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18 de Novembro de 2018

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Edição nº 854 / 2016

07/01/2016 - 18:57:45

Alagoas é o menos atrativo do país para investimentos

Indicadores sociais afastam perspectivas de desenvolvimento e de crescimento econômico do estado a curto prazo

Vera Alves [email protected]
Ranking da Competitividade 2015 traz Alagoas na ‘lanterninha’; em 2011, estado foi o 17º colocado

É triste ter de reconhecer, mas aquilo que o alagoano comum percebe e sente no dia a dia é confirmado por um estudo de caráter internacional lançado em novembro do ano passado mas que, só na primeira semana deste novo ano, provocou um rebuliço com a divulgação de que Alagoas recebeu nota 0, numa escala que vai até 100, para dois setores essenciais à vida da população: educação e segurança.

Encomendado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o Ranking de Gestão e Competitividade dos Estados teve sua primeira edição em 2011 e tem como objetivo orientar gestores públicos de todos os estados e do Distrito Federal na tomada de decisões que mudem para melhor a realidade local. O levantamento é elaborado pela Tendências Consultoria e pela Economist Intelligence Unit, braço do grupo britânico The Economist. Usa a mesma metodologia adotada nos 35 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e tem sido utilizado por investidores do mundo inteiro para analisar os potenciais mercados para novos investimentos.

Em 2015, foram analisados 64 indicadores divididos em 10 categorias: Potencial de Mercado, Infraestrutura, Capital Humano, Educação, Sustentabilidade Social, Segurança Pública, Sustentabilidade Fiscal, Eficiência da Máquina Pública, Inovaçãoe Sustentabilidade Ambiental. Alagoas foi o “lanterninha” dentre as 27 unidades de federação; obteve 24,9 pontos ao cair 10 posições desde a primeira edição do estudo, em 2011, quando obteve a 17ª colocação.

O estado de São Paulo manteve a liderança das edições anteriores e fechou 2015 com média 90,7. E mais, em comparação aos anos anteriores, evoluiu, o que o mantém como alvo preferencial para novos investimentos. Já na terrinha dos marechais, o que se vê é um retrocesso, reflexo das políticas públicas adotadas pelos últimos governos, notadamente nas duas gestões do tucano Teotonio Vilela Filho (2007-2014) e ainda não suficientemente modificadas pelo governo de Renan Filho (PMDB).

Os indicadores avaliados revelam também que as gestões municipais têm fracassado em melhorar o nível de vida de seus munícipes, mercê que estão, em muitos casos, da ganância e descompromisso de seus prefeitos. Não é à toa que tantos hoje são alvos de ações por improbidade. O mau usodos recursos públicos, aliás, parece ser a regra num estado ainda nacionalmente marcado pela liderança nas estatísticas de violência e analfabetismo.

Ser o último num país classificado como o último dentre oito que tiveram sua competitividade avaliada deixa evidente não ser nada promissor o futuro dos alagoanos, ao menos a curto prazo. É também de novembro do ano passado a divulgação do levantamento feito pela consultoria A.T. Kearney no qual, em comparação à Rússia, Índia, China e África do Sul (os Brics), e mais o México, Estados Unidos e Alemanha, o Brasil acabou ficando com a última colocação em competitividade. Os altos juros, a elevada carga tributária e a instabilidade cambial, somados à crise conjuntural, acabaram afastando os investidores, segundo o estudo.

Endividamento do Estado não eleva indicadores

Um dos estados mais endividados do país, Alagoas não conseguiu reverter nos últimos anos seu histórico de baixos níveis de escolaridade, péssima infraestrutura em relação às necessidades da população e ainda se manteve no topo do ranking dos estados mais violentos do país. Estes são os principais indicadores avaliados pela Tendências Consultoria e pela Economist Intelligence Unit na elaboração do Ranking da Gestão e da Competitividade.

O retrocesso alagoano é visível no resultado dos estudos feitos entre 2011 e 2015. No primeiro ano do levantamento, Alagoas era o 17º na classificação geral dentre as 27 unidades da federação. Obteve média 32,9 e coube ao Piauí a condição de “lanterninha”, com média 19. Na classificação que vai de 0 a 100, a média do Brasil foi de 41,6 e o estado mais bem avaliado, São Paulo, obteve média de 78,1.

