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18 de Setembro de 2018

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Edição nº 854 / 2016

07/01/2016 - 19:15:08

Jorge Oliveira

Esdras, o artista das palavras

Jorge Oliveira

Maceió – O escritor Esdras Gomes se cercou de jornalistas famosos e intelectuais da terra para apresentar seus livros, duas preciosidades da literatura que o elevam ao patamar dos melhores escritores e memorialistas de Alagoas, quiçá do Brasil. Atrevo-me, diante de tanta gente letrada, tecer alguns comentários das obras que chegaram a mim pelas mãos do próprio autor,  jornalista querido e amado, que me brindou com dois autógrafos afetuosos.

Podes crer! O cumpade me contô ...causos e histórias que o povo conta, o primeiro dos seus livros, percorre o universo das histórias regionais que de tão verdadeiras parecem inventadas pela alma criadora do escritor. São causos deliciosos, narrados com a maestria de quem sabe burilar as palavras. De quem conviveu e convive com a  sua gente no interior, nas esquinas, nas barbearias e nas biroscas dos pequenos povoados sempre atento ao que de mais sagrado existe na cultura nordestina: a linguagem do homem comum, da roça, sem as firulas gramaticais que engessam a simplicidade. Aquela em que a abreviatura e a distorções de nomes e palavras viram o vocabulário recorrente desse povo que se manifesta de forma espontânea e livre.

Podes Crer! é um trabalho de fôlego, que faz um passeio saudosista pela nossa Maceió, resgatando personagens que marcaram uma época de ouro nas décadas de 1960/70. Esdras traz de volta ao nosso convívio o “Pai véio”, o velho Mossoró, dono do principal puteiro na época, figura folclórica, que transformou o bairro de Jaraguá no principal pointer da sacanagem. 

Era parada obrigatória dos marinheiros e embarcadiços. Dos intelectuais, das raparigas e dos jornalistas boêmios que deixavam às redações de madrugada em busca de dois prazeres: bebida e sexo.

O autor divide o livro em 49 histórias deliciosas, que amarram o leitor do início ao fim com títulos no mínimo exóticos para cada uma de suas peraltices lite-rárias: O Lobisomem, Orifício Gigante, O Papagaio do Coronel, Cabaço Vencido, O apelido do ânus, etc. etc. São causos extraídos da sabedoria popular em que Chico Anísio também se expirou para criaro Pantaleão, mentiroso peidão, que a todo momento pedia que a Terta confirmasse as suas invencionices. Na verdade, para isso, Chico foi lamber nos livros de Graciliano Ramos de onde tirou esse personagem. Ele continua lá, vivinho da silva, no Alexandre e seus heróis. 

Esdras Gomes é um dos mais respeitados jornalistas de Alagoas. E, agora, com esses dois livros, um admirável escritor, uma descoberta deliciosa que só cobre de orgulho nós, os alagoanos, sedentos de boas histórias contadas com qualidade.

Apresentação

Não à toa, Esdras  Gomes foi buscar no jornalista José Alves Damasceno, um dos mais conceituados da terra, o prefácio do seu livro Podes Crer! Creio ter sido feliz na escolha porque trouxe para dentro de suas páginas um dos melhores textos do país. Um jornalista, dublê de padre e escritor, que escreve com garra, com o coração e com a sagacidade dos grandes autores. Veja abaixo o que Damasceno diz do livro de Esdras:

Comparação

“O que se vê nesse livro é a facilidade que o autor demonstra em cada página escrita de guardar a mais escorreita fidelidade ao linguajar matuto, superando, sem dúvida, nesse particular, a genialidade do grande João Guimarães Rosa. Este, criava palavras, o tom fonêmico dos tabaréus mineiros, ele inventava um novo vocábulo. Dentro da visão humorística de Ziraldo, era um perfeito ‘novodicionarista’, isto é, alguém que sabe, com “palavras novas, escrever palavras velhas”.

Completo

“Esdras Gomes se me mostra mais completo, eis que sabe, como nunca vi, manter a grafia e o fonema intactos, mostrando por escrito como fala  - e pensa – de fato, o nosso matuto, os homens e as mulheres que mourejam na vasta e complexa região nordestina”.

Nordestês

Esdras Gomes vai mais longe. Ele também nos contempla com uma obra de fôlego só comparável aos grandes feitos de Câmara Cascudo nos intricados mistérios do folclore brasileiro. Gomes mergulhou em uma profunda pesquisa anos a fios para nos brindar com o Pequeno dicionário de  Nordestês. Uma obra prima, ouso dizer. Poucos escritores foram tão longe nessa missão. Um trabalho que devolve ao país, mais especificamente ao Nordeste, a sua identidade vocabular devorada pela televisão e outros meios de comunicação modernos.

O dicionário

Nordestês é um livro eterno, obra indispensável em qualquer escola, seja ela primária ou universitária; companheira de todos que se dedicam ao estudo da linguística. Esdras foi fundo nas pesquisas para trazer de volta o linguajar do matuto, do homem do interior, do caboclo. A exemplo de Aurélio Buarque de Holanda, outro alagoano, um dos mais importantes filólogos da língua portuguesa, Esdras Gomes – quem sabe – poderá também virar verbete daqueles que vão consultar o seu dicionário para traduzir para o “português” os garranchos verbais do homem do campo.

Agradecimento

O pequeno dicionário, de 392 páginas, vai de A a Z. E o projeto só foi possível porque homens como o industrial José Carlos Lyra de Andrade, presidente da Federação das Indústrias de Alagoas, comprometeram-se com o trabalho, viabilizando a sua realização, um fato raro em Alagoas, quando se sabe que os grandes empresários não dão muito bola para a cultura. Esdras, gentilmente, agradece a FIEA logo nas primeiras páginas do dicionário. É com a produção de obras como essas que Alagoas ainda se faz respeitar lá fora no que melhor sabe fazer: literatura.


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