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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 858 / 2016

11/02/2016 - 08:16:08

Deus me livre!

Fernando Tenório

Sempre que vou a Maceió busco reencontrar as pessoas de quem gosto. Buraco da Bruxa, Churrasquinho do Kaká, Bar do Delegado, Bar do Lula, Roberto Ladrão, Maria Furadinha, Bar da Tapa ou Rosa Mossoró surgem como os locais para esses encontros. O meu local favorito talvez seja o bar da Rosa, apesar de nem conhecer o nome fantasia do lugar. A cerveja gelada com tira-gosto de moela; as inúmeras histórias de seu pai, dono do bordel mais famoso da cidade outrora, e os amigos frequentadores são os convidativos do lugar. Além, é claro, de fechar quando o dia está raiando, o que deixa minha insônia à vontade.

Falei de Rosa porque estava em seu bar na semana passada, quando encontrei uma garota. Ela namorou um colega meu por um bom tempo e veio falar comigo em tom cordial. O camarada não estava presente, e o coleguismo não permitiu que eu soubesse sobre o término da relação deles, a ponto de perguntar para a moça:

– E seu namorado, não veio hoje?

– Namorado? Deus me livre! Aquele ali nunca mais! – retrucou a moça.

Ruborizei e pedi desculpas pela indelicadeza. Não toquei mais no nome do defunto, como ela definiu, seguindo por outras searas da conversa fortuita. Pouco depois, segui para minha cadeira e me pus a pensar naquele “Deus me livre”. As pessoas passavam e falavam comigo animadamente, e eu só pensava no tal livramento orquestrado pelo divino.

Quando o casal desfeito namorava, era amor de balde (definição sublime do nobre Marcelo Calazans). Era amor para dar e vender, daqueles que vêm feito o vento que levantou o vestido da Marilyn Monroe ou desgrenhou a cabeleira do David Luiz. Não pareciam, pelo menos ao longe, um casal infeliz. Viagens, selfies e tudo o mais que os relacionamentos estereotipados exigem para que a sociedade os aceite como felizes.

Peguei o táxi rumo à casa da minha mãe – que já não é tão minha – e o “Deus me livre” me acompanhou. Sentou ao meu lado, e fomos dialogando pela madrugada. Pensei nas mulheres que poderiam ser elencadas na hora de pedir a proteção aos céus e fiquei mais aliviado. Eram poucas. No entanto, também pensei nas que me colocariam no tal livramento, ficando angustiado. Muitas seriam as que têm motivos.

Todos nós devemos estar na lista do Deus me livre de alguém. Sim, todos nós! Para entrar na lista não existe um padrão. Pode ser desde aquela ficada única aos relacionamentos de quase uma vida encerrados por conta de uma descarga não dada. Do beijo que não encaixou, com direito à batida de dentes atroz, até uma sacanagem sem tamanho envolvendo o saldo bancário.

Entramos na tal lista pela mentira mais bonita que se pode contar, ou até pela verdade dita de maneira equivocada ou no tempo errado. Entramos na lista por um eu te amo dito antes da hora, que fez a moça pensar que o desespero bateu em nossa porta, colocando-nos na lista dos carentes.

Entramos na lista por dizer um eu te amo depois do momento certo, fazendo a moça pensar que dissemos por pena ou para ter algum ganho secundário, principalmente se pouco depois o relacionamento acabar.

Temos o costume de pensar que se algo dura para sempre, é sinal do sucesso amoroso, que deu certo. Mas, ao entrarmos no time do Deus me livre, nunca seremos esquecidos, e aí mora a contradição da coisa. A relação é doente, mas não deixa de haver afeto. Aconteceu, portanto, um sucesso amoroso?

Quando disserem Deus me livre, em relação a mim, ficarei mais aliviado. Não digo orgulhoso, mas aliviado. Nem tudo está perdido. Ainda existem coisas a serem resolvidas nesse plano. Só pedimos para tirar aquilo que está dentro de nós. Pedimos livramentos de coisas que podem nos afetar.

Quando alguém diz Deus me livre em relação à gente, é devido à importância que ainda temos. Pedem aos céus aquilo que não conseguem concretizar na terra. Colocam para o divino uma responsabilidade enorme, de que ainda não dão conta.

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