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17 de Novembro de 2018

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Edição nº 859 / 2016

23/02/2016 - 18:21:43

Quando a teoria se sobrepõe à prática

vítima de doença degenerativa - Mal de Parkson - José Marques de Melo, alagoano de Santana do Ipanema, teM uma trajetória de herói nacional

Reinaldo Cabral Especial para o EXTRA
José Marques de Melo

Quem imaginaria que o professor José Marques de Melo na sua última visita a Maceió, em dezembro passado, estivesse praticamente se despedindo da vida?

Calma: ele ainda está em São Paulo, onde passa seus últimos dias em profunda depressão, vítima de uma doença degenerativa, o Mal de Parkson.

José Marques de Melo, alagoano de Santana do Ipanema, teve uma trajetória de herói nacional.

Está terminando os seus dias como um dos principais teóricos mundiais da comunicação social, podendo ser comparado, sem favor algum, a Herbert Schiller, George Gerbnet (EUA), Bernard Miège (França) e Alberto Dines (Brasil), quatro dos principais comunicólogos do planeta ainda vivos.

Com ele, a mídia impressa mundial está acabando, sendo substituída pela mídia virtual.

Esta entrevista com ele ocorreu num momento delicado quando esteve em Maceió entre 29 de setembro e 20 de outubro do ano passado. 

RC - Quem é José Marques de Melo?

JMM- José Marques de Melo é um sertanejo alagoano que guarda na memória cenas da vida cotidiana enraizadas na personalidade do trabalhador intelectual que veio a ser na idade adulta. Quando começou a ler as novelas de Graciliano Ramos, os romances de Adalberon Cavalcanti Lins ou os contos de Breno Accioli, foi percebendo a semelhança de personagens e cenários daqueles escritores com as recordações de sua “infância”.

As “vidas secas” persistentes no meio ambiente calcinado por estiagens cíclicas nos confins daquela “terra espinhosa” (como descreveu Graciliano Ramos) provocaram a “insônia” que induziu os donos do poder nativo a lançar a “Operação Nordeste” (Celso Furtado). Esta foi insuficiente para aplacar a “angústia” dos sócios internacionais, que patrocinaram a “Aliança para o Progresso” (Nelson Rockfeller), temerosos da “cubanização” dos “retirantes” que engrossavam as correntes famélicas, nutrindo o estereótipo alagoano da “terra de emigração” (como J. Silveira Camerino preferiu registrar em sua peculiar Geografia de Alagoas). Essa literatura o induziu, muito cedo, a tomar consciência das escassas perspectivas existentes na região, aguçadas pelo golpe de 1964, que o converteu em emigrante natural. Acolhido pelo gueto caeté na terra dos bandeirantes, logo perdeu a ilusão de retornar no “próximo inverno”. O instinto de sobrevivência o induziu a integrar-se à colônia nordestina e com o passar do tempo a aculturar-se à vida paulistana.

Assim sendo, posso afirmar: JMM é um cidadão que faz parte da diáspora alagoana na cidade de São Paulo, onde fincou raízes. Mesmo compartilhando o cotidiano de filhos e netos, parentes e aderentes, nunca esqueceu suas origens. Por isso mesmo, retorna às Alagoas, sempre que a saudade aperta o coração. Retemperando a identidade luso-batavo-fulniô, desfruta cores, sabores e aromas, degusta paisagens e ambientes que correm o perigo de fenecer nas lembranças matutinas ou nos devaneios vespertinos. Mas nunca desaparecer das evocações oníricas que alimentam a esperança no porvir, constituindo a própria razão de viver.

RC – A história da sua vida parece um filme de Fellini e Pasolini com um roteiro de Kafka. Comente.

JMM – Como pertenço culturalmente a uma geração pós-aristotélica, nutrida em símbolos nativos que articulam a erudição verbal da retórica romana (Cícero e Quintiliano) e a simplificação cognitiva dos enciclopedistas franceses (Diderot e D`Alembert), confesso que ainda permaneço vacilante entre a civilização impressa e o fantástico espaço audiovisual, sem dizer Goodbye Gutenberg!. Isso esclarece a dificuldade de transpor minha história de vida para os universos fílmicos de Fellini ou Pasolini, mediados pelo roteirista Kafka.