No ano seguinte, 2012, Alagoas desceu três posições e obteve média de 30,2. O Piauí subiu uma posição ficando com 22,6 de pontuação e o último colocado foi o Amapá, com média de 17,7. A média do Brasil foi de 41,5 e São Paulo, ainda na liderança, obteve 77,1 de média.

Na avaliação conjunta dos anos de 2013 e 2014, a média de Alagoas subiu para 34,1 embora tenha se mantido na 20ª posição, enquanto o Amapá continuou como último em termos de competitividade com média 18,6. São Paulo, no topo do ranking, obteve média 77,2 ao passo que a média nacional foi de 43.

Chegamos então a 2015. Alagoas retrocede e despenca para a 27ª posição, encerrando o ano com média de 25 pontos. São Paulo aumenta sua média para 90 pontos e, claro, se mantém na liderança. 

Mas, o que isto significa? Tão somente que Alagoas retrocedeu em alguns dos principais indicadores, notadamente na segurança e educação cujos conceitos foram 0. Em termos práticos, o resultado traduz a realidade de escolas sucateadas, um ensino de baixa qualidade e o crescimento da violência, ainda que as estatísticas oficiais afirmem ter havido redução no número de homicídios e outros tipos de crimes. 

Está também nos baixos índices de esgotamento sanitário –pouco mais de 30% da capital possui rede coletora de esgoto – na ausência de mobilidade urbana, nas deficiências da rede elétrica e na baixa qualificação da mão-de-obra a explicação para o péssimo desempenho do estado. 

Com a explicação dada, falta apenas o poder público se ater ao que é prioritário paraalavancar o desenvolvimento de Alagoas.

O resultado completo do ranking e a pontuação de cada estado em cada um dos pilares e respectivos indicadores, metodologia utilizada e detalhes podem ser consultados em http://www.rankingdecompetitividade.org.br.

Especialistas analisam estudo e defendem prioridade para educação

Três economistas de diferentes segmentos ouvidos pelo EXTRA foram unânimes em afirmar a necessidade de políticas públicas que priorizem a educação. A elevada concentração de renda, manutenção das práticas de nepotismo e ineficiência do setor público também foram destacadas

ANA CÉLIA DE OLIVEIRA PRADO

especialista em estratégia, desenvolvimento e gestão

- Alagoas ficou na última posição no ranking de competitividade dos estados brasileiros, com nota 25 de classificação. Os menores índices apontados foram Educação e Segurança. Embora muitas ações foram desenvolvidas pelo poder público, falta uma política pública de longo prazo para reverter esses baixos índices. A segurança vem como reflexo da baixa ou falta de escolaridade. O que mais preocupa é a população jovem, principalmente pela falta ou pouca educação, pois sem oportunidades de inserção no mercado de trabalho, esses jovens ficam à mercê da própria sorte, mais propícios aos riscos de criminalidade e vícios de drogas.

A economia alagoana apresentou nos últimos anos crescimento relevante na produção, porém os principais indicadores sociais da região ainda encontram-se abaixo da média nacional. As condições socioeconômicas de Alagoas indicam que o etado é um dos menos favorecidos de todo o país. A renda média, por exemplo, embora tenha registrado um incremento positivo nos últimos anos, ainda é menor que a média nordestina. A concentração de renda no estado é mais elevada que a apresentada no Nordeste e Brasil, evidenciando as desigualdades entre as classes sociais. O fenômeno da desigualdade social é algo que requer atenção especial das políticas públicas, sendo um dos maiores problemas a ser enfrentado pelos governantes. A disparidade da desigualdade social, em Alagoas, pode ser explicada pelo nível de escolaridade. Mesmo tendo oportunidades de trabalho, com o crescimento da economia, os jovens com pouco ou sem estudo, ou estudo de baixa qualidade, não têm oportunidade de inserção no mercado de trabalho; ou, quando têm, ganham pouco, não conseguindo reverter o ciclo da pobreza. As classes de renda mais elevadas tendem a ter as melhores oportunidades de emprego, pois, além de mais estudo, têm o chamado network. Esse nepotismo leva essa classe a conseguir as melhores vagas, o que faz que a renda tenda a se concentrar cada vez mais.

