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13 de Novembro de 2018

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Edição nº 860 / 2016

27/02/2016 - 09:40:12

Relatos de um “quase náufrago”

Uma narrativa do jornalista Pedro Oliveira sobre a experiência de enfrentar uma tempestade com vigor de furacão no Oceano Atlântico

Pedro Oliveira jornalista
O suntuoso navio Anthem Of The Seas

Era o dia primeiro de fevereiro quando tomamos o avião em Maceió com destino a Nova York para curtirmos nossas férias em família. No roteiro um Cruzeiro a partir dia 6, com duração de uma semana, a bordo de um dos três mais modernos e maiores navios de passageiros do mundo – o Anthem Of The Seas – da Royal Caribbean, visitando vários portos e cidades americanas. Após alguns dias na cidade embarcamos no sábado (6) no gigantesco navio que me impressionou pela sua suntuosidade. Concluído o embarque dos mais de quatro mil passageiros foi autorizada a partida. Durante todo o dia, juntamente com minha família (Meg (esposa), Maíra (filha) e Luísa (neta de três anos) conhecemos e desfrutamos dos múltiplos e luxuosos espaços da embarcação. Após o dia inteiro de navegação e diversão jantamos em um dos vários e luxuosos restaurantes e em seguida nas recolhemos a nossas cabines. No domingo (7) ao acordar senti-me nauseado e percebi que o navio estava “balançando” muito. Passamos toda a manhã com esse desconforto e também percebendo o mar muito agitado. “Marinheiro de primeira viagem”  acreditei ser normal aquela situação e após o almoço voltamos às nossas cabines para um descanso. Foi a partir daí que a coisa pegou de verdade.

A agitação da embarcação ganhou proporções assustadoras e veio a ordem expressa do comandante para que “todos permanecessem rigorosamente em suas cabines, diante do registro de uma tempestade ocasional”. A partir daí foram mais de 14 horas confinados, sem alimentação, com informações distorcidas e se percebendo, claramente a insegurança do comandante e da tripulação através do sistema de televisão interno que mostrava a localização, imagens internas e a narrativa nervosa do capitão. Segundo se apurou depois o navio que estava a caminho da Flórida  foi surpreendido pela forte tempestade equivalente a um furacão de intensidade dois. O surpreendente para um navio tão moderno e uma tecnologia de previsão meteorológica tão avançada é a informação inaceitável de que “a tempestade não estava prevista durante a última semana, o que pegou o comandante da embarcação da Royal Caribbean de surpresa”. Existe a informação de que a tempestade estava prevista sim, mas em proporções menores. Havia a recomendação, não confirmada, para que o navio permanecesse 48 horas no porto para partir com segurança, mas isto acarretaria prejuízos ao manter 4.180 pessoas, além da tripulação por dois dias a mais do planejado para o cruzeiro.  

Enquanto isto permanecíamos em nossas cabines como que “assistindo a um filme de terror” ou o naufrágio do Titanic. O navio tombando de um lado para o outro, nada se mantendo em seu lugar, copos e pratos sendo quebrados, móveis e malas arrastados ao ritmo da inclinação que se acentuava. Diante de tamanho desespero o que fazer? Rezar e receber grande número de solidariedade de amigos que acompanhavam nosso drama pelas redes sociais. 

Mesmo contrariando as ordens do comandante alguns passageiros, com medo, se dirigiram aos pontos de reunião conhecidas também como “Muster Station”, local onde os passageiros devem se dirigir em caso de uma evacuação e que nos foi mostrado em uma simulação nas primeiras horas no navio.

Durante o pico da tempestade/furacão os ventos chegaram a uma intensidade de 241 KM/H, muitos danos materiais causados a bordo, vários andares inundados. Segundo informações  ninguém ficou ferido, mas muitas pessoas, principalmente idosos, tiveram que ser atendidas pela equipe médica de emergência.  

O navio que partiu no dia 6 e deveria retornar depois de um cruzeiro de 7 noites cancelou a viagem retornando ao porto de embarque. A companhia anunciou que irá ressarcir totalmente o valor pago pelos passageiros que também poderão usufruir de 50% de desconto em um futuro cruzeiro.

O aspecto financeiro é irrelevante diante de situação que todos viveram, supostamente por irresponsabilidade de alguém. Ficou registrado o trauma, o efeito psicológico de uma tragédia que por pouco não aconteceu. Ainda hoje, algumas noites tenho acordado assustado como se revivendo aqueles momentos de terror, o que deve acontecer com muitos dos que passaram pelo acontecimento. 

Ainda bem que estou podendo contar esta história que muitos pediram que o fizesse. A história de um “quase náufrago” da Royal Caribbean.

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