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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 855 / 2016

18/01/2016 - 16:40:17

Meu caro amigo

Fernando Tenório

Aqui tem um apartamento para alugar? - Tem sim - respondeu um senhor de baixa estatura, muito pela curvatura de suas costas, e bigode de policial americano . Ali, naquele instante, findara a minha busca por um lar no Rio de Janeiro. O homem, que se chamava Reginaldo, disse ter gostado do meu sotaque, pois era cearense, considerando-se meu conterrâneo; saindo pelo edifício Kennedy em busca dos três apartamentos vagos. Ele, que não possuía a beleza como um dos seus fortes, saiu arrastando os pés, e foi logo dizendo: - O 416 é melhor. O dono é mais tranquilo para você convencer a não pedir fiador do Rio de Janeiro. Na mudança, lá estava ele, ajudando na troca da luz, com a pia do banheiro, solidificando uma amizade com gestos e poucas palavras. Na solidão de quem pouco conhece a cidade, eu descia para a portaria do meu prédio e podia contar com Reginaldo. O chefe dos porteiros, como gostava de se apresentar, foi me apresentando a cada morador, revelando também os segredos mais íntimos deles. Com o avançar do tempo, conheci várias pessoas na cidade maravilhosa e o ato de descer para portaria já não era um exercício de combate à carência. Eu avançava para lá visando a jogatina de dominó, as fofocas do dia e as músicas nordestinas entoadas pelo rádio de Reginaldo. Certa feita, ouvimos CSA x CRB, o clássico das multidões em Alagoas, pelo meu computador. O homem sabia do meu amor pelo time azul e vibrava a cada lance, reclamava da falta de gana dos volantes azulinos, idealizando naquele instantes tantas coisas que nem sei imaginar. O amigo demonstrara ali o quanto minha felicidade significava para ele. Com o avançar da amizade, descobri muito sobre o porteiro chefe. O cearense tinha verdadeira devoção por Paquetá, reclamava dos gastos exagerados da mulher, da falta de empenho do filho na hora de estudar, dos irmãos que não gostavam do trabalho, da mãe que o abandonara com dois anos, do pai que nunca conheceu. Sua vó, essa sim, era uma figura santificada, com direito a uma foto da missa de sétima dia na carteira do meu amigo. Posso dizer que ele era meu melhor amigo no Rio de Janeiro, ainda que nunca tenha ido beber uma cerveja comigo. Por falar em cerveja, um dia exagerei na dose e passei pela portaria antes de subir para casa. O amigo me olhou repreendendo e no dia seguinte me chamou para uma conversa dura. O porteiro não queria que ninguém falasse de mim, afinal, segundo ele, eu tinha uma reputação a zelar. O tempo avançou ainda mais, e o apartamento com vinte e dois metros quadrados já não conseguia guardar os meus sonhos. Resolvi me mudar, e Reginaldo ajudou a embalar as coisas todas, carregar tudo para fora e embarcar no carro. Quando eu quis pagar a ajuda, ele disse: - Amizade não se compra, não se paga. Aparece aí quando puder, as pessoas vão sentir sua falta. Pela primeira vez e última vez nos abraçamos. Eu segui meu caminho, mas sempre passava por lá quando ia para análise. O camarada trazia doce de mamão ou de laranja e passávamos o fim de tarde “palestrando”, como ele bem definia. Ontem, mesmo sem ter análise, decidi ir para Rua Santa Clara. Adentrei o número 98 e perguntei por meu amigo. Um certo constrangimento daqui, um olhar desajeitado aqui e uma sentença feroz, dura: - Ele morreu. Teve um ataque do coração e morreu dormindo. Saí desnorteado pela rua, ouvindo que o enterro havia sido segunda-feira. Saí desnorteado pelo Rio de Janeiro, sem ter com quem verdadeiramente contar. Saí desnorteado pela vida, por ter perdido um grande amigo.

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