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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 871 / 2016

14/05/2016 - 22:00:06

Eu sei, é preciso perdoar

Fernando Tenório

Minha avó é meu oráculo, uma mulher que possui muita sabedoria para esse mundo doido vivido por nós. Sempre que tenho alguma dúvida, sobre qualquer tema, recorro aos seus conselhos e quase mantras que me atravessaram desde a infância e nunca fico na mão. Geralmente, a casa dela era o local para descarrego amoroso dos meus amigos, devido à cerveja farta, ao siri na panela e aos comentários pontuais feitos por Dona Nazareth.

Acho que herdei dela a capacidade de ouvir as pessoas. Certo dia, eu escutei um amigo desesperado. O camarada ouviu boatos de que vinha sendo traído. Resmungou para cá, pediu aos céus que aquilo não fosse verdade, mas teve de encarar a realidade e soube de tudo: era traído há dois anos.

A partir daí, começamos uma micareta existencial, visando minimizar as dores do nobre camarada. Carnaval, semana santa e feriados foram sendo bebidos num único gole, embriagando os sentidos e os sentimentos do rapaz. Eu, tentando ajudá-lo, acompanhava-o a esses lugares/viagens que tinham um único objetivo: esquecer Tainá. Parecia que vivíamos intensamente e logo lançaríamos um tutorial de como esquecer um grande amor com múltiplos volumes.

No entanto, essa sensação de domínio de sentimento experimentada por meu camarada foi caindo por terra e a tarefa de fazer sumir tal moça da memória parecia cada dia mais difícil. Cada bebedeira tinha na figura da traidora o fulcro do assunto derradeiro da noite. No meio de maio, meu amigo sumiu. Evitava telefonemas, visitas. Pouco tempo depois, fiquei sabendo do seu retorno para Tainá.

Até aí, tudo bem. Quem sou eu para julgar quem quer que seja?

Num dia de domingo à noite, o camarada apareceu na minha casa se explicando. Minha avó, sábia que só ela, estava lá e ouvia meu amigo dizer:

- Resolvi perdoar. Eu ainda amo a Tainá. Inclusive, eu agora tenho todas as senhas das redes sociais dela. Posso ficar mais seguro.

Voinha resolveu falar:

- Meu filho, quem deseja trair não precisa necessariamente de um celular ou computador. E digo mais: as traições ocorrem mais durante a semana e em horários pouco nobres. O horário de almoço é um clássico.

- A senhora quer me enlouquecer.

- Não, meu filho. O que estou tentando dizer é que o perdão é diferente disso que você pensa. Não é libertar o outro da culpa e assumir com isso a posição do bom lado da história. Não é deixar o outro em desvantagem e te devendo algo. Perdoar não te deixa poderoso. O perdão nos deixa livre.

- E tem como ser diferente? Não ter ciúmes depois do que aconteceu? Ninguém consegue ser assim.

- Eu não sei. Só sei que o perdão de hoje não pode servir como base para a construção de uma ofensa no futuro. Pense bem, querido, pois transformar o erro do outro num atalho para os seus erros nunca será o melhor caminho. Boa noite!

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