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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 860 / 2016

27/02/2016 - 10:08:03

Sobram chefs. Faltam cozinheiros (II)

Jânio Fernandes

Dizem que todo brasileiro é um técnico de futebol. Frase clichê, você diria. Mas raramente vemos um menino dizer que sonha ser técnico. O que todos querem realmente é ser craque como o Neymar. Mas essa história de que o Brasil é o país do futebol está ameaçada. E nem sei se é realmente vantajoso para nós ser o país do futebol. Certamente o nosso potencial não se limita às quatro linhas, embora tenhamos atletas que são verdadeiros gênios em campo. Ninguém tem dúvida de que nomes como Pelé, Garrincha, Zico e Marta inspiram muitos meninos e meninas.

Mas temos um novo fenômeno inspirando a cabeça de muitas crianças. Um fenômeno não apenas novo mas também inusitado. Nossas crianças agora sonham ser chefs. Mas espera aí, de onde vem isso? Os chefes não ficam milionários, não ganham salários de astros do futebol. Então precisamos pensar sobre o que a televisão não contou para estas crianças quando seus reality shows de gastronomia tentam dizer para elas que ser chef é fácil. Quando às vezes pensar que dirigir a cozinha de um restaurante é igual a participar de um programa de tevê, onde tudo parece bonito, mágico e simples. 

A rotina de trabalho de um cozinheiro é tão dura quanto a de jogador de futebol, que para ter uma boa formação e se destacar precisa de muito treino, exercícios pesados, preparação, algumas lesões e, se você tiver sorte, jogar. Nos programas televisivos ninguém mostra os sacos de batatas, os quilos de cebolas, a quantidade de ações repetitivas e monótonas que se realizam em uma cozinha todos os dias ou as horas que ficam por trás de um sonho que para ser realizado, como no mundo do futebol, está disponível apenas para alguns. 

Ninguém fala também da pressão na cozinha, que é proporcional ao sucesso do restaurante e ao número de clientes. Ninguém fala da má educação que poderá ter da equipe com a qual irá trabalhar. Os programas não mostram a estrutura quase militar a ser mantida numa cozinha para que ela funcione como um relógio. Nem dos gritos decorrentes desse processo. Sem contar que precisa ser muito forte mentalmente para se manter em pé quando as comandas se acumulam e a cabeça esquenta como uma frigideira. Uma cozinha não é um como num programa de tevê nem como nos contos de fadas, dos livros lidos para estas crianças.

Tudo isto faz com que o trabalho de cozinheiro seja um dos mais sacrificados no mundo. E também o mais ingrato, já que há pouca gente que valoriza todo o esforço feito por trás da porta da cozinha de um restaurante. Principalmente nos locais mais humildes. Aliás, a maioria dos chefes e cozinheiros não trabalha em grandes casas, nem em restaurantes famosos e badalados.

Por favor, senhores da TV e professores de escolas de cozinha, ensinem a seus telespectadores e alunos a serem cozinheiros. Se eles aprenderem a valorizar o próprio esforço, conhecerem os sacrifícios, sofrerem e lutar pelos seus sonhos, quem sabe um dia alguns deles se tornem chefes de cozinha. Eles terão sucesso, embora sem o aplauso da torcida. Porque o aplauso e fama não fazem parte do dia a dia da profissão. E quando “trocarem de clube” nem serão recebidos pela imprensa para entrevistas coletivas. Eles apenas serão grandes homens e mulheres que sabiam o tamanho do seu sonho. No Brasil sobram craques, mas faltam cozinheiros.

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