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19 de Novembro de 2018

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Edição nº 870 / 2016

08/05/2016 - 18:18:17

Cangaceiros mortos e decapitados em 1938

Autópsia da cabeça de Lampião foi realizada pelo dr. José Lages Filho no necrotério da Santa Casa de Maceió

Edberto Ticianeli Jornalista
Cabeças dos cangaceiros expostas em Santana do Ipanema. Foto do livro Lampião e as Cabeças Cortadas de Antonio Amaury e Luiz Ruben

Com a morte de Lampião e de parte do seu bando na madrugada do dia 28 de julho de 1938, na grota de Angicos, em Sergipe, os cangaceiros foram decapitados e suas cabeças transportadas para Maceió, onde foram necropsiadas.

Antes de chegar à capital, o cortejo macabro de cabeças cortadas parou em várias cidades e vilarejos no trajeto até a capital. As cabeças eram expostas para visitação pública, sempre atraindo multidões. Em Santana do Ipanema, onde as cabeças foram expostas na calçada da igreja, a passagem dos restos mortais ainda hoje é lembrada.

No transporte, as cabeças foram acondicionadas em latões de querosene. Segundo o perito criminal Ailton Vilanova, o guardião das cabeças foi um militar conhecido como Azogado. Foi ele quem pôs sal nas cabeças para mantê-las conservadas durante todo tempo em que foram exibidas como troféus em Alagoas, Sergipe e Bahia.

Em Maceió, as cabeças receberam a visitação pública na praça da Cadeia, em frente ao Quartel da Polícia Militar. Como em todos os lugares, milhares de pessoas ocorreram ao local nos dias 30 e 31 de julho para testemunharem o espetáculo grotesco das cabeças dos cangaceiros em decomposição.

Mesmo quando as cabeças foram levadas para o necrotério da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, às 22 horas do dia 31 de julho, a multidão insistiu em acompanhar de perto os trabalhos dos legistas. Toda a área teve que ser isolada pela polícia diante das ameaças de invasão.

A necropsia ficou a encargo do médico-legista da Polícia, Dr. José Lages Filho, que foi auxiliado por José Aristeu, que acumulava a função de necropsista com a de motorista do veículo que transportava cadáveres, segundo informações de Ailton Vilanova. 

Devido ao péssimo estado de conservação após cinco dias de exposições, somente a cabeça de Lampião pôde ser aproveitada para os estudos científicos.

Sobre a cabeça do Rei do Cangaço, o Dr. José Lages Filho informou que ela havia perdido toda a massa encefálica em virtude das extensas e múltiplas perda de material ósseo. Isso impossibilitava os estudos sobre possíveis anomalias cerebrais do cangaceiro.

Sobre o estudo antropológico, necessário para identificar o criminoso nato segundo as teorias de Lombroso — muito em voga na época —, o legista disse que os únicos sinais de degenerescência eram a assimetria das orelhas, microdontia e a forma ogival da abóbada palatina.

Para Lampião ser um criminoso nato faltavam, ainda segundo o legista, os indícios de pragmatismo maxilar, deformações cranianas e outras características do perfil da Escola Lombrosiana.

A conclusão do laudo foi: “Todavia, nem por isso os dados anatômicos e antropométricos assinalados perdem sua valia pelas sugestões que oferecem na apreciação da natureza delinquencial do famoso cangaceiro nordestino. – (a.) Dr. José Lages Filho, médico-legista da Polícia”.

Estes estudos eram tão importantes na época, que o governo de Alagoas recebeu um pedido do professor F. A. Nóbrega, de Curitiba, que pretendia enviar as cabeças dos cangaceiros para estudos no Instituto Guilherme II em Berlim. O governo negou.

Depois dos estudos em Maceió, os restos mortais dos cangaceiros foram levados para Salvador, Bahia, onde ficaram expostos do Museu Antropológico Estácio de Lima, localizado no prédio do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues.

Foi Dadá, companheira de Corisco — que passou a viver em Salvador —, quem iniciou um movimento exigindo o fim da exposição das cabeças, invocando o cumprimento da legislação que assegura o respeito aos mortos. Somente no dia 6 de fevereiro de 1969, durante o governo de Luiz Viana Filho, foi que os restos mortais dos cangaceiros puderam ser inumados definitivamente. 

Para preservar a memória e os estudos realizados, o Museu Antropológico Estácio de Lima fez réplicas das cabeças, que hoje estão expostas em substituição as verdadeiras.

Fonte: Livro Bandoleiros das Catingas, de Melchiades da Rocha, com informações do perito Ailton Vilanova.

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