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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 857 / 2016

31/01/2016 - 08:24:09

O último comício no Estado antes do golpe militar de 1964

organizadores anunciaram que tinham convidado Leonel Brizola e Miguel Arraes para o comício, o que provocou uma imediata reação das forças conservadoras em Alagoas.

Edberto Ticianeli Jornalista
Com o comício em ambiente fechado muita gente teve que ficar na Rua Dois de Dezembro

Após o histórico comício pelas Reformas de Base realizado no dia 13 de março de 1964 no Rio de Janeiro, os seus defensores continuaram a campanha por todo o país com novas manifestações, principalmente mobilizando estudantes e sindicalistas.

Em Maceió, o Comando Geral dos Trabalhadores - CGT, com o apoio da União Nacional dos Estudantes - UNE, União Estadual dos Estudantes de Alagoas - UEEA e Partido Comunista Brasileiro - PCB, marcou para o dia 29 de março, um domingo, na Praça do Pirulito (Parque Rodolfo Lins), o ato de apoio ao presidente João Goulart e suas Reformas de Base.

Os organizadores anunciaram que tinham convidado Leonel Brizola e Miguel Arraes para o comício, o que provocou uma imediata reação das forças conservadoras em Alagoas. Como resposta, também divulgaram que o Movimento Popular pela Democracia realizaria uma manifestação no mesmo dia e hora na Praça Deodoro, a poucos metros da Praça do Pirulito.

O major Luiz Cavalcante, governador do Estado, imediatamente iniciou uma campanha pelo rádio alertando para as possíveis consequências com a realização de comícios tão próximos. Com o argumento de que poderia haver choques entre os oponentes, os dois comícios foram desautorizados.

Os reformistas denunciaram que o comício do Movimento Popular pela Democracia tinha sido articulado como uma jogada para inviabilizar a manifestação organizada pelo CGT.

Num primeiro momento, os organizadores do comício das reformas resolveram não acatar a determinação da polícia e continuaram a convocar o comício para o Parque Rodolfo Lins.

Com a desistência de Brizola, que argumentou já ter assumido compromissos no Rio Grande do Sul, e com as ameaças a Miguel Arraes, a manifestação terminou ocorrendo em ambiente fechado, na sede da Aliança Retalhista, na Rua Dois de Dezembro.

Informações colhidas depois revelaram que as forças conservadoras, ao impedirem o ato em apoio às reformas, tinham como questão de honra atingir o governador de Pernambuco, Miguel Arraes.

Rubens Colaço, em depoimento a Geraldo de Majella publicado no livro Rubens Colaço: Paixão e vida - A trajetória de um líder sindical, confirmou que existiam de fato ameaças a Arraes.

“... a cabeça de Miguel Arraes estava sendo disputada aqui. A disputa era para ver quem atirava na testa, quem atirava na boca, quem atirava no olho direito, quem atirava no olho esquerdo. E nós sabemos muito bem que aqui em Alagoas tem gente altamente qualificada para isso”.

Colaço falou que diante da ameaça, “o CGT tomou a decisão de ir a Recife para desconvocar Miguel Arraes e explicar a situação”. Anivaldo Miranda detalha que foi Nilson Miranda quem viajou para Recife no dia anterior para informar sobre a situação diretamente a Miguel Arraes.

Luiz Nogueira, em recente depoimento à Comissão da Verdade dos Jornalistas revelou que foi a ponderação de Jayme Miranda que fez com que o comício não acontecesse na Praça do Pirulito.

Anivaldo Miranda também confirma a atuação do dirigente do PCB. “Foi o Jayme Miranda, numa reunião que nós tivemos já na sala da Aliança Retalhista para decidir se a gente seguia em marcha na marra para a Praça do Pirulito ou não, que ponderou. Nós tínhamos informações privilegiadas, o Jayme principalmente, e nós não íamos fazer isso, porque era tudo que eles estavam querendo para desencadear uma matança aqui em Maceió”.

O comício terminou acontecendo na sede da Aliança Retalhista e onde também funcionava o Sindicato do Petróleo. Rubens Colaço assim descreveu a manifestação:

“Nós realizamos o comício e os operários da fábrica têxtil do distrito de Saúde vieram a pé, vieram para Maceió com suas faixas enroladas debaixo do braço. Quando menos esperavam, eles estavam na praça.

Os trabalhadores da orla marítima tiveram que se dispersar quando chegaram na Praça Sinimbu. Mas marcaram presença firme.

A Rua do Comércio ficou intrafegável. Nós realizamos o comício em frente ao Sindicato do Petróleo, que era praticamente na Praça Pedro II. A Rua 2 de Dezembro, é muito pequena, liga a Rua do Comércio à Praça Pedro II.

O segundo delegado da capital, Aurino Malta, ainda deu uns tiros, feriu um rapaz da Petrobras que estava na sacada do prédio; esse rapaz não tinha nada a ver com o comício”.

Dois dias depois, na noite de 31 de março de 1964, a Aliança Retalhista e o Sindicato do Petróleo foram invadidos pela polícia e todos os dirigentes que lá se encontravam foram presos. Na manhã seguinte, 1º de abril, inúmeras prisões foram realizadas em Alagoas, atingindo muitos dos que participaram do último comício de Alagoas antes do Golpe Militar.

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