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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 864 / 2016

25/03/2016 - 10:31:37

Eu era menino pobre...

Alari Romariz Torres

Nasci no interior de Pernambuco, fruto de uma família numerosa. Meu pai foi embora para São Paulo, deixando minha mãe criando vários filhos sem ajuda do marido. Num certo momento, nós resolvemos procurar nosso pai e lá o encontramos com outra família. Fui, então, criado na periferia da grande cidade.

     Cresci e trabalhei na indústria paulista, onde perdi um dedo da mão; virei sindicalista. Inteligente, de palavra fácil, fui sendo notado e cheguei a ser Deputado Federal. Candidatei-me à Presidência da República várias vezes, e, por fim, cheguei ao posto público mais alto do país.

    Senti que os brasileiros, principalmente os mais pobres, votaram em mim. Enchi o peito de orgulho e pensei: serei o melhor Presidente que meu Brasil já teve; vou governar para todos, mas darei prioridade aos mais necessitados.

    E investi nos programas sociais, criados no governo anterior. Mudei o nome deles e melhorei a vida de muita gente.

     Realizei um bom primeiro governo, entretanto, as armadilhas foram aparecendo e a vaidade falou mais alto. As grandes empresas chegaram perto e eu, pobre garoto, não percebi, caindo em tentação. Junto comigo, fui levando a família para certas negociações, me conduzindo à falta de credibilidade perante meus eleitores.

     Consegui entregar o Brasil à companheira Dilma. Mas, aí, o caminho da corrupção havia crescido muito. Virei conferencista fantasma; criei o Instituto Lula, viajei pelo Brasil e pelo exterior recebendo pelas “conferências” proferidas mais do que Bill Clinton, ex-Presidente dos Estados Unidos.

     Meus filhos foram ficando ricos, diferentes. A Justiça, então, começou a desconfiar de enriquecimentos tão rápidos. E foi investigar a vida do sindicalista. Grande surpresa! Muita água tinha rolado por debaixo da ponte! Hoje, ex-Presidente, sofro muito tentando escapar das armadilhas em que caí. E, apesar de tudo, tenho pena de mim mesmo: pessoa de origem humilde, poderia ter feito excelentes governos. É a velha estória do dinheiro e do poder. Creio que os leitores já a conhecem!

     Voltando à pele da “Velhinha das Alagoas”, chego ao meu pequenino Estado. 

     Conheço um Senador que foi bedel em um colégio; Vereador, Deputado Estadual, Federal,  hoje se encontra investigado pela “Lava--jato”, já estando com parte de seus bens bloqueados. Sinto até pena! Era um homem bom e poderia ter escolhido um caminho mais leve.

     Dentre os deputados alagoanos, poucos tiveram origem humilde. Quase todos entraram num sistema político viciado e se perderam pelas estradas da vida. O Legislativo alagoano vive envolvido em escândalos, sempre causados pelo desvio de verbas públicas. Aqueles não aderentes às propinas, aos métodos escusos de fazer política, não se reelegem. São parlamentares de um mandato só.

     O atual Governador de Alagoas já nasceu vendo o pai ser eleito para cargos de alta relevância. O avô, sim, ex-Prefeito de Murici, era um homem pobre, que lutou conta as oligarquias da zona da mata. Pequena cidade, perto de Maceió, é atualmente reduto quase fechado dos Calheiros. E ai de quem não for da linha de Renan e Cia! Vai amargurar na oposição e ficará na lista negra estadual.

     Nosso prefeito, um moço jovem, filho de Guilherme Palmeira, não pode dizer que sua origem é humilde. Foi criado dentro da política, pois o avô foi Senador da República e o pai exerceu vários cargos públicos: de Deputado Estadual a Ministro do Tribunal de Contas da União. O Rui Palmeira só cairá na mira da Polícia Federal e da Justiça se quiser. Nada é novo para ele: nasceu e conviveu antes da Prefeitura, em dois mandatos eletivos dentro do atual sistema.

     Vejam bem, meus amigos: o menino pobre do interior de Pernambuco deixou-se levar pelas armadilhas do poder e do dinheiro; pode ser preso a qualquer momento. Os outros políticos, de classe média, nascidos dentro do corroído sistema eleitoral, não estão livres de serem surpreendidos pelas investigações que perseguem o caminho do dinheiro público.

     Não basta ser pobre na política de nosso país. É preciso reagir às tentações. 

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