Como disse em outras ocasiões, considero-me um intelectual cujo itinerário foi determinado por contingências históricas – ou pelas “circunstâncias” (Ortega y Gasset). Embora tenha sido educado no catecismo humanista dos pensadores cristãos, particularmente dos filósofos católicos do pós-guerra, fui introduzido ao pensamento marxista, refugando a ortodoxia leninista e outras do mesmo tipo. Interessei-me particularmente pelo existencialismo sartreano e pelo marxismo ocidental de Gramsci, sem esquecer os exegetas do neo-marxismo latino-americano. Entre eles, o argentino José Ingenieros, autor do bestseller “O Homem Medíocre”, cuja ideia-força “querer é poder” seduziu minha geração. Na contramão, perfilava o apocalíptico Gustavo Corção, vociferando suas “lições do abismo”. Pesando prós e contras, fui empurrando com a barriga minhas decisões cruciais. Em outras palavras: nunca agendei tempo suficiente para planejar minha vida. Procurei, contudo, ser fiel às minhas utopias, enfrentando trancos e barrancos. Ultimamente, sofrendo de mal incurável, tento manter o bom humor. Adoto a “filosofia” do compositor popular Zeca Pagodinho: “deixo a vida me levar...”. Não será a mesma filosofia que Fellini difundiu na película “I la nave va...” ?

RC – O senhor esteve na boca do furacão mais de três vezes entre 1968 e 1978 e conseguiu livrar-se de uma prisão. Qual foi o mistério e seus momentos mais marcantes?

JMM – Mistério? Nenhum. Fui preso em 1964, por ter colaborado com o governo deposto pelos golpistas. O jovem Arraes fez uma revolução social, aplicando a legislação trabalhista ao campo. Criou alternativas de consumo dos bens de primeira necessidade aos trabalhadores rurais. Quis libertá-los do monopólio ancestral mantido pelo barracão dos canavieiros.

Interrogado no DOPS pernambucano, fui liberado da clausura, mas continuei vigiado, acuado, intimado a depor nos IPMs do movimento estudantil. Amedrontado, decidi emigrar.

Tive participação ativa na política estudantil, testemunhando e participando de episódios históricos. O mais relevante foi a visita da médica argentina Célia Guevara, mãe do então ministro cubano de Economia, Ernesto Che Guevara, ao Nordeste. Sua anfitriã era a nutricionista Naide Teodósio, que agendou uma conferência da colega visitante, a pedido do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, com o apoio tácito da União dos Estudantes de Pernambuco.

Ao receber a conferencista no saguão da escola, os dirigentes dos órgãos estudantis – Antônio Carneiro Leão e Marco Antonio Maciel – foram informados que o diretor Soriano Neto proibira o ato. Revoltados com a decisão arbitrária, os estudantes decidiram realizar a conferência numa sala de aula.

Quando começou a saudar os estudantes, a conferencista foi surpreendida pela escuridão resultante do corte da energia elétrica, determinada pelo diretor. Imediatamente os alunos providenciaram velas, compradas numa mercearia das redondezas, iluminando o salão. Quando terminou o ato, os estudantes fizeram uma assembleia decidindo ocupar o edifício até que fossem dadas garantias de que as lideranças não seriam punidas por insubordinação.

Esta foi provavelmente a primeira ocupação de faculdade no país. A ocupação durou muitos dias até que o presidente Jânio Quadros designou o então coronel Arthur da Costa e Silva para atuar como mediador. Os estudantes exigiram que a negociação fosse feita na faculdade, cercada pelas tropas do IV Exército.