Embora Alagoas tenha avançado em algumas áreas sociais, continua com índices muitos baixos para as exigências da sociedade atual, apontada nas últimas posições do ranking social brasileiro, obrigando a reflexões sobre a eficácia das políticas públicas que estão sendo adotadas. O estado possui elevada dependência das Transferências Correntes, sobretudo da União.  Nota-se a pouca capacidade do governo na geração de recursos próprios, através da arrecadação. Isso faz com que o orçamento fique dependente das transferências públicas federais, e comprometa os investimentos necessários para alavancar o almejado desenvolvimento e atrair novos investimentos privados.

EDMILSON CORREIA VERAS

professor universitário e especialista em economia brasileira e economia alagoana

- Embora tenha melhorado, Alagoas continua detendo os piores indicadores sociais, notadamente na segurança e na educação, lembrando que no que diz respeito ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o estado só não está pior do que o Maranhão. É importante lembrar que está na educação a raiz e solução de tudo. Qual empresa vai querer investir em um estado onde a educação vai mal. Se a situação do Brasil como um todo neste aspecto não vai bem, a de Alagoas é pior ainda. Veja que a China, um dos mercados em franco crescimento, priorizou investir na educação. Não há como Alagoas atrair investimentos de alta tecnologia diante da realidade de uma população que em sua maioria detém apenas o ensino fundamental. Historicamente, os governos não têm priorizado a educação. Basta lembrar que na gestão passada mais de cinco secretários passaram pelo comando da Secretaria de Educação, o que demonstra a pouca prioridade dada ao setor. Em 2012, por exemplo, a maioria das escolas esteve fechada por conta de obras de recuperação. E o pior, todos os anos os estudantes são prejudicados por greves. Reflexo direto do baixo investimento na educação, a violência também cresceu de forma assustadora; assumiu contornos inaceitáveis. Não se concebe que a cada final de semana entre15 e 16 pessoas sejam assassinadas no estado. Enquanto em São Paulo a taxa de homicídios está em 10 mortes a cada 100 mil habitantes, em Alagoas temos 70 homicídios por 100 mil habitantes e o mais grave, em sua maioria as vítimas são jovens. Para mudar esta realidade é preciso rever as políticas públicas, priorizar de fato a educação como base que é para melhoria dos demais indicadores sociais e isto inclui a valorização efetiva do magistério com salários dignos e dotar a rede pública de infraestrutura adequada. Sem isto não há como Alagoas evoluir.

FERNANDO JOSÉ LIRA

especialista em conjuntura socioeconômica

- A elevada concentração de renda em Alagoas segue ditando as mazelas no estado. Hoje são 40 famílias muito bem dotadas de renda em situação que lembra a dos antigos marajás. Não existe distribuição de renda no estado, o que seria possível mediante investimentos na educação. A educação é um dos principais pilares da economia. Temos um poder público que deixa muito a desejar no que diz respeito às atividades de infraestrutura, enquanto o setor privado só existe quando beneficiado pelo poder público. Não se consegue tocar um negócio sem sonegar. O exemplo mais latente hoje é o de Arapiraca, onde o empresariado deixa de aplicar recursos para gerar atividade econômica. Outro exemplo de ineficiência em Alagoas está no turismo que, a despeito do seu potencial, não consegue atrair o turista de renda média. Temos lindas praias, mas a infraestrutura do estado deixa muito a desejar. Mesmo que se disponha de apartamentos confortáveis, falta água, falta energia e isto afeta a cadeia como um todo. E de uma forma geral não há moradia decente para toda a população, reflexo da má distribuição de renda, a mesma que impede a faixa mais carente da população de desfrutar de um ensino de qualidade, num círculo vicioso que apenas faz manter o status quo de uma classe média que já detém o poder e o distribui conforme suas conveniências. A saída para este quadro continua sendo o da educação. Investir em educação é investir no crescimento econômico do estado.

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