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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 856 / 2016

26/01/2016 - 07:03:11

Glória

Fernando Tenório

Glória. Palavra de seis letras e tanta utilidade. Sinônimo de conquista, fama. Nome do time de futebol da cidade de Vacaria-RS. Complemento da expressão tão utilizada pelos católicos e protestantes: Oh, glória! Música do disco Grande Liquidação, do Tom Zé. Bairro do Rio de Janeiro, aos pés do Morro dos Prazeres, que tanto vou para visitar amigos ou utilizo para chegar até a Lapa.  Glória, estação de metrô, que serviu como local de encontro com a Glória que vem ao caso.

Glória, aproximadamente 19 anos, olhos verdes e agateados, entrou no mesmo vagão que eu. Estava acompanhada por um rapaz que também tinha a sua idade. Ele utilizava uma camisa com a estampa do Cartola, poe-ta do samba e da vida, o qual bebia seu café na gravura fincada no tecido. Sentei em frente a eles e ouvi:

- Glória, você não me dá liberdade. Você sai com meus amigos, frequenta minha casa todo final de semana, manda mensagem o dia todo. Para de pegar no meu pé!

A menina não respondeu. Só enxugou uma lágrima vacilante que escapou do controle. Baixou a cabeça e continuou a ouvir:

- Meu Deus! Será que é difícil para você entender que tenho a alma livre? Sou livre por essência e você não vai mudar isso!

A garota mais uma vez chorou. O homem vociferava a angústia de ser amado ao extremo. A moça sentia-se culpada por roubar a liberdade de quem gostava, imagino. Sentia-se menor por oferecer o que tinha de melhor e isso ser tomado como invasão ao querer do outro. Era humilhada logo cedo, diante de estranhos.

No entanto, Glória, a liberdade é um bem tão intrínseco que desconfio ao ver alguém pedindo ela para nós, como se a detivéssemos. Quando projetamos no outro nossos anseios, angústias e medos, tudo fica mais fácil. É mais leve dizer que o outro vem tirando nossa liberdade quando, na verdade, nunca tivemos. É mais fácil jogar nossos demônios para o exterior do que conviver internamente com eles. Talvez você nem seja tão culpada assim!

A palavra Glória é imprevisível. Pode significar o mundo todo com suas seis letras. E a moça resolveu que poderia ser qualquer coisa assim como seu nome. Ela falou algo no ouvido do rapaz, bem baixinho, e desceu na estação Botafogo, do nada, deixando o namorado espantado. A moça não queria ser o símbolo da prisão alheia. Espantado e livre, o rapaz só balançou a cabeça negativamente, como se a ausência dela também o prendesse.

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