Para não enfraquecer a autoridade federal, o diretor foi promovido para um cargo superior na Reitoria; as tropas militares foram retiradas e o coronel Costa e Silva recebeu as chaves da faculdade, depois da vistoria feita pelos funcionários e da constatação de que nenhum dano fora cometido pelos ocupantes.

Lembro que, no dia seguinte à ocupação, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um editorial com o título: “Pavio aceso”. Não demorou muito e alguns dias depois, o cheiro de pólvora inundou o país, com a renúncia de Jânio Quadros.

Anos à frente, o coronel Costa e Silva foi promovido a general. Concluiu sua carreira como marechal no exercício da Presidência da República.

Depois desse episódio, permaneci engajado no movimento juvenil. Mas logo me decepcionei com os meandros dos grupos em torno das quais gravitei meteoricamente: a cruzada eucarística infantil, a juventude estudantil católica, a mocidade evangélica e a juventude comunista.

Insatisfeito com a aplicação distorcida dos princípios democráticos, favorecendo sempre os mais espertos, resolvi mudar de rumo.

Pouco antes do golpe, decidira me afastar da militância estudantil e recuperar o tempo perdido.

Como pretendia fazer carreira no Jornalismo, adquiri consciência da impossibilidade de fazer jornalismo atuando na política partidária ao mesmo tempo.

Desde então, mantive distância da política militante, intervindo na política como cidadão, mas sem qualquer envolvimento com as organizações clandestinas. Apesar disso, nunca me livrei da vigilância dos meganhas.

Agora que os arquivos do DOPS foram liberados para conhecimento dos interessados, fiquei impressionado com a vigilância policial sobre as minhas atividades. Produziam relatórios quase diariamente, anotando o que fazia, para onde ia, com quem andava, o que dizia.

Comecei a abandonar o Nordeste em 1965, quando ganhei uma bolsa da Unesco para fazer pós-graduação no Ciespal, o Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina. Voltei ao Recife decidido a migrar para São Paulo, o que se deu em 1966, quando fiz concurso para o corpo docente fundador da Escola de Comunicações Culturais da Universidade de São Paulo.

No ano seguinte fui nomeado diretor do Departamento de Jornalismo, por ser o mais titulado, dentre os meus colegas. Permaneci nessa função até 1972.

Denunciado como subversivo, fui sumariamente afastado da chefia do Departamento de Jornalismo e enquadrado no Decreto 477.

Enfrentei um processo kafkiano, que culminou com a minha demissão arbitrária em 1974. O ato foi assinado pelo reitor da USP, mas a ordem veio do Quartel-General do II Exército, mandando demitir sumariamente 10 professores.

Ordenada pelo general Edinardo d`Avila, o comandante do II Exército, foi parte de uma trama da linha dura para desestabilizar o governo Geisel. Mas este agiu rapidamente, demitindo, logo a seguir, o general Ednardo. O cerco foi completado em Brasília, com a demissão de Silvio Frota, o chefão da linha dura.

Considero-me o vilão dessa trama, pois o processo a que fui submetido na USP, em 1972, resultara na minha absolvição pelo general Jarbas Passarinho. Aconselhado a sair do país por algum tempo, candidatei-me a uma bolsa de pós-doutorado da Fapesp, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Quando retornei, em 1974, com o projeto de implantação do programa de Pós-Graduação em Jornalismo na USP, fui surpreendido com a publicação do ato sumário do reitor Orlando Paiva, cancelando meu contrato de trabalho com a USP.

A punição de cinco anos fora do sistema público, também chamada de “cassação branca”, permaneceu vigente até 1979, quando “amparado” pela lei da anistia de 1979, a USP me abriu, não a porta da frente, mas uma janela lateral, permitindo meu retorno à instituição, para cumprir um contrato em tempo parcial.

Pressionado por amigos e colegas, requeri a anistia que me era devida pela nova lei da era Lula-Dilma, ampliando o prazo para processar os requerimentos das pessoas que tinham direitos adquiridos. Meu processo tramitou regularmente até que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, na sessão de 13 de julho de 2015, aprovou por unanimidade o voto do relator, momento em que o seu presidente me pediu desculpas, em nome do Estado Brasileiro, pelos sofrimentos que padeci, juntamente com minha família. Essa decisão finalmente foi homologada pelo ministro da Justiça em ato publicado no Diário Oficial da União de 22 de agosto de 2015.

