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Edição nº 859 / 2016

23/02/2016 - 17:45:19

A culpa

Fernando Tenório

Outro dia, ouvi um amigo desesperado queixando-se da máquina fotográfica de seu telefone. Dizia-se rejeitado numa rede social de relacionamentos por não ter uma boa câmera. A câmera era tudo e ele nada. O sujeito em questão era o aparelho eletrônico. O homem era apenas uma imagem mal captada. O caso, por mais simples que pareça, trouxe-me a uma reflexão sobre o que vivemos.

O ser humano, com seus traços narcísicos e instinto de sobrevivência, tende a acumular tudo, até mais do que necessita, privando, muitas vezes, os pares daquilo que consegue para si. O poder nasce disso: ter algo que outro não possui. Muitos dizem que o capitalismo está enraizado na cultura em que vivemos, pois ele reproduz o que inconscientemente buscamos. Somos eternos acumuladores. Temos o medo da morte e por isso nos precavemos. Temos o medo da vida e por isso nos cercamos de bens de consumo, como uma afronta à nossa finitude. Mas, dentre todos os acúmulos que buscamos, existe uma exceção. Só há uma coisa que queremos dar tudo aos outros para ficarmos sem nenhuma parte: a culpa.

O fato é que passamos a vida buscando desculpas para culpar alguém ou algo. Essa objetificação da existência, onde não somos sujeitos em nada e por nada, tem criado raízes na nossa forma de enxergar o mundo. Vivemos uma era histérica e pagamos o preço dela!

Em dois minutos no metrô pude ouvir várias histórias que ratificam minha teoria. O amor que não deu certo foi culpa da amante que não se vestia adequadamente para as ocasiões. A conta de energia não foi paga, pois os correios não a trouxeram no tempo correto. O amigo desaparecido deixou de nos telefonar. O filho que vai mal na escola é apenas um revoltado que não valoriza tudo que foi fornecido. O país não dá certo, pois a Dilma administra pessimamente. A brochada de ontem foi obra das preocupações com a moralidade do país, já que estamos de mal a pior, vide o tríplex do Lula dado pelas empreiteiras. Em todas essas ocasiões, somos apenas uma pluma leve que voa e observa o desenrolar das coisas. Tudo nos acontece, mas nada é por nossa culpa. A insustentável leveza do ser, meu caro Kundera.

É difícil admitir que o amor não deu certo, pois já não desejávamos mais aquela pessoa. A conta de energia não foi paga porque não quisemos, já que poderíamos pegar a segunda via na internet. O amigo sumiu porque também paramos de telefonar. O filho vai mal na escola e nem nos damos conta, pois passamos tempo demais no whatsapp vendo grupos de sacanagem. O país vai mal porque compro o voto da empregada doméstica com cem reais para meu amigo ladrão deputado. É ladrão, mas é ladrão amigo. A sua brochada é obra e graça de um decréscimo da testosterona circulante, ou seja, você não é mais um menino. O tempo corre para todos e com você não será diferente. O fato de o Lula ser um sacana, não diminui seu erro de tentar sonegar o imposto de renda! Os exemplos não têm fim. Direta ou indiretamente, somos responsáveis por tudo. A culpa, meus caros, é nossa!

Nesse processo de desresponsabilização em que vivemos, outra coisa que enxergo como sintomática são os tais relacionamentos abusivos, onde um lado faz e acontece com o outro. Homens e mulheres vivem verdadeiros infernos, mas não conseguem sair deles. Acotovelam-se em relações masoquistas só para reclamar do parceiro e culpá-lo por todos os males da existência, como se não pudessem fazer nada . Acusam o parceiro, vitimando-se, mesmo quando podem sair daquilo. O parceiro/a parceira realmente não presta, todavia precisamos nos posicionar, dar um basta. Temos coragem para tal? Muitos de nós não! Aceitamos o amor que achamos merecer... e ao que parece, merecemos muito pouco.

Pensando bem, essa questão é muito louca. Se você está lendo esse texto de um computador, com uma televisão ligada, a luz do quarto acesa, carregando o seu celular, saiba que seu gasto de energia tem repercussão na água do planeta que está indo embora. Não adianta postar reclamando e dizendo que o sistema Cantareira está no volume morto, tendo tal comportamento predatório. Não culpo somente vocês, eu também tenho o ranço da hipocrisia e faço as mesmas coisas que condeno. O fato é que quando disparamos o gatilho da culpa, ninguém sai ileso. 

Eu sei que é doloroso admitir que somos sujeitos de um tempo onde 1% das pessoas têm mais dinheiro que o resto da população mundial. Somos sujeitos de uma sociedade que oprime o trabalhador para dar lucros soberbos aos empresários, chamando de “vagabundo”, “porco comunista” quem vai às ruas denunciar que somos coniventes a tudo isso. Somos sujeitos e, portanto, culpados. Se serve de alento, sendo nossa a culpa, temos a chance repará-la, a chance mudar as coisas, fabricar um novo jeito de fazer o mundo. Meu amigo, aquele que culpa a máquina, tem de olhar de si para si e ver que não é uma bela figura. Que, talvez, a imagem não seja seu melhor método de conquista.

A verdade, meus caros, é que estamos buscando os culpados para tudo durante toda a vida, quando, na verdade, os culpados não estão longe. Eles comem nas nossas casas, dormem nas nossas camas e bebem em nossos copos. Os culpados, por mais doloroso que seja, somos nós. Saber disso dói, mas liberta

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