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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 859 / 2016

23/02/2016 - 18:20:32

O símbolo incontestável

CLÁUDIO VIEIRA

“O demagogo é exatamente aquele que exerce a mais ousada das identificações políticas: o povo (está) no seu líder e o líder no seu povo. O líder é órgão do povo e este é órgão do líder. (...) o próprio líder é o símbolo: o sinal de todos os valores, as expectativas, as esperanças convergentes do seu povo” (G.Zagrebelsky).

A constatação do jusfilósofo italiano é severa crítica ao culto à personalidade. Adianta o professor que, em tal situação, alguém se impõe ao povo como símbolo ele mesmo, cria uma redoma em volta de si de tal forma que todo aquele que o contraria é declarado inimigo, e assim aceito pelos sequazes do pretenso líder. O professor emérito da Universidade de Torino ilustra a crítica com os casos de Napoleão, Franco, Mussolini, Hitler, Stalin, Mao, Kim Jong-il e Kim il-Sung. Os demagogos-símbolos contrapõem-se aos verdadeiros símbolos políticos, que visam unir pessoas, ou a sociedade como um todo, em torno de proposições que transcendem a subjetividade, e objetivam-se em uma dimensão institucional. O demagogo é, portanto, um mal em si mesmo.

À política recente brasileira é bem assentada a crítica do autor de “Simboli al potere” (Enaudi ed., Torino/It.,2012), cujo excerto, em tradução livre, transcrevi acima. Salvo raríssimas exceções, a grande maioria dos nossos políticos veem exercendo a demagogia, muitas vezes com sucesso, malgrado transitório. O mais destacado dos demagogos brasileiros, na atualidade, é sem dúvidas o ex-presidente Lula. Também o mais carismático, inteligente, esperto e sagaz de todos. O desencanto da Nação com os governantes anteriores guindou-o à Presidência da República, cargo que exerceu com apelo institucional. Não se pode negar ter ele, aperfeiçoando institutos preexistentes ou criando outros, melhorado a vida do brasileiro mais empobrecido, ao menos por um bom período de bonanças econômicas que não dependeram da sua intervenção, uma vez que resultavam da evolução global. Soube aproveitá-las, no entanto, como nenhum outro antes nesse País. Infelizmente, vê-se hoje não terem sido mais do que castelos de areia, a duras penas, e através de mentiras, mantidos mais ou menos íntegros pela sua sucessora, do mesmo partido político, todavia sem a sua arte. Demagogo, Lula não perdeu a oportunidade de sublimar-se, transformando-se ele mesmo em símbolo de governança, o “pai dos pobres” a quem tudo é permitido, inclusive aproveitar-se das benesses do poder para enriquecimento próprio e dos seus. E, como observou Zagrebelsky, quem não comunga do seu círculo é inimigo. Em suma, como pretenso (mau) símbolo político, não promove a união, mas a divisão maniqueísta entre o Bem (ele) e o Mal (quem se lhe opõe). Tudo tão igual àqueles personagens demagógicos acima referidos!

Ainda bem que, historicamente, os falsos líderes são transitórios.

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