, o presidente interino da Câmara, que revogou o impeachment da Dilma, é um pão sem miolo, ou seja, um cérebro oco. É o que se pode deduzir da sua decisão que em menos de 24 horas virou pó e tudo voltou ao que era antes graças à decisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, de não dar importância a um gesto débil de um parlamentar inexpressivo e meio idiotizado. O deputado maranhense foi mordido pela mosca azul desde que o Dino, governador do Maranhão, do PC do B, aliado da Dilma, prometeu que ele teria legenda para se candidatar a senador na sua chapa em 2018. A partir daí, Maranhão jogou no lixo o pouco de convicção que ainda existia na sua cabeça de papel, trocando o voto sim pelo impeachment pelo não.

O poço

Maranhão não está muito longe das atitudes de outro presidente da Câmara, o Severino Cavalcanti.  A diferença é que o deputado pernambucano foi eleito diretamente pelos votos de seus pares. Ao assumir, Severino foi direto ao assunto ao ser perguntado como iria alojar seus eleitores no governo. Sem titubear, tascou: “Vou precisar daquela diretoria da Petrobras, aquela que fura poço”. Esqueceu-se, portanto, que o poço já estava ocupado pelos gangsteres petistas que o secaram quando deram um golpe na empresa de bilhões de dólares. Resultado: Severino foi expulso da Câmara, acusado de receber 10 mil reais de propina de um concessionário de restaurante da Casa. Muito pouco para quem pretendia, com seus aliados, administrar poços de petróleo. 

Iludido pelo Dino, o governador com um dos piores índices de aprovação, Maranhão também foi danoso ao interferir no processo da Comissão de Ética que há seis meses tenta cassar o deputado Eduardo Cunha, seu aliado nas práticas fisiológicas e na Lava Jato. Instruído por Cunha, várias vezes inverteu o processo da comissão para livrar a cara do companheiro nas votações legais. Revestido no cargo de presidente interino da Câmara, como um porra louca, virou massa de manobra da Dilma que pretendia com a sua decisão entrar com um pedido de anulação do impeachment no STF, como se os ministros fossem uns idiotas alienados a seu serviço.

Amebas

Maranhão faz parte de um coletivo no governo com cérebro de ameba, liderado pela Dilma e pelo ministro da AGU, José Eduardo Cardozo. A doença, que virou uma epidemia, ataca assessores próximos à presidente e alguns de seus adeptos que vão às ruas provar que a sua líder ainda é um ser pensante. 

Escola

O deputado foi forjado na escola política do seu estado, na academia sarneyziana. Aquela em que o político ilude a população para se eternizar no poder. Portanto, nada mais natural para um deputado dessa fornalha pensar e agir como um energúmeno. Pouco importa para ele que o seu estado ainda seja um dos mais carentes na área do saneamento básico e o líder em desnutrição infantil entre as crianças de 0 a 5 anos, segundo o Unicef. Maranhão, o deputado, certamente é fruto dessa anomalia. Como se trata de um sobrevivente, aprendeu desde cedo que teria que ir à luta para ganhar espaço e sobrevida. Mas, como demonstra, errou na escolha da profissão que poderia levá-lo ao sucesso. Nos cinco minutos de fama, mostrou-se o mais despreparado e o mais imbecil de todos os deputados que já passaram pelo parlamento brasileiro.

Piada

É difícil participar de reuniões por aqui e ter que explicar aos portugueses o Brasil dos maranhões, dos cunhas, das dilmas, dos lulas, dos dirceus, dos vacaris, dos edinhos, dos bolsonaros, dos cardosos e tantos páreas que giram em torno do poder. O melhor, aqui, é não alongar a conversa para não ser alvo de piadas e gozações. Quando os patrícios souberam que o presidente interino da Câmara havia revogado o impeachment queria entender como, na verdade, funcionavam as instituições no Brasil. E se era possível um deputado, sozinho, tornar sem efeito a decisão da maioria esmagadora do parlamento. A resposta, é claro, estava na ponta da língua:

- Ô Manoel, no Brasil tudo é possível.


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