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17 de Novembro de 2018

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Edição nº 858 / 2016

11/02/2016 - 11:18:18

Ondas da vida

CLÁUDIO VIEIRA

Matéria de capa da Folha de S. Paulo, semana passada, a fotografia do ex-ministro José Dirceu sendo conduzido por policiais à presença do Juiz Sérgio Moro. Ainda que não nutra simpatia pelo petista, impressionou-me a decadência física do homem outrora poderoso, arrogante, combativo. 

Quem quiser apreender o estado psíquico de uma pessoa, observe seus olhos, “as janelas da alma”, como se diz. Os de Dirceu, naquele momento, demonstravam imenso desencanto, mórbida tristeza, medo, vergonha, ou tudo isso junto.

Esta semana a UOL postou vídeos do depoimento de Dirceu ao Juiz Moro. Algo da fortaleza do homem ainda se pôde entrever em algumas respostas ao magistrado, embora já aí as reações do interrogado demonstrassem algo de nervosismo: inquietude na cadeira de réu, constante necessidade de saciar sede, olhos quase sempre infixos. Tal comportamento, aduzido à constante repetição de que ali estava para dizer a verdade, era revelação do exato contrário. Esses sinais acentuaram-se de forma indisfarçável quando a palavra foi passada para o órgão acusador, o procurador federal, que o inquiriu com maior profundidade. A cada pergunta, a inquietação do interrogando subia de graduação, os olhos não mais se fixavam em coisa ou lugar algum, as respostas tornaram-se dúbias, ou ao menos evasivas, a boca ressecada exigindo contínuos sorvos d´água. 

A situação fez-me recordar certo dia de 1992, quando o interrogado era eu mesmo, na CPMI do PC Farias. José Dirceu, então deputado federal por São Paulo, estava lá, irônico, arrogante, instigante. Ele só, não! Havia outros do mesmo naipe: José Genoíno, Aloisio Mercadante, Mário Covas, etc. Enquanto eu prestava os meus esclarecimentos, ouvi a provocação de Dirceu, secundado por Genoíno e Mercadante: “Esse queimaria qualquer detector de mentiras”. Fiz ouvidos surdos à provocação, e continuei realizando a minha defesa, olhando a todos de frente. Posteriormente, já na Justiça, vim a ser absolvido das acusações que me impingiram, sendo que no processo-mãe, julgado pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal, fui o único acusado absolvido por unanimidade, com o pedido de absolvição feito pelo próprio acusador, o procurador-geral da República Aristides Junqueira.

Voltando aos dias atuais, quando os mesmos Dirceu e Genoíno são condenados em processos crimes nos quais as acusações são as mesmas que sofri; o ministro Mercadante é citado em uma dessas operações da Polícia Federal; e o governo Mário Covas (ele já falecido) é objeto de investigação sobre propinas e corrupção no Metrô de São Paulo, vêm, então, à mente aquela realista afirmação da música de Lulu Santos: a vida vem em ondas como o mar, um indo e vindo infinito.

Por fim, ao assistir esse vídeo do depoimento de José Dirceu, tive a mesma impressão que o então deputado tivera de mim: esse, sem dúvidas, queimaria qualquer detector de mentiras. 

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