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Edição nº 860 / 2016

27/02/2016 - 10:06:03

E lá se vão 60 anos...

Alari Romariz

Em março de 1956, cerca de duzentos jovens, de 15 a 17 anos, ingressaram no Exército Brasileiro através das Escolas Preparatórias de Cadetes de Fortaleza, São Paulo e Porto Alegre.

Depois de três anos de estudo foram para a Academia Militar das Agulhas Negras e fizeram o curso superior. Naquela época não havia tantas faculdades como existe hoje. Os jovens faziam Engenharia, Medicina, Economia, Serviço Social, Odontologia ou faziam concurso para o Banco do Brasil, Caixa Econômica, Banco do Nordeste ou iam para as escolas militares. 

 Meninos novos, de 21 a 25 anos, saíam aspirantes e iam para diversos estados do Brasil, dependendo, é claro, de sua classificação.

Um dos primeiros pensamentos do aspirante era casar com a namoradinha antiga que o aguardava pacientemente em sua cidade. Outros casavam com moças do lugar para onde foram classificados e depois residiam em várias cidades. Daí dizermos que os filhos de militares não tinham sotaque específico, pois moravam em várias regiões do país.

As famílias iam se formando e fazendo amigos por onde passavam. Os casais que privavam da nossa amizade eram “tios” para nossos filhos.

Viver longe de casa proporcionava aos militares e família grandes lições e  amigos irmãos. Tornava-se necessário que se socorressem mutuamente nas pequenas e grandes cidades.

     Em 1966, eu e meu marido, sofremos um acidente de carro, indo para o Rio de Janeiro. Morávamos no bairro da Tijuca, num edifício civil. Chegamos em casa no meio da manhã num estado lamentável. O pátio estava cheio de mães e filhos que conviviam conosco diariamente. Para surpresa nossa não recebemos uma única visita dos vizinhos, mas os amigos militares foram generosos demais. Após uma semana, desci ao pátio com meus dois filhos pequenos e reclamei da falta de atenção. Uma das jovens mães respondeu: “Não queríamos incomodar”.

Em 1972, voltamos ao Rio para Rubião fazer EsAO (mestrado no Exército) e lá fizemos mais amigos: gaúchos, cearenses, mineiros, alagoanos, pernambucanos, cariocas; formavam uma só família. Muito interessante o grau de cooperação reinante entre nós. Dia de feira era uma festa: quem não dirigia ou não tinha carro, ia de carona com a vizinha mais próxima. As crianças andavam de bicicleta pelas ruas do enorme condomínio militar. Uma beleza!

Como nem tudo são flores, havia os casais chatinhos, importantes, que se achavam diferentes. Mas nem ligávamos e fazíamos de conta que eles nem existiam. Ninguém é melhor do que ninguém e só temos um lugar certo: o cemitério.

Em 1979 (ano em que perdi meu pai), voltamos ao Rio, na Praia Vermelha; curso de Estado-Maior. Dois anos maravilhosos, vendo o bondinho do Pão de Açúcar passar o dia inteiro ao lado da janela. Nossos adolescentes já fazendo o ginásio ou científico e os pais trabalhando para pagar caríssimo nos colégios particulares da Cidade Maravilhosa. E mais amigos conquistamos.

Tive uma grande alegria quando minha filha mais velha foi madrinha de casamento do filho de um grande amigo nosso. Chorava durante o casório e pensava: Deus é bom demais conosco! Plantamos e colhemos.

Nos dias 3, 4 e 5 demarço haverá em Fortaleza uma linda festa para comemorar os 60 anos de ingresso da turma na Escola Preparatória de Cadetes;  lá estarão cerca de 40 casais, filhos e netos. Hoje, os jovens de 1956 são homens maduros de 75 a 80 anos. Uns já se foram para a morada eterna, outros, apesar das caixinhas de remédios, estão vivos e participarão do encontro de alegrias e recordações. As turmas de São Paulo e Porto Alegre também vão se reunir.

Agradeceremos a Deus, assistindo à missa, pela oportunidade que deu aos jovens cadetes que viraram velhos oficiais de, juntamente com suas famílias, poderem ir ao Ceará contar estórias de filhos e netos. E as conversas são assim: “Fulano, tenho uma neta no ITA”, ou “Meu filho é médico, faz uma bela carreira”.

Depois de 60 anos, todos eles vão falar de suas vidas sem ter vergonha do que praticaram, nem se assustarem com a Polícia Federal em suas portas.

Deus existe! Não duvidem!

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