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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 854 / 2016

10/01/2016 - 18:26:48

MISS PARIPUEIRA

No reinado da fantasia de um eterno carnaval

Edberto Ticianeli Jornalista

Não se conhece precisamente onde e quando nasceu Ambrosina Maria da Conceição. As informações mais antigas registram a sua participação nos anos 60 e início dos 70 nas procissões de Santa Rita de Cássia em Paripueira, Alagoas.

Maria Cícera da Silva, casada com um dos seus netos, lembra que depois ela continuou homenageando Santa Rita de Cássia numa festa organizada em recinto fechado, na Rua das Velhas, Alto da Boa Vista, em Paripueira. “Os que não recebiam convites ficavam curiosos, ‘brechando’ pelas janelas e portas do barraco. A cantoria amanhecia o dia”.

Ambrosina, que deixou a filha Almira Maria da Conceição, “perdeu o juízo” em meados dos anos 70. “Ela amanheceu um dia assim”, recorda Maria Cícera, que lhe deu abrigo até a sua morte em 1998.

Com a enfermidade, assumiu o papel de beata e passou a percorrer as ruas e praias de Paripueira portando uma bandeja com a imagem de Santa Rita sobre flores. “Vizinha”, como era conhecida, pedia contribuição para uma novena que seria realizada em sua casa.

SURGE A Miss

Quem contou como surgiu a Miss Paripueira foi o já falecido advogado Carlo Ramiro Basto. “Num domingo de Carnaval, quando ela estava na praia pedindo espórtulas, várias jovens, inclusive minha filha Elizabeth, perguntaram se ela não queria ser candidata a Miss Paripueira. Ela ficou satisfeita com a proposta e respondeu afirmativamente. Imediatamente, as jovens improvisaram uma fantasia com a faixa de miss e uma coroa, e colocaram-na num jipe sem capota, que seguia o caminhão da orquestra. Foi aclamada miss durante todo o percurso do corso. E, daí por diante, a Vizinha deixou de ser ‘beata’ e passou a ser Miss Paripueira”.

O ator e cineasta José Márcio Passos também conviveu um período com Ambrosina para produzir o curta metragem Meu Nome é Miss Paripueira. “Ela não descuidava da aparência, pois, caso contrário, Lulu da Barra, invejosa, poderia roubar a sua coroa e o seu título”. Lulu, segundo Miss Paripueira, não sabia desfilar e nem tão pouco dançar o Carnaval. Somente ela conhecia o “passo da onça”, um estilo de dança com o qual pretendia desafiar a “invejosa rival”.

Antes de sua morte verdadeira, Miss Paripueira foi “assassinada” por um jornal, que publicou a sua morte por atropelamento no Centro de Maceió. Meses depois, já recuperada do acidente que a levou a ficar internada por um bom tempo, voltou a circular. Quando soube da notícia sobre sua morte, não vacilou: a responsável pela mentira era a sua arquirrival Lulu da Barra.

Pedradas

Sobrevivendo das contribuições que pedia para o “concurso” de miss Paripueira ou cobrando “taxas” para ser fotografada pelos turistas, Miss Paripueira vivia exposta às provocações das crianças e mesmo de alguns adultos.

Para conhecer seu lado agressivo, bastava se referir a ela como “Sabiá”, “Canela de Sabiá” ou dizer que “Salgado Sales” — personagem de uma novela da época adotado como noivo — tinha deixado ela por outra mulher. Nestes momentos, se munia de pedras e era um salve-se quem puder. Ruim na pontaria, o alvo passava a ser qualquer objeto ou pessoa num raio de 360 graus.

Outro momento em que a agressividade aparecia era quando pedia dinheiro e recebia um não como resposta. Insistia com os pedidos e terminava incomodando, gerando atritos. Quando percebia que não teria sucesso, esculhambava até a quinta geração de quem se negava a lhe oferecer uns trocados.

Modelo 

publicitário 

de Collor

Em 1982, o prefeito Fernando Collor se desincompatibilizou para ser candidato a deputado federal. José Helinton, publicitário que trabalhava a imagem de Collor, resolve utilizar Miss Paripueira no Guia Eleitoral.

A gravação seria rápida, com a “modelo” dizendo apenas “estou com quem trabalha”. Para convencer a ambiciosa atriz, José Helinton garantiu que ela seria remunerada. Como foram necessárias várias gravações, descobriu-se que, no entendimento dela, cada uma das filmagens teria que ser paga. Collor conseguiu a declaração da miss, mas o publicitário terminou o dia com a carteira vazia.

José Helinton não foi o primeiro a ser cobrado pelo uso da imagem da Miss Paripueira. Quando o Banco do Estado de Alagoas lançou a Poupança Produban, a peça publicitária veiculava uma rápida imagem dela. Dias depois lá estava dona Ambrosina, devidamente paramentada, conversando com o gerente e cobrando os seus “direitos autorais”.

Cheia de adereços e sempre de óculos escuros, Miss Paripueira se sentia bonita e cobiçada pelos homens, mas sempre aguardando o português da novela, seu eterno noivo Salgado Sales. Gostava de ouvir música para dançar, principalmente no carnaval, quando se postava como se fosse a porta-bandeira dos principais blocos de Maceió.

Vulcão, Cavaleiro dos Montes e Vou Botar Fora tiveram a honra de ter Miss Paripueira fazendo o passo e trazendo alegria para seus foliões. Com a sua morte, em 1998, Alagoas perdeu uma de suas figuras mais populares.

Fonte: Jornal Última Palavra de dezembro de 1988, nº 51, reportagem de Joaldo Cavalcante e  o texto Olha a Miss Paripueira!, de Francisco Ribeiro, publicado em Graciliano On-Line; fotos de Celso Brandão

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