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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 864 / 2016

25/03/2016 - 10:32:44

José Otávio Moreira / Medeiros Neto

“Há homens aos quais se deve tratar com respeito. Ao aproximar-se deles, parece descobrir-se no semblante uma variedade aprimorada da espécie comum. São homens que recapitulam e somam as qualidades humanas. Se não são homens superiores, pela ciência e pela cultura, demonstram a sua grandeza pelo critério e caracteres. Qualificam-se pela sensatez, pela sobriedade, pela segurança, pela autenticidade e pelo bom senso. Conheci em 1941, pela primeira vez, o já então conhecido coronel José Otávio Moreira. Impressionei-me com a sua presença. Iniciava-me na política, com a chegada e posse do major Ismar de Góis Monteiro na interventoria federal do Estado. Já em 1942, quando assumi o cargo de Diretor Geral da Educação, substituindo o professor Dr. Théo Brandão, passei a freqüentar a cidade de Capela, onde a sua ação catalítica era o sinal de domínio.

Em 1945, quando da formação do Partido Social Democrático, figurou o coronel José Otávio Moreira nos quadros pessedistas, passando a ser o nosso correligionário. Tinha ele muito do espírito e vocação do pessedismo, emergente. Falava pouco, pensava muito e decidia certo. Aparentemente rígido e hermético, tinha no coração paradoxalmente encarnado um feixe de contradições ao orgulho, ao egoísmo, à vaidade e ao desumano. Foi um homem bom e tornou-se um bem comum deste Estado. Todos os que o conheciam, procuravam guardar-lhe a estima, com maior apreço. Nas suas atividades industriais soube como poucos superar as crises sem mergulhar no abismo ou no caos. Ele e Cícero Toledo, mesmo dentro das questiúnculas municipais, passaram a ser dois padrões de virtudes morais e cívicas. No município de Capela, onde preponderou à luta entre pessedistas e udenistas, sempre houve um homem polarizador, centro de gravidade, senão denominador comum, que foi o dono da Usina João de Deus.

Mantinha o município em suas mãos, sem tirá-lo ambiciosamente da mão dos outros. As famílias, ali entrelaçadas pelo sangue ou pela afinidade, nunca chegavam ao frontalismo da política de vinganças e prepotências. Ninguém se julgava capaz de desmoronar aquele ambiente de mútuo respeito. Quando o coronel José Otávio se ligou mais estreitamente ao Palácio de Floriano Peixoto, teve em mira salvar os alicerces da construção pessedista. Foi candidato a senador, porém, o momento hostil, então dominante, lhe não permitiu vencer o pleito. Depois disso, procurou ilhar-se nos canaviais, que continuam cercando a mordomia da sua usina principal. Viveu os últimos 20 anos, como o solitário dos campos que fertilizou, transformando-os em celeiros da indústria do açúcar.

Foi, sem dúvida, um cérebro de administrador. Os seus negócios revestiam-se da seriedade das contas sem manchas ou mazelas. Criou filhos e netos para o sucederem, se assim o quiserem. Nunca é fácil uma sucessão sem atropelos, ou uma mudança sem alterna tivas. Mas, quem não crê no valor da herança espiritual que prepondera sempre sobre a alma da maioria dos descendentes? O pranteado comendador José Otávio Moreira, último dos coronéis da Casa Grande, sem senzala, deverá perenizar-se na sua tarefa de reconstrução econômica do Estado. Os filósofos condenam as riquezas, porém, os homens públicos as aplaudem, quando criadas como fortunas lícitas, sérias e justas. O ouro — já dizia alguém — é o sangue do corpo social. Sem ele, lamentavelmente, nada se constrói de material. As riquezas, assim como a glória e a saúde, têm o valor de quem às formou.

Para a alma do coronel José Otávio Moreira, a riqueza lhe não será obstáculo para entrar no reino dos céus, onde desfrutará de uma eternidade feliz.”

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