RC- O Brasil real das desigualdades sociais da primeira metade do século XX é o mesmo Brasil urbano deste século com os mesmos paradoxos sociais. O que interferiu e conspirou para isso?

JMM – Os dois Brasis são completamente diferentes, embora persistam os paradoxos das desigualdades sociais.

O Brasil do início do século XX é fruto da revolução industrial, causadora da concentração das unidades produtivas no litoral e da importação da mão de obra ociosa na Europa para substituir a mão de obra afro-descendente que a Lei Áurea libertou cruelmente, abandonando-a à própria sorte, sem indenização ou recompensa. Deu-se então o êxodo rural e a favelização das grandes cidades.

O fenômeno voltou a repetir-se no século passado; a mecanização da lavoura deixou ociosa a população rurícola, agravando a marginalidade urbana. Desqualificada para operar os equipamentos agrícolas e tampouco reciclada para disputar os novos empregos gerados pela modernidade urbana. O maior problema do Brasil sempre foi o descaso educacional, que inviabiliza a redução das desigualdades sociais. Hoje, como dantes, no quartel de Abrantes, os 10% mais ricos concentram 54% da renda nacional.

RC- O senhor tinha tudo para ter produzido uma das maiores obras do jornalismo, da sociologia e da antropologia do Brasil do século XX. O que lhe atrapalhou?

JMM - Francamente, nunca pretendi ser bam-bam-bam. Sempre tive consciência de labutar num campo desprovido de reconhecimento acadêmico.

Modéstia à parte, meu livro de estreia Comunicação Social: Teoria e Pesquisa (Petrópolis, Vozes, 1970) foi um best seller adotado em todo o país. Alcançou seis edições sucessivas, vendendo cerca de 20.000 exemplares. Meu livro seguinte, Estudos de Jornalismo Comparado (São Paulo, Pioneira, 1972), foi lançado com uma tiragem de 9.000. Mas nem por isso me dediquei a escrever livros de impacto que repercutissem no mercado acadêmico para me conduzir aos píncaros da glória...

Optei pela sedimentação do nosso campo cognitivo, solidário com as novas gerações, contribuindo para formar novos autores e fundar espaços de construção coletiva do saber comunicacional.

Recebi três prêmios que me recompensaram suficientemente: o Prêmio Wayne Danielson da Universidade do Texas, pela minha contribuição intelectual ao campo da comunicação, o Prêmio Ibero-americano de Teoria da Comunicação da Universidade de Oviedo (Espanha) e agora a Medalha de Ouro do Ciespal pela conjunto da minha obra sobre a Escola Latinoamericana de Comunicação.

Dentre as recompensas literárias, destaco o Prêmio Jabuti que reconheceu meu livro História do Jornalismo (São Paulo, Paulus, 2013) como a melhor obra nacional na área de comunicação, naquele ano.

No entanto, não posso deixar de dizer que a maior emoção vivenciada, neste fim de carreira universitária, foi o presente que acabo de receber dos meus ex-alunos, reunindo toda a minha obra na série Fortuna Crítica de JMM (São Paulo, Intercom, 2014/2015) em quatro volumes, com anotações que espero sejam úteis às futuras gerações.

Tive a ilusão de escrever um ensaio sobre a evolução do Pensamento Comunicacional Brasileiro, mas, como estou com o meu prazo de validade vencido, como se diz popularmente, reuni todos os textos que seriam objeto de análise. Com a ajuda do jovem Guilherme Fernandes, logrei arrebanhar um contingente de uma centena de colaboradores de todo o país, lançando a trilogia Pensamento Comunicacional Brasileiro: o legado das ciências humanas (São Paulo, Paukus, 2015).

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