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Edição nº 858 / 2016

11/02/2016 - 11:22:11

A maldição do Teatro Deodoro

A primeira tentativa de se ter uma casa de espetáculos de grandes dimensões (para a época) em Maceió se deu em 1898, no governo de Manoel José Duarte

Edberto Ticianeli Jornalista

Quando, em 1910, Gaston Leroux lançava em Paris uma das mais famosas novelas de todos os tempos, Le Fantôme de l’Opéra (O fantasma da ópera), jamais poderia imaginar que naquele mesmo ano, na distante Alagoas, estavam inaugurando um teatro que comprovaria a tese de que a realidade sempre surpreende a fantasia.

Na novela francesa é o fantasma Erik quem perturba a Ópera de Paris, enquanto que por aqui o problema é uma igreja não construída que ficou enterrada embaixo do Teatro Deodoro. Uma pesquisa de Marcos Peixoto publicada no site da instituição nos revela os detalhes da “maldição”, que fez o teatro ficar fechado por longos períodos.

A primeira tentativa de se ter uma casa de espetáculos de grandes dimensões (para a época) em Maceió se deu em 1898, no governo de Manoel José Duarte. O início da construção de um teatro no antigo Largo do Cotinguiba, também chamado Largo das Princesas, onde hoje fica a Praça Deodoro, ocorreu no dia 16 de setembro em homenagem à emancipação política do estado. O projeto já era o do arquiteto Luiz Lucariny.

As obras do teatro que deveria ser chamado 16 de Setembro foram interrompidas no dia 31 de dezembro do mesmo ano, quando já se encontravam bem adiantadas. Como os recursos para a construção vinham de apólices estaduais e elas foram proibidas, a obra parou. Depois, em 1905, derrubaram tudo para a construção no local de um monumento equestre do proclamador da República, Deodoro da Fonseca, que seria inaugurado em 1910.

Somente em 1905 é que o projeto volta a ser executado, já no governo de Antônio Máximo da Cunha Rego, com o lançamento da pedra fundamental, desta feita no local onde hoje se encontra o Teatro Deodoro.

A construção ficou a encargo dos mestres-de-obras Antônio Barreiros Filho e Oreste Scercoeli e durou cinco anos. O projeto executado era do arquiteto Luiz Lucariny, que faleceu em 1909 sem ver sua obra terminada. Sua morte serviu para reforçar a ideia de que o Teatro era amaldiçoado e que desabaria no dia da sua inauguração. Esses temores sugiram porque no local onde o teatro foi erguido existia em construção uma igreja, que foi demolida contra a vontade de muitos religiosos.

No dia 15 de novembro de 1910, quando da inauguração do Teatro Deodoro com a presença do governador, muita gente ficou em casa com medo da profecia e não assistiu ao drama “Um Beijo”, da autoria do alagoano J. Britto, representado por Lucilla Péres e Antônio Ramos.

No salão Nobre do Teatro Deodoro já funcionaram a Biblioteca Pública, a Câmara dos Vereadores de Maceió e a Justiça Federal. Ali também aconteciam bailes oficiais da Intendência Municipal (hoje Prefeitura de Maceió) e os banquetes e recepções do governo do Estado, a exemplo dos oferecidos aos presidentes da República Nilo Peçanha e Washington Luiz.

As restaurações

Com duas décadas de inaugurado, os efeitos do uso intensivo exigiram que prédio passasse pela primeira restauração. Isso ocorreu em 1933, quando Alagoas era comandado pelo interventor Afonso de Carvalho.

Em 1946, após novas reformas, o Deodoro recebeu a visita do Teatro de Amadores de Pernambuco, que encenou “Primerose” de Cavaillet. Era Interventor Federal no Estado o Dr. Guedes de Miranda. Por carência de hotéis na época, o TAP foi hospedado em casas de famílias.

A terceira reforma, em 1954, foi forçada por um incêndio que destruiu os mais importantes trabalhos do cenógrafo italiano Orestes Scercoelli, inclusive o pano de boca original inspirado na cachoeira de Paulo Afonso. Foi reinaugurado em 1957.

Em 1975 houve mais uma reforma, mas a maldição não deixou o teatro em paz. Em 1988 foi interditado e mergulhou numa das suas mais longas restaurações, passando dez anos fechado ao público, provocando prejuízos incalculáveis às artes cênicas alagoanas. Foi reaberto com estardalhaço em 1998.

No final de 2007, o Deodoro voltou a receber reformas, só reabrindo em setembro de 2010. Em janeiro de 2014, novamente o teatro é fechado para uma rápida reforma de dois meses, voltando a funcionar em março, quando recebeu a “Valsa nº 6” de Nelson Rodrigues.

O Complexo Cultural Teatro Deodoro é a obra mais recente da velha casa de espetáculos. Iniciada em 2011, tinha a previsão de terminar no ano seguinte. Novamente a maldição atuou e a ampliação do Teatro Deodoro só foi concluída em dezembro de 2014.

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